quarta-feira, dezembro 30, 2009

Ainda Lembro

Se um dia eu perder a memória não saberei que fui um bom homem; falhado na superfície; alaranjado na essência; romântico por natureza; um quê de feliz tristeza;
Se um dia eu perder a memória não lembrarei que já conheci grandes pessoas; que tive grandes amigos; que mesmo esses amigos que se afastam naturalmente um pouquinho sempre estarão em cena; que já fui apaixonado perdidamente e sem medo;
Desmemoriado, não ia saber que já fui pra Argentina, Paraguai, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Estados Unidos; e que já morei em Mesquita, Nilópolis e Nova Iguaçu; que já entrei em três faculdades; que já ganhei dois concursos de poesia e que eu já produzi grandes obras literárias de seis leitores ofegantes;
Não saberia dizer o que é Flamengo; pipoca; lasanha; futebol; chocolate; beija-flor; vinicius do morais; cachoeira; natação; fernando pessoa;
Não teria o prazer de lembrar que tenho irmão, mãe, pai, irmã, mães, namorada, amigas e amigos absurdamente companheiros;
Se um dia eu perder a memória não saberei que fui isso tudo e mais um pouco, contando piada sem-graça, aconselhando até quem nunca vi, dando apoio e, cada vez mais precisando ser apoiado na mais corajosa aventura que me meti, que é viver.
Mas ainda lembro disso tudo, não se preocupe.

sábado, dezembro 26, 2009

Dia Internacional da Troca

No dia internacional da troca tem casal realizando o desejo erótico reprimido. Tem gente que nem sequer fica no empate, quer trocar de parceiro definitivamente.Tem gente trocando a dama pelo cavalo, vê se pode. Tem gente trocando um montão por trocado. Tem gente que tem trocado uma de 40 por duas de 20.
Trocaram tiros, trocaram farpas, trocaram passes, trocaram biscoitos, trocaram o uniforme no final do jogo, trocaram sal por açucar no café e na pipoca, distraído. Trocaram de carro anteontem; trocaram de casa ano passado; trocaram de mesa; trocaram a comida fria e limpa pela comida quente e cuspida. Bem feito.
Pois tem gente que troca globo por record; que troca a micareta por um só; que troca Paquetá por Marajó. Tem gente trocando o doze anos por leite; o MC por DJ; o DJ por VJ; e o VJ por qualquer modelo mesmo. Tem gente então que troca modelo por gordinha; a rúcula por coxinha;Ana Hickman por baixinha; a paz por faxina.
Já trocaram o Papai Noel pelas camisas brancas de reveillon; o São Paulo pelo Flamengo no coração; o sapato pelo chinelo novo; o jazz pelo carnaval; a primavera pelo verão; o assado pelo cozido; só não trocaram ainda meu nome porque a numerologia não permitiu. Trocaram as bolas do meu bilhar; as asas da minha imaginação; trocaram o beijo pelo aperto de mão. Trocaram de lado os inimigos; trocaram de laços os amigos; amigos que trocaram abraços por beijos. Tem gente que já trocou o lado de cá por inverso; trocou o prédio pelo brejo; a Avenida 25 de Março pelo interior do Espírito Santo.
Tem gente que troca os pés pelas mãos; os "sims" pelos "nãos"; mas o talvez impera. No dia internacional da troca dos presentes que não serviram no dia 24 a noitinha, eu não to querendo trocar nem olhares. Porque os meus presentes sempre são sob medida. Meu último presente foi você.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Prioridade e opção

No que ela pede:
- Eu precisava ouvir sua voz. Só você me traz calmaria nas horas que preciso.

[...]

- É que precisava de conforto. Estou passando por uns problemas e queria te ouvir. Sei que você me ouve.

[...]

- Estou passando por um processo de perda. Muito triste. Você é o único que me faz sorrir.

[...]

No que ele responde:
- Nos momentos bons irá me procurar algum dia?

segunda-feira, dezembro 14, 2009

A Nova

Eu desisto. Desisto da compreensão. Desisto de manter a pose diante dos dias que nascem. Não vou chorar. Só não vou cantar. Desisto da vida ao menos por hoje. Porque brilhei tanto e ninguém nem nada sequer acudiu a cabeça, levantou a face e me olhou. Vivo de admiração. E nem nas fotos eu posso sair. Ninguém me captura. Ninguém mais me oferece de prêmio, de prova de amor. O último visitante já deve até ter morrido. Passaram-se, sei lá, uns quarenta anos. Não sou lá uma jovem. Não tenho mais paciência, tempo a perder e a menopausa é o mais ardente dos companheiros. Por tanto me ignorarem eu desisto. Pelo menos hoje. Pelo menos nesse mês. Peço um tempo. Um tempo para pensar. Um tempo para me ver.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

A Derrubada

Corria bastante para impedir a vossa loucura. Ela não podia pular. Mesmo que tivesse o líquido mais macio do mundo, mesmo que tivesse uma viva alma disposta a agarrá-la no ar, mesmo que boborletas ninjas transpusessem seu corpo um planar de pouso suave, nem que a tosse da vaca, um espirro alto, a pusesse no chão bem devagarzinho. Nada de saltos para o nada. Corri derrubando tudo ao caminho. Não gritei para não assustá-la. Raciocínio frio, eu sei. Tenho dessas crises de sapiência em momentos de adrenalina. Sou o avesso do avesso do nada certinho. Todo atabalhoado, derrubei carrinho de pipoca, pipoqueiro, algodão doce, moço bicudo, moça fazendo biquinho, maçã do pé, e pé do anão. O violão do corpo dela inclinava-se para fora, os pés já apontavam os dedos para fora do vão da ponte. O processo de queda começava. Agarrei-a pelo colarinho com a mão esquerda. Minha tendinite gritou. Meu amor voltou. Caiu em cima de mim, dobrei os braços e pernas, arranhei as costas, e o dedo mindinho direito quebrou. Saía sangue demais. Mas o beijo que ela me deu vermelhou por dentro. Esquece o sangue. Esquece o dedo. Esqueci toda a dor. To vivo, muito vivo aliás, apesar da carne morta.

