sexta-feira, julho 24, 2009

Romance das meias verdades - Fim

Desmarcou o Shopping por mensagem de celular. Das duas, uma (ou as duas): ou não gostou de mim ou descobriu inverdades; ou até não gostou de mim e viu inverdades; ou não pôde ir apenas. Já contei três, quatro. Cinco minutos depois começava a aula de Cálculo I.
Quarto dia de aula. O universitário vive para comer papel. Toda e qualquer renda é revertida para instituições de cópia, impressão e encadernação. Era um enorme balcão de três metros de comprimento. Cabiam os vinte estudantes que passavam por minuto por ali. Para um calouro esse calor é diversão. Três e cinqüenta de xérox e cinco arranhões nessa guerra civil. O sexto foi enigmático. Quando levantei os olhos a gerente comercial de cervejaria, loira e amiga do Romário petrificou-se. O advogado que já foi a Aspen gelou. Pusemos as pedras de gelo no copo de alaranjado suco e refrescamos as notícias. Quando ela confessou não beber eu confessei não ser preguiçoso. Quando ela disse que no máximo foi a Nova Itália, em Santa Catarina, eu disse na cara mais lavada que nunca gostei do Ronaldo. E minha cara de calouro não enganou. A dela titubeou. “Seu bixo de merda mentiroso”, sentenciou ela. A boa vontade do destino é que de qualquer modo temos que pisar na caquinha para sentirmos o cheiro ruim. De bom humor a chamei para o samba que rolava na chopada mais próxima. “Na Estácio mal tem chopada”, retrucou. Eu só confessei que era um omisso compulsivo que se apaixonou por ela. E ela? Só queria brincar. Brinca a dois anos de rir para mim no meio dos corredores da faculdade. As vezes acho que nem eu sou eu mesmo. Porque ela, brancamente sensual e eroticamente honesta teria de ser verdade para mim? Ao olhar para ela pela segunda vez nunca havia me sentido tão pelado e tremido. Combinamos nunca mais contar histórias que ambos os olhos não tenham vivido. Uma tremenda mentira dizer que não vivo feliz.

segunda-feira, julho 13, 2009

Romance das meias verdades

Quando ela perguntou a minha idade fui logo dizendo vinte. Disse que era advogado. Eu sei, só comecei a três dias na faculdade mas posso me considerar. Tô certo? Ela, afinal, é alta, linda, gerente comercial de cervejaria, loira, já morou na Itália, fala três línguas e gosta de futebol. Eu vou dizer tudo de mim? Eu pensei em fazer mistério. Mas ela tem o poder de me fazer falar. Achava injusto dizer nada de mim. Tudo bem, leitor e torcedor, sofredor como eu, é injusto mentir. Mas quem disse que eu menti? Apenas antecipei os fatos. Nos conhecemos na fila do metrô. Pensei comigo em como uma mulher tão interessante poderia ser tão simples assim. De fato eu sabia que ela era exatamente assim. Só não sabia sambar. Que tem de mal nisso? Quando contou que já tinha ido ao Maracanã de convidada do Romário eu disse que o Ronaldo me deve uns favores. Quando perguntou se eu conhecia Bariloche eu contei algumas aventuras de Aspen. Quando contou que já estava no mestrado eu contei dos meus planos de doutorado. Pensei comigo se uma mulher poderia assustar um homem. Quando me dei conta não parava de pensar nela. E em como encará-la. Dizia-se autoritária, ciumenta e alcoólatra. Para não deixar barato eu confessei ser um pouco preguiçoso e também ciumento. Ressoava a última estação: Pavuna. Perguntei a ela o que faria na Pavuna. Ela disse que estava indo para casa de uma amiga. E eu disse estar indo visitar a minha avó. Marcamos de nos encontrarmos no dia seguinte. Acho que havia me batido a culpa. Era shopping mesmo. Detesto isso. Nunca posso comprar nada.

terça-feira, julho 07, 2009

Surtos desavisados

Nossos surtos são corriqueiros. Sabe aquelas reações espontâneas demais para serem medidas? Sim, mocinha. Sabe aqueles instantes alheios à normalidade. Aquelas mesmas reações onde a piada soa ácida, onde a risada soa arisca, onde a elegância some. Aqueles mesmos onde a máscara pode cair, onde a mágoa pode sair, onde a inveja é exalada. Nossos surtos, sejam por qual motivo forem, são atos de devaneio ou de sanidade corajosa? São eles que nos mostram de verdade ou de mentira? Um grito de dor, um suspiro de amor. São sinceridades profundas ou superficiais reações? O que são?
Preciso me entender. Preciso saber porque da paixão pela altura, pelo volume baixo e pelas mazelas da felicidade. Porque ir na contramão da contramão?
Desculpe, acho que surtei num samba animado.

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