sábado, fevereiro 20, 2010

Conto da Desprincesa

"Bem que poderia ser como nos contos de fadas", dizia ela toda vez que se decepcionava com um homem. Ora bolas murchas. Existem príncipes para qualquer mulher? Plebéia não tem príncipe cativo. E foi o que tentei falar a ela. Feia ela não era. A propósito, era e ainda é muito bonita. Só não sabia que era tanto. E nem se fazia esplendorosa como devia de ser. "Já sei. Então fará o curso de princesa", disse a ela que, por sua vez, concordou com algumas ressalvas.
A cada dia chegava em casa mais animada. No primeiro achou graça da situação. No segundo já parecia insistir na graça. Da segunda semana em diante já mudava o andar, o sorriso aparecia mais brilhante e os olhos ousavam mais. Ao mesmo tempo que uma doçura ocupava todos os trejeitos como se estivesse avisando que esteve sempre por ali adormecido. Mudaram as roupas, o penteado e o bronzeado. Sabia falar bem e até pouco quando devia de ser. Muito falava quando devia de ter. E teria muito o que falar. Reprovou em alguns testes iniciais por resistir a idéia do curso. Depois, denotava um ar de pocahontas quando cantarolava. E como aprendeu a cantar. Sorria como um brinde à quem inventou essa coisa de ser feliz. Aliás, essa moda de mostrar os dentes alinhadamente entre lábios macios é de uma singularidade impressionante. E foi o que de melhor ela aprendeu. Conversou com as plantas e os animais a partir dali. Chamava a natureza de mãe e sua mãe, de fato, coitada, era mais urbana que os próprios prédios cinzentos. Criou força, criou tolerância e um talento enorme para ver e ser vista. Até que, enfim, o curso terminou.
Surgiu ao primeiro domingo com um diploma na mão. "Agora sou princesa", dizia ela com o papel esticado à minha frente. "Você sempre foi princesa, minha filha". Ela sorriu como as melhores princesas devem sorrir. Mas não sorria satisfeita.
Tempos depois voltou e resmungou: "Eu queria ser princesa. Agora eu quero ser mulher. Ser princesa é muito irreal e nenhum homem me quer. Sabe porquê? Porque não existem príncipes por aí. Só existem homens apaixonantes com roupas normais, com cabelos normais, um pouco mais magros ou mais gordinhos que o normal. Gostam um pouco mais ou um pouco menos de discutir a relação, de futebol aos domingos e de ver comédias românticas. Mas são homens. Príncipes seriam sem graça alguma". Das duas, uma: ou apaixone-se por um homem e aceite-o como ele será ou mande-o para um curso de príncipe. Mas, cuidado, todo príncipe tem a armadura e o cavalo branco que lhe convém.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Saia comigo

Porque nao abandonar
Sair, um chá surdo
Um café miudo
Um sorvete escorregadio
Num pedaço de beijinho.

Sair do sempre
Ir pro de repente
Cantar um poema desses
Fazer coisas loucas
Indecentes

Porque nao sair?
Ficar ai, assim
Meio aquém
Longe demais
Esperando dormir

Vamos daqui
Além das palavras
Porque ja confessei
Que nao é pouco
Que te amei.

Mas vale sair.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Orgie

Terminei o meu discurso e todo mundo começou a se beijar. Primeiro todos entreolharam-se suavemente violentos. Gelidamente fogosos. Sabiamente simpáticos. E começaram, assim mesmo como você imagina, sem cerimônia nenhuma, a se beijar. E era flor beijando espinho. Era espiga beijando o milho. Negra beijando sapo. Nerd beijando tela. Ela beijando ela, vê se pode.
Foi só dar o aval que ninguém mais fez mal. Foi o bem beijando o nenem. A atenção beijando o aquém. O pobre beijando notas e notas de cem. E nem vem, tristeza, que aqui não tem.
Abaixei os olhos em pormenores. E, olha aqui eu beijando o microfone, beijando a carta sem nome e beijando o rosto da mulher que estava chorando sem homem. O dedo beijando o mi sustenido. O relógio de bem com o tempo. O dente beijando a lingua, a lingua beijando os lábios, e os lábios beijando os seus lábios. O príncipe beijando o cavalo branco. E o branco beijando os olhos quando olho pro céu assim que do breu saio.
Não acredito. É o Lula beijando o Sarney ali na primeira fila? É o Eurico beijando o escudo do Flamengo? O assaltante beijando o juiz? O assaltado beijando o próprio nariz? A criança beijando suas próprias agulhas? O Serra beijando Aécio que beijou Dilma que beijou Marina. É o Haiti beijando a sorte? É o mendigo beijando o Porche? A pedófila beijando o coroa? Os olímpicos beijando o Rio de Janeiro? O hipócrita beijando a consciência? Não é conscidência que o Brasil beije devagarzinho a face do progresso.
A médica linda beijando a carreira. O mecânico de branco beijando a riqueza. O ator beijando o desenho animado. O tranbiqueiro desanimado beijando o juízo afiado. O apostador beijando a falta de ousadia; o magnata beijando a sua tia; o delegado mandando beijo pra quem fugia; o palhaço beijando a lágrima de quem se ria.
Depois disso tudo corri a beijar também. Beijei a diferença no meio dos normais; beijei os maiores pecados do meu pai; beijei a irmã da irmã da cunhada; beijei depois do banho dela a toalha molhada; beijei o salgado no meio da cocada; beijei até a graça no meio da piada; beijei a insensatez pela primeira vez; beijei o meu pé depois de velho; beijei uma raspinha da dividida; beijei a calcinha da amiga na frente da própria; só não beijei a danada da apaixonada. Mas me beijaram o pescoço, o esposo, o tesouro, o bondoso, o horroroso, o teimoso. Me beijaram a face, devagar, extendendo o tempo, esticando a mão, fechando os olhos, recordando você. Vá entender.

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