segunda-feira, novembro 23, 2009

O Lápis e a Caneta

A natureza do lápis difere da natureza da caneta. O lápis é madeira. A caneta é plástico. O lápis é orgânico. A caneta é sintética. O lápis é grafite. A caneta é tinta. O lápis é amigo da borracha. A caneta é amiga do branquinho. O lápis desenha. A caneta rasura. O lápis é rascunho. A caneta definitiva. Na prova só caneta. No papelão só lápis. O lápis diminui de tamanho, tem o apontador, doloroso. A caneta seca, morre de velhice. E o mais importante é que o lápis é criança e a caneta adulta demais para escrever isso aqui.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Recheado

Tenho seriamente pensado em reverter as coisas dentro de mim. Viver da mesma água até o fim da vida é rotina assassina. Vou, cansado, ser um. Vou, extasiado, ser outro. Vou, embebedado e drogado, ser mais outro. Vou me mascarar de várias faces de mim. Não é crise de personalidade. Sou eu num todo. Contudo penso nos meus filhos que virão. Não quero assustá-los com mais de dois de mim. Para eles terei que ser um até que cresçam e se entendam como gente recheada. Exatamente como eu. Ou não. Antes e depois, tantos. Durante, um. Descomunal dor de cabeça. O prazer de me ser é fenomenal.

sexta-feira, novembro 13, 2009

A noite sádica

Vivo uma simetria amorosa e tolerante de raiva e paz totalmente combinativas e similares. Mas é quando eu durmo que a similaridade se dispersa. É quando as contas tentam sempre se acertar. A noite é sádica. Vem prestar o deserviço irracional. O dia pode evoluir em uma normalidade canadense. A noite sempre vem cobrar a verdade. É à noite que as verdades aparecem. É quando a gente dorme que essas coisas aparecem e nos mostram o quanto somos vulgares, horrendos e covardes. Nessas horas a razão vai dormir na sala. A emoção vem me cobrar as coisas que não fiz, vem cobrar a ausência das coisas que realmente quero e não as que realmente devo. Devia nunca mais dormir. Mas quando acordo é que a razão amanhece ao pé da minha cama distribuindo horários, afazeres e outras funções do dia invariavelmente despretencioso, estúpido e silencioso.

domingo, novembro 08, 2009

A princesa e o negro

Maquiava-se com vontade ininterrupta. A mulher chegou onde chegou por isso. Ninguém a domava mas domava até o ninguém. Nem super velocidade, nem hiper força. Ela possuía o poder da persuasão. Seu fraco? Sei lá. Diziam que era Pedrão.
Era uma grandiosa movimentação. O maior negócio da história do Brasil. Assinaria a Lei final. Mesmo a contragosto. Uma marquesa, princesa, realeza. A primeira assembléia possuía trinta pessoas. Em suas mãos um bilhete:
"Não preste o deserviço de jogar esse pedaço de missiva fora. Acaso me apaixonei por ti, princesa."
Ria-se da gozação. Só podia ser gozação. No dia seguinte, recebera um punhado de documentos e um pedaço rasgado de papel:
"Teus olhos são a fortaleza na qual me prendo toda noite. Te amo para além mar."
Encucava. Parecia raiva. Internamente era intrigante. Já não se ria.
"Se queres saber não saberá. Se queres me ter, terás. Agora se queres apenas saciar a curiosidade, feche os olhos. Amo-te, princesa."
"Reluz em mim esse teu vestido dourado. Só peço que me permita valorizar essa riqueza."
"Se eu fosse nobre digno de tua formosura branca eu seria o homem mais feliz do mundo. Mais que qualquer lei de liberdade."
Os bilhetes seguiam-se em ritmo angustiante. A última reunião ascendera. Era o dia de assinar a revolta dos coronéis e a sentença livre dos negros. Caminhava pelo Palácio sozinha, relutante, pensante. Teve o braço caçado e arrastado velozmente para o primeiro cômodo. Um negro belíssimo, sorridente e com lágrimas no rosto. Possuía na mão um bilhete, talvez o último. A princesa de modo algum havia se sentido insultada. Pegou-o e distribuiu as pontas do papel pela palma da mão direita. Lia o que queria.
"Sou, sim, negro. Sou brilhante por fora. Sou da cor do café que vossa Excelência ama. Assim como o ama, eu a amo. Nada plantei. Nada colhi. Somente vossos lábios não me saem do pensamento. Aprendi a escrever para ao menos contar-lhe do meu amor."
Dera-lhe um beijo na testa e sem palavras saíra da saleta. O negro permaneceu ali por mais duas horas extasiado pelo beijo respeitoso, uma gratidão. A porta abriu-se subitamente. Franziu os cenhos. A princesa não mais altiva devolvera todos os bilhetes e um beijo nos lábios, demorado, eterno, áureo.
Isabel e Pedro. A princesa e o negro.

quarta-feira, novembro 04, 2009

A bochechuda e o velhaco

Tipo boa-praça, sabe? Um petisco de gente num homem médio e bonito. Tímido, é verdade, mas de muito bom coração. E tinha uma filha linda, bochechuda e falastrona. Seu mal eram os olhos. Fingia não ver pra ser mais fácil viver.
Caminhavam, ambos, criança e adulto, sem entender quem é quem, afinal, por um sábado qualquer em uma rua qualquer de um país qualquer. Dera uns trocados para a menina sorrir mais. O outro homem pedia uma fatia de dinheiro. Pedia sentado, acuado, envergonhado. A menina virou-se para cumprimentar o homem e jogou mil cruzados para o moço. O pai da menina passou direto e resmungou para a pequena que o mundo não tem jeito e que ela nunca mais fizesse aquilo.


Linda, excentricamente calada e bochechuda. Era solteira, quarentona. Colaborava mensalmente com a Casa do Menino de Rua simplemente por querer. Era, sim, teimosa.
Qualquer dia perdido no tempo parou o carro para ir ao menor e mais sujo pé sujo para esquentar o pé com um sanduiche quente. Caminhou cerca de 200 metros à noite. Foi abordada por um homem arrumado que lhe apontou o medo. A pegou. A arrastou para o carro. E caiu. Um velhaco bateu bem atras da nuca do violento. Um velhaco sujo, fedorento e sem dentes. Um velhaco cúmplice dos cruzados.

