sexta-feira, novembro 30, 2007

Parada do Caminhoneiro Gostosão

- Sabe, menina, não quero passar na frente dessa obra.
- Ah, deixa de frescura.
- Não é frescura.
- è frescura sim. E vamos andando.
- Então tá. Daqui a cinco minutos você me diz.
O prédio em construção. O pesadelo de uma era o sonho da outra. Esticando a calçada e as pernas o primeiro bigode soltou:
- Você tá igual melancia na roça.
- Eu? Porque?
- Tá rachando de boa.
Continuaram caminhando.
- Pedreiro é uma raça nojenta. Eu não te falei?
- Eu acho graça.
E outro homem mais a frente soltou a nova:
- Garota abelha?
Ela riu. O barrigudo continuou.
- O homem-mel chegou.
A primeira quis bater no barriga. A segunda. Bom, a segunda riu denovo.
- Acho até engraçado. E se falam essas coisas é porque somos lindas e gostosas.
- Você tem uma teoria muito discutível.
- Se falam é porque somos.
- Pedreiro chama até Dercy de gostosa.
Continuaram a caminhada. Na frente do bar:
- Ei, princesa.
Ela virou-se como num susto.
- Você é o toicinho da minha feijoada.
- Nossa!
- Nossa? Nossa digo eu. Você é tão linda que não caga. Lança bombom.
O nome do bar? "Parada do caminhoneiro gostosão".

terça-feira, novembro 27, 2007

Doce de leite e bolinhos de chuva

É quando a gente fala bem baixinho.
- Eu te amo.
- O que foi que disse?
- Disse que o dia está preguiçoso.
- Está mesmo. Mas vamos animar.
É quando a gente fala bem baixinho.
- Você está a mais linda mulher.
- Oi? Não ouvi.
- Eu? Tava cantarolando só.
- Que música?
- "Ainda lembro", Marisa Monte.
- "Onde você for eu vou. O grande mal que fiz foi a mim mesmo", linda música.
- Pois é.
E a gente acovarda o sentimento, fala bem baixinho.
- Se ao menos...a amo tanto.
- Você ama quem?
- Eu. Eu amo.
- Ama quem?
- Amo goiabada.
- Prefiro bolinho de chuva.
Eu não falo mais baixinho. Nem falo. Ela casou-se. Restaram os bolinhos de chuva. São mesmo melhores que doce de leite.



BOLINHO DE CHUVA


INGREDIENTES:
1 xícara de farinha de trigo
1 xícara de amido de milho
1/2 xícara de leite
2 ovos
4 colheres de açúcar
1 colher de sopa de fermento em pó


MODO DE PREPARO:
  1. bata o açúcar com os ovos e junte os demais ingredientes, em uma panela esquente o óleo e frite as colheradas em fogo baixo.

  2. depois de frito passe os bolinhos em açúcar com canela.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Prêmio

Olha que coisa. A Mel (http://blogcasuale.blogspot.com/) teve a coragem de dizer que sou escritor. E, além disso, de premiar com o Escritores da Liberdade. De verdade essa coisa de "escritor" e "liberdade" são coisas muito relativas. Como ela, eu também não em considero escritor. Que seja. Liberdade então, nesse caso, é escrever por vontade, oportunidade, com asas e palavras soltas. Deixa voar o sorriso pela singela lembrança. Obrigado Mel.


Vou repassar a quem convém. Os considero, sim, escritores da liberdade.


Letícia (Cuidado ao entrar), Erika Murari (Onconto), Paulo Fernando (A verdade nua), Ly (Divino Senão Fosse Humano) e Robertinha (Em Alguns Instantes).

Desfrutem.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Pré-conceitual

- Me chama de negro.
- Eu não.
- ANDA, ME CHAMA DE NEGÃO.
- Claro que não.
- Porque não? Eu sou negro.
- Primeiro, porque não me convém chamar-lhe de negro. Segundo, porque você tem nome. Terceiro, que essa coisa de "negão" é só pra suas "nêgas".
- "Nêgas"? Vou te processar.
- Ora.
- Você falou com conotação preconceituosa.
- Então desculpa.
- Tudo bem. Mas porque você tem esse preconceito? Já ficou com uma negra?
- Eu não tenho preconceito.
- Já esteve com uma?
- Não.- Seu preconceituoso!
- Só porque nunca estive com uma negra? Vai ver eu nunca tive oportunidade. Já pensou nessa hipótese?
- Não tem desculpa.
- Tudo bem. O que quer afinal?
- Que confesse seu preconceito.
- Mas eu não tenho.
- Você está incomodado comigo só porque sou negro. Nunca quis estar com uma negra e tem nojo de se referir a mim como negro.- Ah, por favor.
- Viu? Confessou.
- Eu não vou confessar o que não sou.
- Sabia que preconceito dá cadeia?
- Sabia sim. E o que é preconceito para o senhor?
- Você me tratar de forma diferente só porque sou negro.
- O senhor conhece o Lázaro Ramos? Viu Ó pai, ó?
- Conheço. Vi sim. E o que que tem?

- Numa cena o personagem do Wagner Moura chama o personagem do Lázaro de negro por causa de uma dívida no que este responde numa das mais belas retóricas sobre a questão da raça: - Porque me chama de negro? Não comemos da mesma comida? Não sofremos das mesmas doenças? Não tomamos os mesmos remédios? Não sangramos da mesma cor? Não somos gente? E você vem me chamar de negro?

