sexta-feira, outubro 26, 2007

Ordinário Nézinho

- Pronto, gozei.
- É amor, eu reparei. Muito bom, minha linda.
- Perfeito.
- Está sendo sarcástica?
- Não. Estou sendo sincera!
- Hm. Sacana, safada.
- Porque?
- No cú. Caramba, dessa eu não sabia.
- Nézio, você nunca sabe de nada.
- Opa, do que eu nunca sei?
- Detalhes, apenas detalhes.
- Tipo, quais?
- Do cú, por exemplo.
- O que mais?
- Sabia que quando era adolescente eu fiquei com meninas? A última vez nem faz tanto tempo. De vez em quando me arrisco.
- Já? - surpreso
- Já sim. E não foi nada ruim.
- Então vamos...
- Não, não vamos.
- Porque não?
- De verdade? Enjoei. Você podia ser mais atento.
- Mas eu pensei que estivesse envolvida.
- Até estava. Mas você perdeu a graça. Me desculpa, Nézinho.
- Poxa.
- Viu? Porque não fala "Porra" ao invés de "poxa"? Porque não foi direto ao cú sem eu pedir?
- Porra. Pronto.
- Assim?
- PORRA!
- Melhorou mas não ficará perfeito. Devia ter mais atitude. Tudo que fizer não será mais espontâneo.
- Vamos fazer denovo. Sem conversas.
- Gozei, já disse. Estou indo.
- Quer saber? Eu também cansei.
- Fica descansando aí então. Estou indo.
- PORRA! NÃO TO PEDINDO.
- Ui. Vai me machucar?
- CALA A BOCA.

...

- Bem melhor assim. Foi difícil? - diz ela.
- Não.
- Mas eu não gozei.
- E daí?
- E daí que eu quero denovo.
- Não dá. Estou indo.
- Ah cacete! Eu quero.
- Queria. Pois eu não quero mais.
- Nézinho, volta aqui. Não me irrita...
- Tchau
- Homens filhos da p...

quarta-feira, outubro 24, 2007

Frases


Sou personagem de um romance interessante que eu teria escrito se não estivesse vivendo.




Shopenhauer dizia que, nos seus minúsculos detalhes, tudo na vida parece ridículo ou cômico.



Porque nem as perguntas consigo falar? Vai ver sou mesmo mais bonito por escrito.

Meme do Livro

Este meme é aquela coisa de pegar um livro que esteja lendo ou outro qualquer à sua frente.


Abra a página 153
Procure a 6ª frase completa
Poste essa frase em seu blog
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E cá estou debaixo de chuva ligeiramente empolgado postando a frase.



- Meu caro Zig, o senhor é especial. (Zig é Zigmunt Freud, o psicanalista)

(Quando Nietzsche chorou)



Agora vou repassar para a Letícia (http://www.cuidadoaoentrar.blogspot.com/), Robertinha (http://www.emalgunsinstantes.blogspot.com/), Erika (http://oncoto.erikamurari.com.br/), Mariliza (http://tempodesaturno.blogspot.com/) e Girassol (http://omeugirassol.blogspot.com/)


Boa leitura, galera!


Claro, à convite da linda Daniduk (www.blog.daniellakai.com)

segunda-feira, outubro 22, 2007

Eu

Quadrúpede ridículo.
Um mamífero ignorante.
Um primata indesejável.
Um repugnante ser
Um rastejante imoral
Um animal.
Mas eu me amo
O coisa normal.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Por Parte de Pai

