sábado, dezembro 24, 2011

E se eu roubar o Natal do mundo?

E se eu roubar o Natal do mundo? Eu pego e distribuo bons votos pelo ano inteiro. Porque logo o ano acaba e até o carnaval chegar tudo é permitido. Até o ano acabar o carnaval não acaba. Chega o Natal, os velhos votos. Pego o espírito natalino e transformo-o em um gasparzinho mais paupável ao invés de uma assombração consumista no mundo.
E se eu roubar o Natal dos shoppings? Ninguém mais entra em promoção de R$50,00 reais do que era R$55,00 reais. Ninguém leva a família pra passear na praça de alimentação a toa.
E se eu roubar o Natal do mundo a vovó não dá cueca P achando que todo mundo é criança ainda; as crianças bebendo champagne e fingindo estarem bebadas; a tia dizendo que você cresceu (claro, ninguém decresce ou fica mais novo com os anos);
Pego o Natal e derreto em ouro de poucos quilates, transformo em item arqueológico, jogo pro passado pra virar boa coisa retrô, jogo pro algo pra virar guarda-sol, jogo pro lado e vira retardatário, jogo na água e vira peixe em extinção, jogo na rua e vira menino de rua que nem no Natal ninguém vê. Numa guerra de natal na minha cara cai galinha caipira difarçada de peru. Numa chuva natalina no meu quintal cai arroz à grega.
Natal é igual Halloween. Não faz muito sentido. Não tenho neve, quase ninguém sabe onde fica a Lapônia, uma roupa vermelha com detalhes em algodão e as comidas e bebidas para o frio não combinam com esse calor. Se ao menos o peru fosse assado na churrasqueira com um samba bom, família e amigos...

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Assento Dezessete

Eu aqui no meu assento dezessete da fileira F do cinema bem ajeitadinho de um shopping da zona norte do Rio paro e penso em felicidade. Uns param de ler aqui. Outros, sei lá. Felicidade, amigos. Penso em feliz cidade, feliz idade e em como chegar a isso. Daqui desse assento, neste pedaço do universo, nesse planeta caótico e fascinante, neste canto do mundo que eu nem sei e nem saberei onde começa e onde acaba, é gostoso ser livre. E é isso que me encanta. É que em milhões de pessoas, em trilhões de cruzamentos, em inúmeras possibilidades casuais e quase casuais que você encontra alguém que te faz algo diferente é de se importar. Imagina quando alguém atravessa a rua da sua vida, passa da sala de visitas do seu corpo, encosta na afinidade? Com tanto sexo casual não pode ser por acaso quando você se apaixona. E se for, dê tudo por isso. A intolerância por quem ama é tão descartável quanto a fome que você sente depois de um dia de trabalho. É essencial amar mesmo que você não acredite em caras-metades. Vá dizer que é muito cômodo ter a pessoa da sua vida vivendo no subúrbio do Rio de Janeiro ao invés de ser na cidade menos populosa da Lapônia ou da Croácia ou da Colômbia ou de Mercúrio, sei lá. Ao ver um casal andando sem as mão dadas você pode ver um casal brigado e outro mais atento pode ver que na verdade ele procura algo no bolso da própria calça e ela ajeita sutilmente o anel. Depende do que se quer ver. Depende do que se quer ser.
Eu aqui no meu assento dezessete da fileira F nem quis ver o filme mais. Olhei para a pessoa do assento dezoito e vi o quanto eu devia confessar que amo sem vergonha nenhuma. Sim, sem vergonha nenhuma.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Pés