- Eu lembro dessa cena.
- E você aqui querendo que o chame de negro, querendo reverter o quadro que transparece que o preconceituoso aqui é você mesmo.
- O quê?
- Exatamente. O preconceito começa contigo.
- Só quero respeito.
- Desisto.
- Me chama de negro.
- Preto.
- Ahhhhh seu f...
- Calma. estava brincando. Mas porque até tu diz que quanto tudo está mal que a "coisa está preta"? Porque tem superstição com gato preto? E galinha preta?
- Meu amigo, a coisa tá afro então.
- Um chocolate quente então?
- Melhor, café com leite.
- Aceito.

terça-feira, novembro 20, 2007

Carioquice




O inexplicável rubro-negro parece uma mística odisséia futebolística de novos tempos ou de tempos em que não há razão para esses cariocas carentes se apegarem com tanto afinco. É a ultra-euforia de um time que ganha mais atravéz de vozes e aplausos do que através de chutes e galopes. Fui comprar o uniforme do soldado em preto e vermelho. Esgotado. "Volte semana que vem, de repente já teremos". O vendedor deu um sorriso matuto. Com certeza flamenguista, supus na contradição convicta. A vergonha de chutar torto, de ovacionar o ébano Obina transpôs as arquibancadas de cada mesa de boteco. Resolvo vestir o manto comprado com custo a duas semanas atrás. O caminhoneiro grita "aee flamenguista, tá com tudo heim?". Pois é. E o outro me gritou "Se tivessem usado essa camisa ontem...". O "ontem" dele refere-se ao pseudo jogo de futebol da seleção brasileira contra a seleção peruana em Lima, Peru. Deu tanta raiva, mas tanta raiva, que no trailer do bigode eu gritei "Peru neles!". Enfim, poucos amigos...
É algo inexplicável essa carioquice sem vergonha que vem fazendo festa no Maracança, que vem ensinando o que é paixão, que não tem ligado para a reafirmação da fama de que carioca é relaxado e só quer saber de praia. "Carioca é tudo folgado", me disse a mineira. E eu não discordo. Sou rubro-negro e muito folgado mesmo. Te mete com esse mar, esse verde com sotaque de beleza, esse sol amarelinho, esse céu de cetim...

sexta-feira, novembro 16, 2007

Meu terno negro


Contigo aprendi a ser menos misterioso. Não tem funcionado nenhuma tentativa de criar um jogo. Vou ao teu encontro com milhões de idéias para agir, maquear o que sou e sinto. No ato nada acontece. Têns o poder de me fazer ser sincero. Tranforma minha alma em minha roupa. O que vê é aquilo que sou. A minha vulnerabilidade você conhece toda. Até minha fraqueza e minha força.

Certo dia quis uma sessão de verdades. Quis tacar-me na parede, beijar meu peito pouco peludo, puxou levemente os cabelos, quis arrancar minha roupa. Era minha alma ali. Mais uma vez me viu de verdade. E nem senti vergonha. Senti pena. Fechou os olhos e disse em sussurros que eu sou lindo. A fiz abrir os olhos e confessei: EU TE AMO.

domingo, novembro 04, 2007

Fila de banco


Três horas e vinte e sete minutos em pé nessa fila. Já reparei em todos os rostos. Depois de estar aqui deixei a mente sair, voar. A linha de pensamento é burra. É sem reta, nem rumo. Uma bunda, duas bundas, prova da faculdade, professora chata, piadas com ela, sorriso de
lado, auto-crítica com minhas piadas, medo de não ser boa pessoa, receio de não ter falado tudo da última vez que estive com a amada, amada, amor, que amor, amor estranho, eu amo, jogo do flamengo. Meus pensamentos.

Fila do banco. Desgraçado momento na vida de um pobre. O odor era de feira livre. Estariam economizando energia? Nem ventilador funcionava. O calor, nossa! A gordinha à minha frente, blusa grudada de lycra - se é que era mesmo isso - de cor vermelha com duas marcas generozas de algum tipo de líquido debaixo dos braços. Não sei se sou indiscreto ou se fora apenas conscidência. Ela mirou em mim o olhar vesgo e matuto.

- Quero te dar...
Pensei. Como assim? Me dar? Sem um carinho? Sem ao menos perguntar meu nome? Pera lá. Sou gente.
- Dar?
- É. Nossa vez já está chegando. Quero te dar...
Nem deixei terminar. Que fosse a mais bela do mundo. O tesão é quebrado. Dar. Dar. Dar? Que vulgar! Só faltou perguntar se quero comer. Mas isso nem deve importar. Ela quer é dar. Confesso ter analisado novamente. Não era tão ruim. Era cheinha. E eu cheinho de vergonha,
claro.
- Minha senhora - comecei - dar assim, sem umas indiretas? Sem uma conversa? Eu não sou objeto. Tenho coração. Sou feio mas sou legal.
- Ahah, você não entendeu.
- Entendi sim. A senhora quer me dar mas eu não quero comer.
- Comer?
- Comer; dar uma borrachada; uma bimbada; um pega-pra-capá; um tchaca-tchaca-na-mutchaca...
- Eu só quero te dar meu cartão. Sou psicóloga e reparei a tua necessidade. Não é normal falar sozinho numa fila de banco.
- Ih.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Não sou um Swayze


Demos um beijo como de Patrick Swayze e Demi Moore em Ghost. Pus as duas maõs em seu pescoço, a ponta dos dedos na nuca, seus olhos cabisbaixos, minha testa na sua, celebrando um ponto de partida invisível. Desci as mãos pelo resto do pescoço desnudo, encontrei os ombros, ambos, com a mão esquerda levantei seu queixo e num beijo o cinema fez-se realidade. Não sou um Patrick Swayze e nem você uma Demi Moore mas iremos nos amando até o outro lado da vida.

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