A bochechuda lembrava-se sempre de mal a torto do pai. O mundo tem, sim, jeito. Os olhos é que devem ver tudo.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Rosinha

Rosinha é uma menina. Esquece. Rosinha virou Rosa. Das trancinhas daquela festa junina que a conheci, no meu bairro, nos meus olhos, eu guardei na retina, retida esplêndida. Cinco anos. Não, não são cinco anos de saudades. Tampouco cinco anos de namoro, de diferença, de confusões, de desamores, do que aconteceu. Ela tem cinco anos é de idade. Olhava para tudo e via história. Porque as pessoas falavam ao celular se podiam falar perto, do lado? Outro dia ela me perguntou sobre o sol. Perguntou se a pessoa que ligava e desligava o sol faltasse ao trabalho. Sorri. Rosinha, acredite, essa pessoa nunca deixa de trabalhar.

terça-feira, outubro 20, 2009

Antes de mais nada

Antes de mais nada eu quero ser feliz
Mesmo que meu marido me traia
Sem que eu seja rica
Mesmo travesti
Até preconceito vestir.

Antes que eu me case
E mesmo que eu me case
Quero primeiro ser feliz
Porque porque e porque.
Sem tatibitati.

Para que a vida comece de verdade
Uma felicidade
Por inteiro
E não pela metade.
Combinado?

quinta-feira, outubro 15, 2009

Interrompida

Vestia-se bem. Bem escondido, diga-se de passagem. Parecia mais uma passagem de um filme que já é lançado direto para as piores locadoras. O homem mais era um aluguel de clichês mal-feitos de normalidade que outra coisa qualquer. Nunca soava sincero. Mas dizia que a adora. Pelo menos a desejava sem esconder de ninguém.
Já ela se adorava. Pedia a si mesma que se fizesse o favor de não ficar feia. Era bonita. E além disso gostava muito de ser bonita. Comprava as roupas cujas medidas anunciavam seu corpo inteiro. Explorava cada paraíso de suas curvas. Até as orelhas provocavam o giro astuto dos homens.
Começaram a ter os rumos cruzados. Uma vez ele já estava no ônibus quando ela entrou. Não tirou os olhos dela. Reparou em seus horários. Era sempre dez e vinte e cinco da noite. E reparou também no ponto final dela. O bastardo certa vez saltou no mesmo ponto que a branca. Seguiu seus passos. E a mulher nada reparava. O homem marcou o dia.
A noite seguinte era úmida. Choveu fino pela tarde inteira. Depois disso só ressoava o molhado num som seco. Saltaram no mesmo ponto, ela antes dele. Caminhava sempre pela mesma rua movimentada e, logo após, por uma ruela cheia de cantos. Na esquina segunda o homem aproximou-se falando do tempo, do trânsito, da hora, do perigo. Falou da beleza dela. Do decote convidativo. Perguntou se tinha namorado. Não importava ter ou não ter. A rua tinha trezentos metros estreitados entre prédios altos e calçadas mal planejadas. O homem começava a tocá-la sem cerimônias. Dizia estar frio. Dizia protegê-la. Dizia-se apaixonado. Ela já se desesperava. Tentou correr e ele já a segurava pelos braços com brutalidade. Dava tapas na cara. Mandava ficar quieta. Até que ela caísse no chão.
Suja e com a alma destruída a branca chegou em casa. Sem ninguém reparar pegou uma roupa e desabou debaixo do chuveiro. Até hoje não se sabe porque a mulher veste roupas largas. Nem sabe-se até hoje separar o que era lágrima do que era água

sexta-feira, setembro 18, 2009

Marcone - Fim

Rodrigo era um bom homem. Salvo suas crises de responsabilidade social, era sim, um bom homem. Mas, como tudo na história, só percebemos quando estamos atemporal ao que se vê. Como Santos Dumont, Van Gogh e outros, reconhecidos quando já era tarde demais. Era uma tarde fria, chuvosa, um dia grafite que não se desenhava muito bem.
Não sou uma pessoa lá recheada de criatividade. Pois bem que é verdade que existe o tal Marcone (que o Rodrigo conheceu depois). Na hora não consegui inventar nome. E hoje sei que o meu inconsciente gritava mais que tudo.
Marcone, por fim e sem meandros, foi meu amante. E os amantes não sabem esconder o tamanho do fogo que os queima. Sempre existem incêndios. Certa vez em um casamento da irmã de Rodrigo, em uma fazenda grande e linda, construção do Séc. XV. Marcone estava lá. E demos um jeito de nos encontrarmos num dos cantos distantes do lugar. Que mal havia, não é mesmo?
Rodrigo ainda tinha na cabeça o dia das flores. Perseguia Marcone. No casario distante cercou tudo com querosene. Pôs brasa no que era pura brasa. Não deu tempo de me matar. Marcone estava com outra de vestido bem parecido com o meu. Era um mulherengo, não nego. Mas eu não me importava. Eu não era totalmente dele. Justo que não fosse meu.
Rodrigo saiu do casamento sem comentar uma faísca do que houve. Dormimos lado a lado. Quando acordei não existia mais Rodrigo. Nem o mulinha, nem suas cuecas penduradas ao banheiro.
Meia hora depois recebi flores vermelhas sem cartão algum. E por esses vinte anos em todo dia 17 dos meses eu recebi a encomenda sem cartão, sem homem.

Marcone

Resolvi fazer. Saí de casa assim que ele foi buscar o carro no mecânico com aquele velho problema de suspensão traseira. A suspensão do Rodrigo também andava devendo. E por tanta falta de animação eu o suspendi por uma semana. Claro, sexo não é a rotina de entrar e sair de um quarto. Suspenso, desde então. Mas hoje termina o castigo. E ele foi buscar o nosso querido mulinha para fazermos algo diferente: Motel. Oras, não preciso comentar a surpresa que é isso.
O Rodrigo é um bom namorado. Eu confesso que também sou boa namorada. Eu sou só dele. O ruim é ele saber disso. Quando um homem tem essa certeza é o início do fim. Por isso fui na floricultura e comprei lindas rosas vermelhas. Marquei para a meia hora seguinte.
Rodrigo trouxe a mulinha para o nosso evento tão aguardado. A buzina não funcionava. Mas nem era preciso. O ronco do motor já avisava da esquina a presença.
Entrou em casa, falou umas conversas meio surdas que eu só concordava fingindo entender. A campainha tocou. Pedi que atendesse, claro. E trouxe o buquê. Entregou-me e caminhou para o banho. Achei que o mundo havia acabado com a falta de reação.
- Que porra é essa? Quem é Marcone?