Dezenove anos com muitos sonhos. Magro, de óculos, pálido, agradável. Uma vida sendo aberta pela frente, um clarão de que se tem notícias nos melhores momentos da vida. O chevette 79 na garagem e suaves prestações na conta. O ano era o de 83. Só vivendo à época para saber o quanto era incrível ter um carro tão atual. Um carro de quatro anos atrás? Cheira a novo, dizia. Trabalhava como desenhista em uma grande empresa. Não me pergunte o que era ser "desenhista". Vale dizer que é o equivalente ao engenheiro dos dias atuais. E, principalmente, estava se casando naquele ano com uma mulher incomparável com qualquer habitante do universo. Após um bom tempo de namoro, um satisfatório tempo de noivado e o tempo que fosse a ser incluso, era o tempo ideal, a estação perfeita para o trem do amor fixar moradia. Todos os sonhos românticos de um tempo bom estava acontecendo. Em casa era comum. Eram sete irmãos sob a tutela do Senhor Jorge e da Senhora Ieda. Uma estupenda família como a minha, a sua e a de quem lê.
A felicidade por completa estava com data e hora marcados para início. Dia 03 de dezembro do ano corrente, 1983. Fosse um desfile da Beija-Flor de Nilópolis o campeonato estaria decidido tamanha felicidade e brilho do casal e do casamento. A semana precedente ao casório fora normal, corrida, ansiosa e animada. Flores para a igreja, buffet, convidados, lista de presente nas lojas, vestido, terno e tudo mais.
Aos 11 anos, Ronaldo sofreu um acidente de carro. Um acidente nada fatal. Uma batida alheia que o fez bater com o peito no painel do veículo. Após o acidente surgiu algo no coração. Uma espécie de sopro, um vácuo. Toda vez que praticava esporte sentia-se mal. Um cansaço fora do comum foi notado. Exames detectaram um problema no coração. Uns diziam ter pouco tempo de vida. No cerne da verdade haveria de fazer operações de cinco em cinco anos ou tomar remédio para o resto da vida. Eram restrições terríveis para o resto da vida. Preferiu a segunda opção tendo como conseqüência não poder haver esforço físico. Uma vida inteira assim.
Cedo. Sete e pouca da manhã. Dia três de dezembro. O dito rapaz corria de lá e de cá. Não casa-se todo dia com a mulher da sua vida, dizia. Seu Jorge pedira, tempos antes, que se fosse o caso de morte, que a vida o levasse no lugar do filho. Achava cruel ver uma vida tão plena ser tirada assim, injustamente. O casamento estava prestes a começar. Desde cedo Jorge não parecia nos seus melhores dias. Ronaldo arrumou-se, aprumou a flor no bolso da frente do terno e correu para a felicidade. A benção pai e mãe.
A cerimônia começou. Seu Jorge e Dona Ieda não apareceram. Aliás, Dona Ieda apareceu e ficou tão pouco que sua ausência fora mais notada que sua presença. Após o casamento a pior notícia sussurrou em todos os ouvidos. Seu Jorge havia falecido. Seu coração atacou talvez pela emoção ainda em casa, sentado ao sofá, sozinho com sua esposa. Não pôde ver o casamento do filho. A causa? Coração. Exatamente o problema do filho. Só que seis meses antes todos os exames comprovaram a saúde impecável e o coração de criança, jovem e forte de Seu Jorge. Não havia nada em seu coração.
Pouco tempo depois novos exames em Ronaldo não detectaram qualquer anormalidade sequer. Estava curado e ninguém sabe explicar como. Dona Ieda contou uma promessa de Jorge: No dia que meu filho tiver de partir, que eu vá no lugar. No dia do enterro sua recém esposa prometeu que o nome do primeiro filho seria Jorge.

Meu nome é Jorge Thiago Ladeira Kuerques, filho de Ronaldo e Cristiane, neto de Eloísio Carlos e Francisca França por parte de mãe e de Jorge e Ieda Kuerques por parte de pai.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Sujeito de sorte

Sujeito de sorte esse tal de Thiago Kuerques. Vou falar dele, de fora, do alto, do que é escutado. Assim mesmo, resume tudo. Sorte. Pode ser que se machuque hoje à noite, pode ser que o amor seja negado denovo, pode ser até que seu salário atrase novamente. É um sujeito de sorte. Um sujeito por ora chato, outras sarcástico, quase nada narcisista, calado, bem palavreado, preguiçoso, apaixonado pela vida. Um sujeito assim, que não sabe cozinhar, é viciado em meia dúzia de palavras, aprende fácil, que tem mania de conselheiro, um doce.
Um sujeito que é o netinho da vovó, o filhinho da mamãe, o orgulho do papai, o safado da empregada, o danado da rapaziada, o tarado lá da sala. O sonho de consumo, o que é quase nada. Um sujeito sem jeito. Um sujeito que come muito e quase pouco. Um sujeito do mundo todo, pequeno e grandioso.
Um sujeito que se apaixona devagar, o que não é demorado. Um sujeito nem feio nem bonito, nem sedutor nem amargo. Um sujeito atordoado que é amado; que tem bem amado. Aliás, um sujeito que tem bem te amado. Um sujeito normal e diferente. Um sujeito cheio de predicados. Sujeito de sorte esse Thiago Kuerques.

