segunda-feira, outubro 26, 2009

Rosinha

Rosinha é uma menina. Esquece. Rosinha virou Rosa. Das trancinhas daquela festa junina que a conheci, no meu bairro, nos meus olhos, eu guardei na retina, retida esplêndida. Cinco anos. Não, não são cinco anos de saudades. Tampouco cinco anos de namoro, de diferença, de confusões, de desamores, do que aconteceu. Ela tem cinco anos é de idade. Olhava para tudo e via história. Porque as pessoas falavam ao celular se podiam falar perto, do lado? Outro dia ela me perguntou sobre o sol. Perguntou se a pessoa que ligava e desligava o sol faltasse ao trabalho. Sorri. Rosinha, acredite, essa pessoa nunca deixa de trabalhar.

terça-feira, outubro 20, 2009

Antes de mais nada

Antes de mais nada eu quero ser feliz
Mesmo que meu marido me traia
Sem que eu seja rica
Mesmo travesti
Até preconceito vestir.

Antes que eu me case
E mesmo que eu me case
Quero primeiro ser feliz
Porque porque e porque.
Sem tatibitati.

Para que a vida comece de verdade
Uma felicidade
Por inteiro
E não pela metade.
Combinado?

quinta-feira, outubro 15, 2009

Interrompida

Vestia-se bem. Bem escondido, diga-se de passagem. Parecia mais uma passagem de um filme que já é lançado direto para as piores locadoras. O homem mais era um aluguel de clichês mal-feitos de normalidade que outra coisa qualquer. Nunca soava sincero. Mas dizia que a adora. Pelo menos a desejava sem esconder de ninguém.
Já ela se adorava. Pedia a si mesma que se fizesse o favor de não ficar feia. Era bonita. E além disso gostava muito de ser bonita. Comprava as roupas cujas medidas anunciavam seu corpo inteiro. Explorava cada paraíso de suas curvas. Até as orelhas provocavam o giro astuto dos homens.
Começaram a ter os rumos cruzados. Uma vez ele já estava no ônibus quando ela entrou. Não tirou os olhos dela. Reparou em seus horários. Era sempre dez e vinte e cinco da noite. E reparou também no ponto final dela. O bastardo certa vez saltou no mesmo ponto que a branca. Seguiu seus passos. E a mulher nada reparava. O homem marcou o dia.
A noite seguinte era úmida. Choveu fino pela tarde inteira. Depois disso só ressoava o molhado num som seco. Saltaram no mesmo ponto, ela antes dele. Caminhava sempre pela mesma rua movimentada e, logo após, por uma ruela cheia de cantos. Na esquina segunda o homem aproximou-se falando do tempo, do trânsito, da hora, do perigo. Falou da beleza dela. Do decote convidativo. Perguntou se tinha namorado. Não importava ter ou não ter. A rua tinha trezentos metros estreitados entre prédios altos e calçadas mal planejadas. O homem começava a tocá-la sem cerimônias. Dizia estar frio. Dizia protegê-la. Dizia-se apaixonado. Ela já se desesperava. Tentou correr e ele já a segurava pelos braços com brutalidade. Dava tapas na cara. Mandava ficar quieta. Até que ela caísse no chão.
Suja e com a alma destruída a branca chegou em casa. Sem ninguém reparar pegou uma roupa e desabou debaixo do chuveiro. Até hoje não se sabe porque a mulher veste roupas largas. Nem sabe-se até hoje separar o que era lágrima do que era água

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