E tivemos a melhor noite de amor de nossas vidas. Engravidei.

terça-feira, agosto 25, 2009

Confissões de um assaltante famoso

Eu fiz curso de ator para ser assaltante. Minha assepsia de criminalidade é essa. Não roubo vacas nem lojas. Faço assaltos. Sou fã do Danny Ocean e sei que muita gente tradicionalista também idolatra essas histórias. Se duvidar já frequentei os mesmos lugares que o George Clooney frequentou. Já estive nas maiores festas, já tive a maior celebração. Porque assalto para ficar mais rico mas tenho a meus negócios legais. O ilegal não engorda.
Não sou perverso. Não sei matar. Mal sei atirar. Meus assaltos são com armas sem munição. É claro que a arte dramática é o meu segredo. Sei os palavrões certos ditos na hora certa. Sei o local exato da cabeça que encosto a arma; sei que a metralhadora é mais convincente que uma pistola comum; e sei a hora de gritar e a hora de sussurar.
Me prenda para dar uma resposta para a sociedade. Meu medo maior não é ser preso. Meu medo maior é ficar pobre.

(Baseado em uma matéria publicada na edição n° 588 da revista Época)

terça-feira, agosto 11, 2009

Imundo

Sou imundo. Ou o cara é limpo da cara lavada e espírito duvidoso ou o cara é um bendito de um imundo da alma balofa. Se Ateneu, o personagem dos livros meus, se acomete da ode às feias o que dizer do Sarmento, o cão de gravata que flutua pelos corredores de ouro da minha imensa favela? Se são 4:50 da manhã porque não caminhar pela orla da praia nula? Se chove, porque não tentar um banho de serenas gotas d’água doce e morna enviesadas pelo vento?
Sou careca. Não tenho idéias na cabeça que me façam criar penachos despenteados. Por tanto que já li, sou dos piores escritores que esse mundo já viu. Então porque escrevo? Para parecer que sei de alguma coisa. Já ouvi dizer que pintores borram seus quadros e são geniais por acaso. Eu borro os textos e já fui genial por algum dia.
Sou assassino. Mato os chatos de plantão. Tenho nome estranho, sim. Mas já ouvi dizer que em casos de insanidade mental o melhor é chamá-lo de genial.
Sou imundo, careca, assassino e genial.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Pedido de um livro perdido

A literatura me traiu. Muito se deve ao canalha do Nelson Rodrigues. Uma história bonitinha ninguém quer mais contar. Que asco de nada. É um absurdo o que fizeram com as mulheres dessas minhas páginas. Valorizam as amantes e as mulheres finas são relegadas a contracapa. As prepotentes ganham vez. Estou, caríssimo, perdido.
De Ceci não me recordo nem os cabelos anelados. A mulher amava e o homem amava. A mulher e o homem amavam amar. Passou por Capitu, só uma ambigüidade assoladora. Por tantas páginas a fio, pelos rasgos e pelos embaraços vividos eu, um livro, tenho que lhe pedir coisas.
Acaso puder fale com os autores que sinto saudades da mulher Moreninha. Sinto saudades da Gabriela, Tieta, Julieta. Nelson me apresentou mulheres que não valem nem a bitoca muda. Mulheres que me apaixonei. Traem o marido com o cunhado. Apaixonadas por dinheiro são. Mulheres que bebem até cair. E, digo, até cair de boca. Nelson colocou a safadeza cheia de mel azedo nas minhas páginas. Marçal Aquino colocou a safadeza com a escatologia desmiolada do interior de ontem. O senhor pode, por favor, pedir aos caros meninos a caridade de me trazer novamente as lindas mulheres de sorrisos juvenis, cor de gis e voz de aniz?
Muito Obrigado. Uma página amarelada agradece.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Cuido

Cuido das letras como se fossem minhas. Cuido da madrugada como se fosse dia. Só não cuido das notas porque não sou musico e nem professor.
Cuido do vácuo como se fosse físico. Cuido de carteiras como se fosse ladrão, ladrãozinho. Só não cuido da picanha porque sou mau churrasqueiro.
Cuido do Kanji como se eu fosse japonês. Cuido da data como se fosse calendário. Só não cuido da camisa quadriculada porque não sou armário.
Cuido do irmão como se fosse pai. Cuido da mãe como se fosse marido. Só não cuido do cuidado porque sou precavido.

sexta-feira, julho 24, 2009

Romance das meias verdades - Fim

Desmarcou o Shopping por mensagem de celular. Das duas, uma (ou as duas): ou não gostou de mim ou descobriu inverdades; ou até não gostou de mim e viu inverdades; ou não pôde ir apenas. Já contei três, quatro. Cinco minutos depois começava a aula de Cálculo I.
Quarto dia de aula. O universitário vive para comer papel. Toda e qualquer renda é revertida para instituições de cópia, impressão e encadernação. Era um enorme balcão de três metros de comprimento. Cabiam os vinte estudantes que passavam por minuto por ali. Para um calouro esse calor é diversão. Três e cinqüenta de xérox e cinco arranhões nessa guerra civil. O sexto foi enigmático. Quando levantei os olhos a gerente comercial de cervejaria, loira e amiga do Romário petrificou-se. O advogado que já foi a Aspen gelou. Pusemos as pedras de gelo no copo de alaranjado suco e refrescamos as notícias. Quando ela confessou não beber eu confessei não ser preguiçoso. Quando ela disse que no máximo foi a Nova Itália, em Santa Catarina, eu disse na cara mais lavada que nunca gostei do Ronaldo. E minha cara de calouro não enganou. A dela titubeou. “Seu bixo de merda mentiroso”, sentenciou ela. A boa vontade do destino é que de qualquer modo temos que pisar na caquinha para sentirmos o cheiro ruim. De bom humor a chamei para o samba que rolava na chopada mais próxima. “Na Estácio mal tem chopada”, retrucou. Eu só confessei que era um omisso compulsivo que se apaixonou por ela. E ela? Só queria brincar. Brinca a dois anos de rir para mim no meio dos corredores da faculdade. As vezes acho que nem eu sou eu mesmo. Porque ela, brancamente sensual e eroticamente honesta teria de ser verdade para mim? Ao olhar para ela pela segunda vez nunca havia me sentido tão pelado e tremido. Combinamos nunca mais contar histórias que ambos os olhos não tenham vivido. Uma tremenda mentira dizer que não vivo feliz.