domingo, outubro 07, 2007

Vidinha mais ou menos


Ah, bendita normalidade que nunca se apresenta à minha porta.
Fosse coisa morta
saberia o repouso da sua horta.
Pare de galhofa,
me dê a chance de conquistá-la,
me dê a poesia perfeita,
o minuto perfeito,
o espaço divino no tempo,
o sorriso sincero de um bom sujeito.
Tem jeito?

Senhora razão deixa de lado o sermão,
cuide do político ladrão
e me deixe resolver coisas do coração
com a menina emoção.
Deixe eu me apresentar como homem,
deixa eu tentar fazer o sentimento sobressair sobre o racional.
Me cobre, se lhe convir, futuros dividendos
que, eu, lá na frente, feliz,
terei riqueza suficiente
para pagar a tua vidinha mais ou menos.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Primeiro Encontro (Fim)

Morar sozinho é coisa pra poucos. Sem dúvida, poucos homens saberiam lidar com isso. A casa está terrível. Pior que ela apenas o meu humor. Sei como as mulheres se sentem quando tratadas como objeto. Ontem fui o uso, hoje caí em desuso. Decidi desistir. Não arrumei nada, deitei.
Beijo. Que beijo. Que beijo o quê? Nem foi tão bom assim. Só por ela ter uma boca com os limites bem definidos, fina, rígida onde deve ser, flácida onde deve ser, assim bem deliciosa? Só porque ela não é grande, não é nadinha feia e nem um pouquinho encantadora? Não é por nada mas porque ela fora embora? São quantas dela então? Seriam duas? Três? Seria casada? Insana? Gêmea? Era Sofie, um tipo de mulher que só se conhece uma vez na vida.
Cinzas eram o ar e aquele resto de bilhete ao chão da sala. Apenas uns pedaços do papel foram salvos. E diziam:

"...Ric...", "...igo. Não...", "...enc...", "...espere."

