quarta-feira, outubro 29, 2008

Mais um burro contando história de sabedoria

Um burro carregado de livros é um doutor.
Mas hoje em dia mais vale parecer
Do que realmente ser.

Nem pareço,
Nem sou.

sábado, outubro 25, 2008

Seria uma honra

Quisera eu ter a chance que tú, mais carioca que eu, tem nas mãos. Quem me dera. No máximo, me é permitido fazer da água do mar algo tão meu quanto seu. Só não me permitiram a grandiosa chance de fazer o que espero que façam amanhã. Quem me dera ter a honra de votar no Gabeira.
Porque Fernando sempre foi um dos poucos políticos que admirei. Culto e esperto soube utilizar dos instrumentos que tinha sem querer fazer propaganda com isso. O maior acerto foi ter revertido a falta de verba em algo posivito. A transperência das contas prestadas incomodou os outros candidatos. E a proposta de não sujar a cidade é, claro, primeiramente de uma intenção honrosa e exemplar e, depois disso, uma boa jogada visto que papéis e santinhos nada mais são que gastos e mais gastos.
Eu confio no Gabeira. Pela postura e pela coerência. Quisera eu ter essa chance. Seria a primeira vez na vida que eu votaria com orgulho em um candidato.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Os oito olhos

Não é para dizer que quebraram-me os óculos que cheguei aqui. É para dizer que apesar dos óculos quebrados eu cheguei aqui.
Só tinha percepção das coisas quando estas permaneciam a três metros de distância. Se mais, era uma coisa qualquer nada nítida, fosca, desfigurada, irreconhecível.
Não vim até aqui reclamar da solidão do caminho, dos tropeços no meio-fio e da falta de auxílio alheio. Vim para dizer que apesar de tudo isso nos tropeços eu levantei, cheguei e não mais solitário estou. Estou com você.
Só não percebi que havia mais gente. A resposta foi contundente. Por ela eu ouvi coisas. Dos lados haviam cândidas açucenas espalhadas entre gramíneos vivos gramíneos mortos provavelmente pelo pisoteio desses pródigos ninguém.
Não vim até aqui, disse uma voz grave e aguda ao mesmo tempo, para dizer que não vejo as cores. Vim, continuou a voz, dizer que apesar de não saber que sequer existem cores eu cheguei aqui.
Só enxergava preto e branco. Eu, três metros de alcance. Ela, via a todos, linda de morrer. Somamos dois observadores sôfregos e uma tênue bárbara.
Não vim até aqui, uma última voz refinada e tranquila, para dizer algo dos meus olhos. Nem gosto muito de falar. Só que vocês vieram e falaram muito.
Só percebíamos o tom de Jorge Ben no que versava e a boemia no que exalava. Apesar de tudo, era alegre e vivaz. Continuou.
Só que devia lhes alertar para o "apesar", finalizou o homem último.
Perguntei-lhe o que diabos fazia por aqui no que ele deu de ombros:
- Nunca precisei usar óculos e não reclamo por isso. Não sei o que são cores e não reclamo por isso. Não sei o que para que servem os olhos e não reclamo por isso.
Era um homem de olhos belamente azuis.

sábado, outubro 04, 2008

Namorada da infância - Fim

Eu estava desinspirado. Preferia não contar mais dessa história. Meu tio solteiro, velho e estranho dizia que a melhor relação era aquela que não existia. Sempre esquecia de dizer que tio e sobrinho também era uma relação mas tinha medo dele falar que nossa relação era uma das piores para ele. Este tio certa vez nos viu juntos. Nos viu em um beijo extenso. Não era discreto. Fez barulho. Deu um sorriso e foi embora. Clarisse ficou com medo que ele contasse. Porquê esconder? Eu dizia. Porquê mostrar? Dizia ela. Era despedida. A pequena me deu uma carta e um vidrinho de perfume pelo final como lembranças.
- Tenho que ir.
Ela dizia que tinha que cuidar da filha. Entendia. Pediu para que eu fosse junto. Devia ser por educação. Nessas horas não se aceita. Mas eu fui mal educado. Aceitei.
- Desculpa, mas você não fala da sua viuvez.
- Vai ver é porque eu posso ter matado meu marido e não querer que você se assuste.
Cínica. Interessante como via traços da menina em uma mulher desconhecida. Ou era estranho como conhecia uma mulher que tinha em si uma menina que sempre fez parte da minha vida. A casa era apertada e bem arrumada. Era suburbana e das mais ricas que conheci. Tinha detalhes e era lisa ao mesmo tempo.
Era aniversário do Trum, o filho da Dona Tânia lá da rua. Trum era apelido de um menino magrelo e mais alto e que eu nunca soube o nome. Alto demais para quem tinha treze anos. Crespo. Tímido. Muito tímido. Mas teve festa. A casa do Trum era no terceiro andar de um prédio de três andares e uma coberturazinha. Era na cobertura. Uma espécie de salão, um play. Até que na hora do parabêns eu não a vi. Procurei passando os olhos pelas janelas, portas e cantos. Sem sucesso. Varanda, porque não? Porque ela não seria capaz. Foi. Olhos amendoados, cílios grossos e olhar cínico. Cheguei na varanda e ela cruzou meu caminho. Voltou para o salão, bela, esbelta e canalha. Deu tempo de lançar a ironia no fundo dos meus olhos. Na varanda o Rodrigo sorria. Apenas sorria para o nada. Não me viu entrar. Não me viu estar. Não me viu sair.
Essa mulher tinha traços de Clarissinha. A gargalhada. Tomamos uma dose de caipirinha com menos limão que o necessário. Depois de algumas as coisas perdem um pouco o sentido. Ou eu passo a sentir mais que o habitual. A lua sorria. Você, caro leitor, sabe bem que tem certas luas que sorriem, certas luas que gritam e certas luas que são como certos amores antigos que estão ali mas não estão.
Naquela noite vimos a lua. Acho que pegamos no sono. Duas crianças que abusaram na dose de inocência e ousadia. Crianças das pernas pequenas, braços pequenos, bocas, pés, dedos, tudo pequeno e mente tão grande. Adultos das pernas grandes, braços e tudo grande e mente pequena. Achei o meio termo.
Naquela noite abusamos na dose de caipirinha. Dois adultos infantis, nostalgicos, ridículos.Peguei a chave. Saí. Tranquei a porta. Taquei a chave por debaixo da porta. Enquanto esperava o elevador, depois apertava a tecla P e saía do prédio eu começava a raciocinar. Tecla P. Pena. Porção. Passado. Partida. Nada volta. Tem coisa que tem que permanecer. A viúva não é a Clarissinha. Nunca será. Peguei meu celular de volta, anotei o número num pedacinho de papel e deixei em cima da mesa da sala. Quem sabe Clarissa, hoje? Ou não. O ontem não volta. Nem quando se tem treze anos rabiscando portão com iniciais, fugindo inconsequentemente para a praia, em festinha de amiguinhos ou arremessando celulares em bolsas alheias. Sejamos razoáveis e anormais. Era a minha versão Capitu e eu não sei se queria ser Bentinho.
A Capitu apareceu e me esfacelou como eu previa. Mas eu sobrevivi.

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