segunda-feira, novembro 23, 2009

O Lápis e a Caneta

A natureza do lápis difere da natureza da caneta. O lápis é madeira. A caneta é plástico. O lápis é orgânico. A caneta é sintética. O lápis é grafite. A caneta é tinta. O lápis é amigo da borracha. A caneta é amiga do branquinho. O lápis desenha. A caneta rasura. O lápis é rascunho. A caneta definitiva. Na prova só caneta. No papelão só lápis. O lápis diminui de tamanho, tem o apontador, doloroso. A caneta seca, morre de velhice. E o mais importante é que o lápis é criança e a caneta adulta demais para escrever isso aqui.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Recheado

Tenho seriamente pensado em reverter as coisas dentro de mim. Viver da mesma água até o fim da vida é rotina assassina. Vou, cansado, ser um. Vou, extasiado, ser outro. Vou, embebedado e drogado, ser mais outro. Vou me mascarar de várias faces de mim. Não é crise de personalidade. Sou eu num todo. Contudo penso nos meus filhos que virão. Não quero assustá-los com mais de dois de mim. Para eles terei que ser um até que cresçam e se entendam como gente recheada. Exatamente como eu. Ou não. Antes e depois, tantos. Durante, um. Descomunal dor de cabeça. O prazer de me ser é fenomenal.

sexta-feira, novembro 13, 2009

A noite sádica

Vivo uma simetria amorosa e tolerante de raiva e paz totalmente combinativas e similares. Mas é quando eu durmo que a similaridade se dispersa. É quando as contas tentam sempre se acertar. A noite é sádica. Vem prestar o deserviço irracional. O dia pode evoluir em uma normalidade canadense. A noite sempre vem cobrar a verdade. É à noite que as verdades aparecem. É quando a gente dorme que essas coisas aparecem e nos mostram o quanto somos vulgares, horrendos e covardes. Nessas horas a razão vai dormir na sala. A emoção vem me cobrar as coisas que não fiz, vem cobrar a ausência das coisas que realmente quero e não as que realmente devo. Devia nunca mais dormir. Mas quando acordo é que a razão amanhece ao pé da minha cama distribuindo horários, afazeres e outras funções do dia invariavelmente despretencioso, estúpido e silencioso.

domingo, novembro 08, 2009

A princesa e o negro

Maquiava-se com vontade ininterrupta. A mulher chegou onde chegou por isso. Ninguém a domava mas domava até o ninguém. Nem super velocidade, nem hiper força. Ela possuía o poder da persuasão. Seu fraco? Sei lá. Diziam que era Pedrão.
Era uma grandiosa movimentação. O maior negócio da história do Brasil. Assinaria a Lei final. Mesmo a contragosto. Uma marquesa, princesa, realeza. A primeira assembléia possuía trinta pessoas. Em suas mãos um bilhete:
"Não preste o deserviço de jogar esse pedaço de missiva fora. Acaso me apaixonei por ti, princesa."
Ria-se da gozação. Só podia ser gozação. No dia seguinte, recebera um punhado de documentos e um pedaço rasgado de papel:
"Teus olhos são a fortaleza na qual me prendo toda noite. Te amo para além mar."
Encucava. Parecia raiva. Internamente era intrigante. Já não se ria.
"Se queres saber não saberá. Se queres me ter, terás. Agora se queres apenas saciar a curiosidade, feche os olhos. Amo-te, princesa."
"Reluz em mim esse teu vestido dourado. Só peço que me permita valorizar essa riqueza."
"Se eu fosse nobre digno de tua formosura branca eu seria o homem mais feliz do mundo. Mais que qualquer lei de liberdade."
Os bilhetes seguiam-se em ritmo angustiante. A última reunião ascendera. Era o dia de assinar a revolta dos coronéis e a sentença livre dos negros. Caminhava pelo Palácio sozinha, relutante, pensante. Teve o braço caçado e arrastado velozmente para o primeiro cômodo. Um negro belíssimo, sorridente e com lágrimas no rosto. Possuía na mão um bilhete, talvez o último. A princesa de modo algum havia se sentido insultada. Pegou-o e distribuiu as pontas do papel pela palma da mão direita. Lia o que queria.
"Sou, sim, negro. Sou brilhante por fora. Sou da cor do café que vossa Excelência ama. Assim como o ama, eu a amo. Nada plantei. Nada colhi. Somente vossos lábios não me saem do pensamento. Aprendi a escrever para ao menos contar-lhe do meu amor."
Dera-lhe um beijo na testa e sem palavras saíra da saleta. O negro permaneceu ali por mais duas horas extasiado pelo beijo respeitoso, uma gratidão. A porta abriu-se subitamente. Franziu os cenhos. A princesa não mais altiva devolvera todos os bilhetes e um beijo nos lábios, demorado, eterno, áureo.
Isabel e Pedro. A princesa e o negro.

quarta-feira, novembro 04, 2009

A bochechuda e o velhaco

Tipo boa-praça, sabe? Um petisco de gente num homem médio e bonito. Tímido, é verdade, mas de muito bom coração. E tinha uma filha linda, bochechuda e falastrona. Seu mal eram os olhos. Fingia não ver pra ser mais fácil viver.
Caminhavam, ambos, criança e adulto, sem entender quem é quem, afinal, por um sábado qualquer em uma rua qualquer de um país qualquer. Dera uns trocados para a menina sorrir mais. O outro homem pedia uma fatia de dinheiro. Pedia sentado, acuado, envergonhado. A menina virou-se para cumprimentar o homem e jogou mil cruzados para o moço. O pai da menina passou direto e resmungou para a pequena que o mundo não tem jeito e que ela nunca mais fizesse aquilo.


Linda, excentricamente calada e bochechuda. Era solteira, quarentona. Colaborava mensalmente com a Casa do Menino de Rua simplemente por querer. Era, sim, teimosa.
Qualquer dia perdido no tempo parou o carro para ir ao menor e mais sujo pé sujo para esquentar o pé com um sanduiche quente. Caminhou cerca de 200 metros à noite. Foi abordada por um homem arrumado que lhe apontou o medo. A pegou. A arrastou para o carro. E caiu. Um velhaco bateu bem atras da nuca do violento. Um velhaco sujo, fedorento e sem dentes. Um velhaco cúmplice dos cruzados.

A bochechuda lembrava-se sempre de mal a torto do pai. O mundo tem, sim, jeito. Os olhos é que devem ver tudo.

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