segunda-feira, julho 13, 2009

Romance das meias verdades

Quando ela perguntou a minha idade fui logo dizendo vinte. Disse que era advogado. Eu sei, só comecei a três dias na faculdade mas posso me considerar. Tô certo? Ela, afinal, é alta, linda, gerente comercial de cervejaria, loira, já morou na Itália, fala três línguas e gosta de futebol. Eu vou dizer tudo de mim? Eu pensei em fazer mistério. Mas ela tem o poder de me fazer falar. Achava injusto dizer nada de mim. Tudo bem, leitor e torcedor, sofredor como eu, é injusto mentir. Mas quem disse que eu menti? Apenas antecipei os fatos. Nos conhecemos na fila do metrô. Pensei comigo em como uma mulher tão interessante poderia ser tão simples assim. De fato eu sabia que ela era exatamente assim. Só não sabia sambar. Que tem de mal nisso? Quando contou que já tinha ido ao Maracanã de convidada do Romário eu disse que o Ronaldo me deve uns favores. Quando perguntou se eu conhecia Bariloche eu contei algumas aventuras de Aspen. Quando contou que já estava no mestrado eu contei dos meus planos de doutorado. Pensei comigo se uma mulher poderia assustar um homem. Quando me dei conta não parava de pensar nela. E em como encará-la. Dizia-se autoritária, ciumenta e alcoólatra. Para não deixar barato eu confessei ser um pouco preguiçoso e também ciumento. Ressoava a última estação: Pavuna. Perguntei a ela o que faria na Pavuna. Ela disse que estava indo para casa de uma amiga. E eu disse estar indo visitar a minha avó. Marcamos de nos encontrarmos no dia seguinte. Acho que havia me batido a culpa. Era shopping mesmo. Detesto isso. Nunca posso comprar nada.

terça-feira, julho 07, 2009

Surtos desavisados

Nossos surtos são corriqueiros. Sabe aquelas reações espontâneas demais para serem medidas? Sim, mocinha. Sabe aqueles instantes alheios à normalidade. Aquelas mesmas reações onde a piada soa ácida, onde a risada soa arisca, onde a elegância some. Aqueles mesmos onde a máscara pode cair, onde a mágoa pode sair, onde a inveja é exalada. Nossos surtos, sejam por qual motivo forem, são atos de devaneio ou de sanidade corajosa? São eles que nos mostram de verdade ou de mentira? Um grito de dor, um suspiro de amor. São sinceridades profundas ou superficiais reações? O que são?
Preciso me entender. Preciso saber porque da paixão pela altura, pelo volume baixo e pelas mazelas da felicidade. Porque ir na contramão da contramão?
Desculpe, acho que surtei num samba animado.

segunda-feira, junho 29, 2009

Esse tal de Pop

Quem é esse tal de Pop?
É o rapaz famoso da escola?
É o pirulito de morango?
É o programa que não é nada super?
O discador de internet?

Esse tal de pop
É celebridade
Tem um rei morto
É de trás pra frente
Igual de frente pra trás

É moderninho e estiloso
Usa jaqueta de couro
Barba cerrada
E tem fotos sensuais por aí

Posou nu.
E numa boa
Canta de sádico
Bárbaro conservador
Pop por pouco

Polemiza qualquer pipa
E tem um papo bobo
Que todo mundo ri.

É mais ou menos assim:
Dança, faz bico
Fica de birra com os papais
Herói e Heroína
Vicia na noite
Paga calcinha
E morre pobre, louco

Afinal, quem é pop?

Pop é um garoto
Que como eu
Ama os Beattles, Rolling Stones
E Michael Jackson.

quinta-feira, junho 25, 2009

Intuição Masculina

É, não sou o senhor do tempo, nem das inverdades. Creio que há de rir-se um pouquinho com essa coisa de intuição masculina. Mas é, cá, diferente. E quem não acredita nela é mal do seio e crente em mané.
O homem é aquele que canta sem ter vergonha de ser escutado; que abre a porta sem ter de ser orientado; que sabe voltar naquela pousada em Engenheiro Passos mesmo só tendo ido uma vez na vida a anos atrás; que é o único que abre com facilidade o pote que todas tentaram com todas as forças; que sabe ser amigo do outro mesmo que o outro seja só o outro.
Mas é também aquele que não faz três coisas ao mesmo tempo; que não sabe entender a importância de um vestido naquela noite; que não sabe que qualquer palavra mesmo que na final da copa do mundo é de real relevância para ela.
O homem que sabe disso e daquilo tem o instinto. O homem que sabe que palavras valem mais que uma bolsa de grife tem a intuição masculina. O homem que tem os ouvidos aguçados para as mais tensas conversas tem a intuição. Intuição masculina é aquela que as mulheres fingem que não veem e que os homens fingem nao ter. Caríssimos e esgotados leitores, existe intuição masculina, sim. Mas é como vinil, saiu de moda.

segunda-feira, junho 22, 2009

Cinema Clichê

Faça da cena da sua vida inesquecível. E se não o for, tente denovo. Tente outra vez. Vá lá, faça. Seja o diretor. Mande e desmande em si. Mas em toda cena o filme tem de ser notório, uma arte. O amor cínico do Woody Allen e a voraz e sensual tomada do Pedro Almodóvar. Mas tem de ser a todo o instante. A dedicação pela glória individual, onipresente e silenciosa.
Faça da próxima cena da sua vida uma coisa melhor. A atuação é verdadeira, encare de frente o personagem mais difícil da vida de qualquer um. Encare o prazer irretocável de ser você mesmo, nesse clichê teatral e empoeirado. Vale tentar. Vale mesmo, acredite. E se não conseguir, tente denovo.
Tente sempre, novamente. Porque só faz bem quem faz com vontade, só faz direito quem erra primeiro. Errar não é nada ruim. A alma de quem erra é mais bonita, é mais real do que a alma de quem não erra. É mais forte a casca batida que a pela cremosa e alinhada. Vai logo, rapaz e moça, que tem uma hora que a cena acaba. Vai querer chorar no final do filme?