- Ric. Igo. Não. Enc. Espere. S.Igo. Ric.S. Não espere. Claro! Sofie foi uma dama ao me avisar para não esperá-la. Homens. Romantismo. Morre o meu poema, nasce a minha acidez. Ao menos fora digna. Quer saber? Vou varrer essa história.
Pontualmente seis e cinqüenta e nove minutos daquela manhã. O cheiro de sofie entranhado no seu corpo não saía com aquele banho. Sabonete. Shampoo. Creme. Condicionador. Loção. Sem noção. A água que deixara o corpo quente entrava em choque com o chão gelado. Nu, diante do mesmo espelho em que notara suas marcas do sexo divino, reparava no estado ridículo em que se encontrava. Uma gota caminhava desde a franja, miúda, passando pela testa, sombracelha esquerda, acima do nariz, canto direito do nariz, bochecha, boca, queixo, chão. Apareceu mais uma. E outra. Mais outra. Eram lágrimas. O choro acanhado de um homem.
O cheiro permanecia. Dindon. Quem seria? Cinco minutos para a campainha parar de tocar ou me permitir um tempo suficiente para desfarçar o estrago que Sofie fez ao meu rosto.
- Sim? Sofie?
- Demorei? Leu meu bilhete?
- Eu...
- Não leu? Dormiu demais, é? Não quis te acordar. Agora feche os olhos.
- Eu...
Caminhamos até o sofá ao fundo da sala, passamos pelo tapete branco e peludo. Eu, vendado pelas mãos dela e pela minha vergonha.
- Seu rosto está diferente. Mesmo assim continua como gosto.
- É o sono.
Foram mais cinco minutos. Ela desapareceu do meu lado. Não abri os olhos nem por curiosidade. Ela faria o que quisesse. Estava atordoado em ter queimado o papel e ter pensado tudo aquilo. Até chorei. Ela pediu para abrir os olhos. Estava surdo. Repetiu e eu abri.
- Gostou?
- Um sonho.
- Também tem. Além de sonhos tem suco, bolo de laranja com cobertura de chocolate, bombons, queijos, leite, biscoitos, morangos, maçãs, uvas e tudo mais. Vamos.
- Nossa. Mas é grandioso. Muito. Muito obrigado.
- Me agradeça com um beijo.
Mais um daqueles beijos. Ao separarmos as bocas Sofie reparou no resto do resto de cinzas no chão da sala.
- Andou fazendo fogueira?
- Não, eram uns papéis.
- E que papéis picotados são esses?
- São...
- "...Ric...", "...igo. Não...", "...enc...", "...espere.". Você queimou meu bilhete?
- Sofie...
- Não. Pensei que fosse diferente. Pensei ser homem. Pensei que fosse o homem.
- Fora uma série de enganos da minha cabeça. O que dizia o bilhete?
- E foi o maior engano da minha. Dizia "Ricardo, não se preocupe comigo. Não se preocupe conosco. O nosso encontro foi maravilhoso. Saí para resolver algo nosso. Me espere. Beijos". Pena você ter interpretado o que quis.
A vida me surpreende. Dindon. Atendi a porta reparando nas lágrimas recolhidas aos olhos absurdamente negros dela.
- Senhora Sofie? Violetas em nome do senhor Ricardo.
- Obrigado.
- Violetas?
- Violetas para encerrar todo mal entendido e, agora sim, começar a vida.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Primeiro Encontro (Continuação)

A visão turva começa a clarear. Me sinto leve. A vida pudera assim ter sentido. Seria precipitado chamá-la de mulher de minha vida? O amor permite exageros. Seria amor? Mais um exagero então. São as nuvens de maio tocando o outono com frutas suaves. São dez horas matinais. É cedo. Podia dormir mais, esticar o sonho bom. Abro os braços espaçados no momento mais confortante da minha cama. Ela não está. Como surpreendera antes, devia preparar o café. Sinto até um aroma diferente. Fervente, indigente.
Nossa! Que bagunça belíssima. Olhe ali minha blusa branca toda amarrotada como a minha cara, coisa falha essa barba. São sapatos, chinelos, meias, lençóis, até um botão perdido da camisa ali notei. O bom desse momento é achar tudo belo. Dizem que o homem não telefona ao dia seguinte. Eu juro que telefonaria se não estivesse aqui tão perto dela. Ainda sinto o cheiro. Sabe a cor do metal quando em fogarél? Aquele avermelhado vivo. É assim. Sou um metal, perdoa ser leigo em química, absurdamente evaporando, liquefazendo, derretendo, amando.
Uma boa idéia. Uma surpresa. Mandarei entregar flores em minha casa o quanto antes. Violetas para ela. Morena meio branca esculpiu em mim os pecados mais virtuosos. Bombons, cravos, doces. Ventilador quebrou, o filme nem acabou e o beijo na boca fora apenas a primeira parte do corpo em que as bocas tocaram. Vou buscá-la.
Sorrateiramente. Assim mesmo. Planando a favor do silêncio. Banheiro, corredor, escadas, varanda, espelho. Estou demarcado. Um arranhão delineado sob o cóccix. A tundra de mim deve estar com o odor dela. Temos provas. Cozinha. Deverá estar lá.
- Sofie? Sofie? Não se esconda. Sofie?
Cozinha arrumada. Sala, só pode. Nada dela. Deserto.
- Sofie? Não se esconda.
Noto algo diferente. Um bilhete amarelado dependurado à porta. Peguei-o.
- Ah Sofie.
Dobrado na palma da mão, estudei seu cheiro ao longe, corri os dedos pelas esquinas da folha. Um papel como lembrança. Foi-se. Ao menos sem dar adeus.Queimei o papel. Me arrependerei, sei, melhor assim.
- Ah. Sofie.

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