terça-feira, agosto 31, 2010

Acho que farei poesia

Acho que farei poesia
Coisa que não tem hora
Arte inocente
É recente e mente.
Farei poesia bonitinha
Do que mexeu dedinhos finos e mágicos
Do que viveu dias felizes e trágicos
Porque a vida é poesia desde o primeiro dia

Porque a vida é poeta desde o primeiro beijo
E se não fosse o primeiro dia, o primeiro beijo
Não viveria viver do beijo lerdo
Não gozaria gozar do gozo aberto
Não saberia saber do jeito certo
O que eu esqueci de esquecer
E se não fosse o primeiro gozo
Não saberia como aqui é chato sem você.

terça-feira, agosto 24, 2010

Combinado Descompasso

Era como ter e não ter. Era como na música do Skank: "Te ver e não te querer é improvável, é impossível. Te ter e não te querer é insuportável, é dor incrível". Estava a metros de mim, fitava de vez em quando um olhar de criança enferma e eu não podia sequer tocá-la. A tinha virtualmente na certeza de que mexia com um pouquinho que fosse a brisa de tentação dela. Já não podia tentar tocá-la. Combinado descompasso, uma dança ensaiada para ser diferente, para dar errado. E estava anunciado que, a não ser por um milagre, nada mais passaria daquilo. Um ensaio de tropeço, um canto tropeçado para caírmos juntos, deitados, abraçados. Talvez a viagem de ida anunciava prematuramente a viagem de volta. O mesmo lugar de encontro era também despedida, perdão ao parafrasear mais uma música. O nosso errado é o mais certo. Combinamos que estava errado viver como amantes de tela, de banda larga. Combinamos sermos justos apesar de toda injustiça. Combinamos além do óbvio. Combinamos apesar da concordância discordante. Combinamos de nos separarmos mas não combinamos que conseguiríamos.

domingo, agosto 15, 2010

A verdadeira Garota de Ipanema

O Rio de Janeiro, dizem, vive de música e poesia. Drummond e Jobim definiram o tom. Mas o que mais se vê é o desfile na orla de mulheres lindíssimas. O povo de fora acha que nao existe mulher desse tipo. Eu pensava que talvez pudesse ser exagero.
Lá pela metade de Junho o Rio sorria meio nublado, meio indeciso. Copacabana nao inspirava musica. Do Leme ao Leblon nada caía nos braços teus ou meus, sei lá. Nem Ana Maria, do biquini amarelinho de bolinha bem pequenininho, aparecia pelas areias. Mas, como poeta, pude ver quando o Rio sorriu. Eu sei que não sou um Diogo Nogueira mas faço samba como ninguém para os poetas. Sei que nao sou um Gianechinni mas também não sou nenhum Serra. Sei que não sou Chico mas faço de voce mais que um romance, uma música ou um porta-retrato no seu quarto. A garota de ipanema eu sei bem quem é. A do poema, um engano perdoável, deve ficar meio triste. O mar de ipanema parou, a brisa parou, a areia esvoaçante e os ambulantes incessantes pararam. Tudo pra ver a verdadeira garota de ipanema passar. E voce, magra e linda, torneada e pequena, pele branca e cabelos anelados um pouco abaixo dos ombros, olhos caramelados e brilhantes, passou. O Rio anda esperando. Ainda bem que ela disse sorrindo que logo logo iria voltar.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Ode à mim