sexta-feira, junho 19, 2009

Debaixo dos meus Lençóis

Acho que o melhor banho de açude é aquele despretencioso. Tem coisa que não necessita de um lugar no espaço, de uma organização no tempo. Me acometi do mal de não ter mal algum. Não era lá um cobertor brasileiro, Lençóis Maranhenses, mas era doce e quente. Sabe? Não tem porquê? Até o porquê, agora, é sem acento.
Agora vou comer algodão doce na esquita canhota do mal lugar onde trabalho, esquina da Dr. Luiz Guimarães com a que não lembro o nome. E depois vou caminhar pelo verde que resta no meio da Via Light (se não mora em Nova Iguaçu, pesquise. Uma via expressa que atravessa a cidade). Atravesso sinais vermelhos, olho o poente nada doente. E depois vou dar boa tarde a cada um que merecer. E vou pegar o trem rumo ao centro do Rio de Janeiro. Esse trem merece menção algum outro dia. Topo com o aeroporto Santos Dumont. Claro que não é tão rápido. Mas para quê explicar os engarrafamentos que não me irritaram na rotina carioca? Sem porquê. Compro uma promocão para São Luiz. Desperto no final da viagem com a cidade. Observo cada contorno do sotaque, do jeito leve de rir. Vou para Barreirinhas. Tiro toda a roupa, caio no tal açude. O céu límpido, uma coleção sem igual de um amarelo transparente e o azul resplandescente. O que é que há de errado?
O celular toca uma daquelas coisas irritantes mas que eu, particularmente gosto. Ilarilarilariê, ô ô ô. Alô?
- Onde você está?
- O que tá fazendo aí?
- Porque foi?
Ei, meus três leitores assíduos, a questão não é de porquês. Porque oras bolas eu tenho que ter porquê para tudo? Eu simplesmente quero morrer de tanto viver. Pode?

terça-feira, junho 16, 2009

As "Índias"

Não sei se estou certo ou errado. Não gosto da moda. Nem menos de moda. Pensei que vivia no Brasil, o país do Lula, que está na moda. Saí de órbita em dezembro do ano passado e voltei em março. Lá em Marte a internet era wi-fi e a moda era ser mudo. Ser marciano não era a minha. Peguei o primeiro interespacial e voltei para a vida iguaçuana. E quem foi que disse que eu era extraterrestre? É um tal de canção em hindu, mulheres com uns panos esquisitos no lugar das blusas, uma gíria de habe baba que me cagoetou ao pé do ouvido que agora eu moro na Índia.
O sociólogo diria que o povo brasileiro é suscinto a novidades, há gosto pela quebra da anormalidade. O pessimista diria que o brasileiro é influenciável e não tem uma identidade formada. O historiador explicaria a construção do indivíduo como culturalmente heterogêneo e por isso rico. Na humilde opnião do trocador da Nossa Senhora da Penha (um protótipo de transporte público para o século XIX) o brasileiro não tem o que fazer e é, no mesmo conceito que os cientistas utilizam em relação ao macaco, parente bem próximo das Ienas por adorar "comer o lixo que lhes dão". Agora me digam, por favor, quem chegou ao lugar errado: eu ou o Cristóvão Colombo? O navegador errou as "índias" por bem pouco e na época errada.

domingo, junho 07, 2009

Uma pessoa feliz com lapsos de depressão ou um ser depressivo com espaços curtos de sorrisos sinceros?

Estou na ponta da faca dos açogueiros da madrugada; no amor da mais insensível das piranhas; no ator que não sabe mentir; no medo de altura do piloto; na timidez do presidente; da descrença do líder religioso; da rouquidão da cantora; na falta de talento para a natação do salva-vidas; num jogador burro; num economista que conta só até dez; num relógio que conta meses; numa anestesia malfadada que faz sentir tudo, até esse amor que sinto, vadio. Estou nisso tudo. E não existe. Estou no doce do Oceano Atlântico, na parafina do esquimó, na gaiatice do europeu; na honestidade do juiz. Estou ali, bem ali, pertinho e longinho. Sou a mosca morta ao teu pé. E nem tem pé. É um anjo com pequenas asas de grandes vôos. Que cai. Recai. Sou tudo que é invisível. Nada.
Uma pessoa feliz com lapsos de depressão ou um ser depressivo com espaços curtos de sorrisos sinceros?

sábado, junho 06, 2009

Papéis balzaquianos

Estou com uma intensa vontade de documentar tudo e todos. O rapaz chegando em casa junto do sol chegando ao dia, documento. A senhora metida a jovem menina acompanhada do jovem menino achando-se um senhor. Também documento. E vou entulhando tudo em gavetas transparentes reagentes a benevolências ou maledicências. Se mal, surge uma fluorescência verde-musgo. Se bom, surge uma fluorescência alaranjada-entardecer.
Tá bêbado, menino? Pois digo estar embebedado de inquietações sobre o que perco nas andanças. Andar preterindo buracos e tropeços, receoso do chão que piso, me distraio e permito assim passarem despercebidas vibrantes histórias estampadas nas blusas de Che ou de movimentos culturais. Chego a impensar, e lhes digo, isso não existe.
Vamos documentar que foi a melhor coisa que aprendi esse ano. A vida assim parece um grande crime quase-perfeito. Deverias tu, ou qualquer um, saber disso. A conta de água, o bilhete da namorada, a palavra refreada ou digitada, a promessa proferida ou a asneira engolida viram provas de algum crime cometido, farejado pela milícia do destino. Repare só nos papéis da mamãe e da vovó amarelando os boletins e enfins do já vivido. Sabe aquele não-sei-o-quê comprovante de não-sei-o-quê-lá? Quando o cobrarem, mostre-o. Mostre-o porque palavra por palavra, nem a minha nem a sua não provam nada.

domingo, maio 24, 2009

Demissão do Gerundio

O gerúndio foi demitido por decreto em Brasília. O gerúndio, indicador de ação contínua, tem muita culpa no cartório. É por ele que os rapazes de terno estão estudando propostas, providenciando soluções, aceitando certas coisas. É por ele que estou amando alguém. É nele que meu time, meu patrão, minha mãe e meu irmão estão me enrolando. Azar do Fernando, do Armando...

domingo, maio 17, 2009

"Não to com cabeça pra isso."
E quando era noite na cama ela não queria. O normal não tem graça. Mas nunca falou isso claramente. Se eu te disser, meu amigo, que nunca fizeram na cama deles, acreditaria? Pois bem, nunquinha.
Era coisa estranha. Passou a ter pesadelos. Se achava traído ou estranho. Sabia que ela não era virgem. Mas ao menos tentava achar que ela não era traidora. Passou a mudar o horario de chegada em casa, mudava os caminhos, aparecia repentinamente em outros lugares e Madalena sustentava uma postura correta. Mas um dia...

"Morde!"
Seria absolutamente normal se o lugar não fosse aquela Igreja, naquele banco, naquelas nove horas e doze minutos da manhã de chuviscos de domingo. Tinha mania de fazer loucuras nos melhores lugares. Era abusada quando não tinha de ser.
"Morde, aqui. Morde agora."
"Tá maluca, mulher?"
"Marido, eu só gosto de fazer em locais onde não se pode fazer."

E foram felizes...

sexta-feira, maio 08, 2009

Guerrinha dos sexos

Ele:
*Porque as mulheres sao assim?
Ela:
*Assim como?
Ele:
*Sempre tentam arrumar um jeito de irritar. Agora mesmo, começou a chorar porque disse que nao queria sair na chuva. Ai já venho dizendo que eu nao te amava...
Ela:
*Não é jeito de irritar, é jeito de demonstrar porque estava irritada...As vezes, são vocês que veem assim...
Ele:
*Por um simples não? Então era pra ter visto como?
Ela:
*E quem disse que não é simples?Vai ver queria muito, mas não na chuva...
*Não to tentando me defender, nem justificar, mas é porque eu tenho a mente complicada, e as vezes, descontrolada...eu que tanto prezo pela razão, as vezes esqueço que ela existe...Fazer tempestade num copo d'agua, num dia de chuva, vem bem a calhar...
Ele:
*Não te entendo. Razão, copo d'agua... Deixa pra lá.
Ela:
*NUnca vai entender. Isso é antigo já.
Ele:
*Ahhh, quisera eu entender um dia as mulheres. Ô ser complicado!
Ela:
*Quisera eu que você entedesse...Assim eu não precisaria explicar sempre a mesma coisa...atoa.
Ele:
*Voces podiam vir com o botao de MUTE...
Ela:
*E vocês, com um botão de MUDE
Ele:
*Nunca sabem se localizar no mapa...
Ela:
*Seria mais fácil se vocês não se negassem a pedir informação
Ele:
*Pra quê se eu sempre sei chegar? As vezes voce me irrita
Ela:
*É você sabe chegar. Você sempre sabe, você você e você, sempre...Ah, tem o eu também..o eu te irrito, o eu te incomodo...Auto suficiente, porque eu ainda to discutindo com você?
Ele:
*Porque voce alem de tudo gosta de discutir até o sexo das cortinas. Nada para você é simples. Tem que ter um espetáculo.
Ela:
*Seria simples se você se esforçasse pra me entender.
Ele:
*Seria simples se voce se esforçasse para me entender também
Ela:
*Nada do que eu faço é suficiente pra você...
Ele:
*Me desculpa mas as vezes acho que voce quer ser melhor que eu
Ela:
*Não...você é o senhor perfeito, dono da razão. Eu nunca vou ser nem metade do que você é. Você faz questão de me deixar isso claro, todos os dias.
Ele:
*Por favor. Nao quero brigar mais. Se nao, nao termina bem
Ela:
*Termina. Como então?
Ele:
*Termina com divorcio. Nao quero. Eu ainda te amo.
*Vamos parar de brigar.
*Te amo desde aquela coca-cola.
Ela:
*É sempre assim...a gente briga, fala o que não queria, e no final acha que com um eu te amo fica tudo bem...
*Sabe o que acontece? Eu te amo desde aquela coca-cola. Fica tudo bem.
Ele:
*Só quero que saiba...
*Não quero ganhar de você. Quero jogar junto, entende?
Ela:
*Se não for pra crescer junto, melhor continuar pequenininho...Acaba aqui.
*A briga.
Ele:
*Acaba aqui.
E recomeça aqui, jogando junto.

segunda-feira, abril 27, 2009

Quando ele não sabe falar

Ela sempre pensava com ela mesma o quanto seria medido o que ele sentia por ela. Sequer imaginava. Fosse lá em metros, gramas, gigas... Levantou devagar livrando-se do lençol branco como se fosse um creme caindo do corpo nu. Não haviam espelhos. Tascou uma mordida na maçã que havia na porta do frigobar. Não esquecia da linda noite. Ainda eram quatro e trinta e sete da manhã e ela dizendo que ele dormia fácil. Tomou uma ducha fervente, forte. Ao sair do banheiro havia um pedacinho do papel em cima da mesa, debaixo da carteira dele. Mas ele mesmo, dormia. E dizia:

Um dia eu enxerguei. Mas fazia tanto tempo que via. Foi ontem. É agora. Surgiu um sei lá, um quê de aurora. Não sei explicar. E, pra que o quê se vai querer entender? No meio de um inteiro vestido ela flertava comigo sem nem sentir. Ou sentindo mesmo. A dança das nossas vidas e nossas muitas musicas. Ontem foi um chopp de certezas. O meu pra sempre de hoje é com aquela mocinha de olhos verdes. Uma anja de pele quente e pêlos clarinhos. Ela não me dá sono. Me dá sonhos.