Talvez no mais imperfeito dos terrenos inférteis dos subúrbios da alma nunca tivera sido tão difícil controlar o ódio. Amar é fácil. Difícil é a demonstração, a celebração dançante, as palavras televisionadas, os carinhos explícitos. É muito mais fácil hoje em dia odiar. Pra começar, aqui deste canto com ar-condicionado e canapés de pé em pé, uma palavra que tem o dia em seu meio é uma ponta estranha que os deuses cismaram de ironizar. E pra finalizar, vem o próximo e mal fadado parágrafo.Porque odiar a figurinha da tv, a figurinha da internet, a figurinha do legislativo, a figurinha do relativo, a figurinha da figurinha do amigo é muito mais em conta que amar a todos esses? Talvez algum inóspito psicólogo tresloucado saiba nos entreter com um pouco mais de entendimento sobre a realização pessoal daquele taxista que não faz questão alguma de esconder que odeia o passageiro, o dinheiro inteiro, o destino, o clima, o tamanho da mala e até o próprio carro. E me explique com a mais sábia das burrices porque é tão incomodo dizer que tem prazer em ver a amiga sorrir, no amigo fazer piada, no cachorro correndo com a criança, no convite feito, no pagamento na data certa, na devolução do dvd em perfeitas condições e até na vez que o amigo saiu de casa às 23 horas para o salvar de uma pane seca em plena Rodovia Washington Luiz. É mais fácil odiar.Porque a onda maneira desses rudes humanos é ser do contra, ser revoltada. Se alguém diz que valoriza e até torna unica a presença da menina na festa ela mesma torna a declaraçao de um agrado inofensivo e desimportante.
Ouse entender o odio como a lambança cretina de negaçao, do nao querer, do mal querer. Ouse dialogar com as analogias. As listas nao sao mais das melhores musicas, das mais pedidas da Bilboard. The Cramberries estariam fodidos. Peça a lista dos maiores da historia, dos melhores da historia, dos mais belos, dos mais relevantes. Diria o economista sociologo desportista politico e carismatico que antes a sociedade consumia por igual em escala menor e que hoje ela consome em escala maior e mais segmentada. É a tal atençao dada para as subclasses dos cornos, cornos de pijama, cornos heterosexuais, cornos de honra, cornos gauchos, cornos de pau pequeno. A classe dos menores e irrelevantes, a lista dos imperfeitos. Hoje, amigo que esconde a calvice, se voce pergunta do que as pessoas gostam ela te dizem o que nao gostam. Hoje, amigo com vergonha do passado suspeito, peça a lista da inclusao e ganhará a da exclusao. Quem é bom? Nao. Quem é ruim. Nao que existam mais bons que ruins. Existe o prazer sadico de falar mal e do mal bem mau.
Melhor resgatar a cegueira do poema antigo que dizia que eu quero te matar porque quero te viver, quero te comer porque quero te alimentar, quero te sujar porque quero te limpar, eu te odeio porque te amo.
Antes fosse.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Digo - Fim

Dormia sem perceber. A criança só conseguia acordá-lo quando acertava o meninao em cheio. Eram dois, tres gritos dele. Eram mais de dez minutos de choro desesperado da criança. E era mais uma noite desaforada em que a esposa o pusera pro sofá. E no sofá eram cinco contas atrasadas, tres empregos, a falta de mulher, de férias e o escesso de gordura. E um pesadelo. Quando acordava via na filha a menininha do dia da chuva. Olhava pra esposa e via a mulher dos dias de sol. Abraçava as duas. Fazia sol e chuva. Era um casamento sem viuva. E fazia arco-iris.
Foi levar a criança ao colégio. Era uma das viagens de onibus pra algum sitio desses. Voltariam no domingo. Deixou a menina e sentou-se num banco. As paredes maltratadas. Deviam cuidar mais. As salas tão mais miudas. Deviam lavar menos. As mãos cobriam o rosto e cheiravam diferente. E entre os dedos ninguém. Era dia chuvoso. Mas era chuva fraca. Riu de si com satisfação de criança com doce em mãos.
Ultrapassou sinais vermelhos, cantou Dominó e quis merendar antes de chegar em casa. Mais uns vinte minutos e já estava em frente ao espelho do banheiro do quarto.
A menininha, esposa, chegou em casa toda atrapalhada com o guarda-chuva. E entrou assim mesmo no quarto. Ele saiu do quarto dando um boa noite e um selinho nela. Pisou na sala e voltou para o quarto. As mulheres não demoram mais que três minutos para se verem em algum espelho. Entrou sorrateiro no banheiro e ela chorava.
"Voce é o amor da minha vida. Namora e casa comigo? Ass.: Digo".

Gargalharam lembrando disso.
- Ja fazem apenas 76 anos daquele dia chuvoso na quarta série.
- Fazem? Não, meu velho. Fazem 74 anos. Voce erra sempre por dois.
- Nao, fazem 76 anos. Você lembra da...

É, meu velho. É o amor. Na chuva, na infância...

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