No dia seguinte ele foi para a casa dele e eu para a minha. Encantada, claro. Jantamos juntos como se fosse a primeira vez. Ele tinha o seu jeito engraçado naturalmente. Era carinhoso em certos silêncios. E eu fingi que nunca li nada. Tem horas que não precisam de palavras. Meu filme não precisa de texto, legenda. Ele diz sem saber falar. E eu amo.

segunda-feira, abril 20, 2009

O pobre mimado

Sou um homem doente. E nao estou imitando Dostoiévski. Só não afirmo que sou boa gente cheio de coisas a socializar. Sou do tipo caladão, introspectivo mesmo. Julgo até ter problemas do coração. Nao subo escadarias porque ele não aguenta. Não arrebento nos esportes olímpicos porque sou um pré-destinado à meu leito. E nem porque gosto de ser antipatico vou morrer. Vivo à amargura de usufruir da ausência de telas. Não enxergo televisores. Mas ouço os pingos do suor dos jovens. Sou um desinformado. Sou a antítese do anti-bom, do não-bem. Sou o antagonista do hoje. Sou um doente do coração que nada aguenta com esses pilantrinhas com probleminhas de cabeça de tanto que não suportam a carga de serem ricos, bem-sucedidos, muito fotografados, excessivamente elogiados, banhados de ninfetas cheirosas e de congratulações por serem especialistas do porra nenhuma. Tem como não adoecer, Adriano?

terça-feira, abril 14, 2009

Pintando uma espera

Quando decidiu ser pintor começou comprando telas límpidas com madeira de uma daquelas campanhas eco-responsáveis. Comprou um caderninho médio e começou a anotar os nomes que deveria ser fã. O primeiro da lista foi Salvador Dalí. Arrumou um modo de comprar pincéis de todos os tipos a preços um pouco menores. Ajeitou todo o quarto vendendo uma cama, comprando um tripé dos bons colocando-o no canto do quarto. Arrumou uma malinha onde pusera as novas capsulazinhas de tinta e os pincéis intocados. Certificou-se que dispusera de tudo que Portinari havia falado ser da personalidade de um pintor: o gosto pela arte, o olhar minucioso, os surtos de criatividade e solidão, a desapego ao que irão achar do que se faz e o medo de copiar e ser copiado. Sabia que era assim e mais um pouco. Conseguiu ir a uma exposição de Da Vinci, outra de Rembrandt e passou a fazer piada com Van Gogh. Conheceu pintores velhos e novos e velhos novos desconhecidos. Teve aulas com Dario Silva em Nova Iguaçu. Criou em si as próprias expectativas em silêncio. Batizou esponjas de amigas. Observava revistas em quadrinhos. Mas nunca havia pintado uma figura sequer. Preparava o terreno para o primeiro quadro.
A cerca de vinte minutos atrás meu irmão telefonou avisando que era dia de pintar. Conheci sua primeira obra depois de dez anos de preparação. E mandou avisar que não era a última tela. E gastou um pouco mais de trezentos reais nessa espera.

domingo, abril 12, 2009

Os dedos na memória

Fez cócegas no baço dela com a ponta do dedo mindinho da mão direita. Fechando os olhos peguei o mesmo dedo mindinho e dediquei à memória. Um dia a única coisa que lembrava foi de uma menina de olhos azuis, bem branquinha e calada. Era trote.
Abri os olhos e, no escuro, vi bem detalhada essa branquinha. A mesma que fez chorar esse homem com uma surpresa de aniversário. A mesma que me apoiou no país lá de cima. A mesma que topou casar comigo e descasar. Para virarmos namorados.
Fechei os olhos novamente. Dedo mindinho na memória. Corria o indicador pelo umbigo semi úmido. Foi quando sentamos naquele restaurante italiano. Foi quando fazíamos aviões voar. Foi quando começamos a fazer turismo.
Os outros dedos não citados ficaram enciumados. Juntaram-se aos enamorados das mãos dela. Lembra do Céu de Bianca? Levaram as mesmas mãos grudadas como no Pão de Açucar ao alto. Vimos o que era tão claro. Que é claro que fomos feitos um para o outro. Para quê ser um amor de uma história normal se o nosso original é mais gostoso?
Abri os olhos. Ela ainda está do meu lado na cama, apesar do tudo que fui. E dizendo que nunca é tarde.
Os outros dedos? Furando bolos, catando piolho e contando pro seu vizinho que a Espanha nos espera já que agora o mundo é pequenininho.
Com amor,

Thiago Kuerques

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Colher, spoons e cucharas

Num dos momentos eletrizantes do restaurante vou para a cozinha pedir ao Dish Washer (lavador de louça) colheres.

Nota: Lionel, o Dish Washer, é guatemalteco e seu espanhol é quase incompreensível. Tem seus 29 anos, nao tem pais e vive na "America" a 4 anos. Pensa em voltar para seu país no final do ano. Eles sempre pensam em voltar mas o dolar valendo o equivalente a 7,50 da moeda do país deles...

- Amigo, necessito de "Colher".
- Ã?
- Spoons?
- Como?
- Colher.
- Ahahahhahaha, como abla?
- Colher, spoom...
- Em portugues cuchara es "Colher"?
- Si, amigo. Necessito de cucharas, colheres, spoons...
- Ahahhahahahahha colher. Ahahahhaha COLHER!
- Ta rindo de que?
- Amigo, colher é... colher. Entende? - E fez gestos de ato sexual.

Nao pedi mais colher a Lionel. Vai que entende errado?

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Suco de manga


Sempre tivera aquele carocinho de manga
Envolvido no sabor da fruta
E jogava, chutava, apodrecia
Por ai

O quintal foi apequenando
E as mangas, ficavam por ai.
Pros outros tao mais
Que nada pra mim

Ate que o tufao derrubou a mangueira
Fome senti. E muita.
Que falta a manga
Morto me fez

Se eu tivesse a guardado
Bem aqui comigo.
Feito suco
Saboreado

Mas fui pra onde nao tem arvore
Fui pra onde nao tem quintal
E assim se faz a falta

Era um jogo mal jogado
Era uma mania chata de dar esporro
Era uma coisa incomoda, o sol.
Mas era.

Mesmo quando ruim, era.
E agora, pior, sem.
Tao triste.

O jogo pessimo.
Hoje nem temos jogo.

O esporro da mae.
Aqui nem tenho mae.

O sol ardente.
Aqui o sol padece resfriado.

E a manga, se tivesse
Seria o suco mais valorizado.

A falta que se faz presente
A todo passo que a vida vai dando pra frente

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