Pés descalços, que bom!
Nem dá doença.
Nem pés juntos, nem sentado
Muito menos deitado ou de pé
Num pé de maracujá.
Quem traz doença é pé-de-cana
E se nem você beber e tiver assim mesmo
É má sorte, é pé-frio.
É daqueles que faz chover na planta.
Por isso é bom andar sempre
Com um bom pé-quente,
Com um bom pé de coelho pendurado
Pra que nenhum pé-de-cabra
Arrombe a porta do seu armário.
Seria um chute com pé de anjo?
Anjos nem chutam, eu acho.
Nada seria. Nem que entrasse em campo
Com um belo pé de direito.
É bobeira minha, bobeira sua
Essa coisa meio caduca.
É que me deram um pé na bunda.
Foi ruim, reconheço.
Me deixou sem chão,
Pegou no meu pé de apoio.
Foi tipo banda de anão.
Caiu o pé de moleque da minha mão
Era um pé grande, pesado.
Assim, sem pé de igualdade?
É, amigo, é pé pra lá
Pé pra cá
Em que pé isso vai dar?
Poema rápido feito pé de vento
Acelerado feito pé na tábua
Rodopiante feito pé de bailarina
É sonho, é pé de valsa
O arrasta pé, me ensina?
Se for caro, pego do meu pé de meia
Se for aquático, pé de pato.
Se for baixo, pé de serra.
Se for sapo, pé mal lavado.
Se for cavalo, pé de pano.
Se for João, pé de feijão.
Ê, poeminha do bão.
Ficou cumprido, número 48.
É pé de lancha,
Então deixa eu ir
Porque só falta eu
Pôr o pé na estrada
Fugir feito ladrão.
Ah, com cuidado.
Não é raro
Trocar os pés pelas mãos.
Mas aí, amigo, é outra história.

sábado, dezembro 03, 2011

Dorinha e as promessas de pai

O pai coruja foi ver se a filha Dorinha, de cinco anos, dormia. Abriu sorrateiro a porta do quarto e ouviu:
"...só tinha coisa boa nesse país. Tinha peixe que voava e não fedia; tinha hamburguer para todo mundo; tinha cerveja não. Tinha cachorro que cantava e não latia; podia doce toda hora, todo dia. Era só querer que, poft, aparecia. Não tinha minha tia, não tinha mentirinha. Tinha pai que prometia e, plect, até cumpria..."
Fosse um pai ruim nunca mais prometia. O pai bom, quando tiver dinheiro, cumpre em qualquer dia.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Dorinha e o que ela vai ser quando crescer

- Dorinha, o que você vai ser quando crescer?
- Vou ser maior e bonita.
- Não, você vai trabalhar em quê?
- Pergunta certo, mãe.
- Perguntei já, menina.
- Tá! Quero ser Panicat!
- Tá doida? Porquê?
- Vou ser gostosa, aparecer na tv, no computador e vou namorar jogador de futebol rico e ser rica.
- Pode tirando isso da cabeça. Assim você me deixa em pânico, garota.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Pinóquio ainda quer ser gente?

Os bonecos não tem mais inveja nenhuma dos humanos. Os robôs, em outros filmes, por alguma falha no sistema (quer coisa mais humana que uma falha?) passavam a querer ter desejo ou, melhor ainda, desejavam ter desejo. Desejavam poder ter o gosto de um tempero espanhol, ter preguiça de que acordar cedo amanhã de manhã, pular do farol, ter a emoção de um gol no final. Mas imagina agora se algum desses vai querer ser humano. É gente que mata, gente que muito mente, gente que muito rouba, gente com muito rancor, gente que nem é gente mas é muita gente. Aí o Pinóquio vai querer ter um coração para quê? A Fada Azul ficaria roxa de vergonha e nem perdoaria esse meu trocadilho desumano. Aqui estão um boneco de madeira, uma fada, um robô. Estes parecem ser seres mais interesantes que o que eles querem ser. Humanos? Gente? Pessoa assim como a gente vê? Mas os humanos, afinal, só devem estar querendo uma coisa: ser robôs. E nem isso eles podem ser. E Pinóquio, boneco de madeira que queria ser gente, hoje em dia provavelmente não teria a menor vontade.

quarta-feira, novembro 23, 2011

Dorinha e a Asma

Outro dia o Nélio, cachorro desastrado da casa, poodle dos mais pirracento que o casal já tivera, começou a se coçar. E latia estranho, um uivo arrastado. Dorinha toda preocupada com o animal da casa pulou na cama no domingo às seis da manhã e os interpelou:
- Pai! Mãe! É o Nelinho! Ele tá fanho. Sabe a minha asma? Passou pra ele. Ele ta coçando as pernas e tá todo mal.
O remédio a ser indicado, pensou o casal, era para a menina e não para o cão.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Uma latinha de bom humor

Eu, capitalista de merda que sou, me meti a analisar as carências do mercado em busca de um negócio próprio. Quem aqui, ai e acolá não sonha em ser dono dos próprios horários, não quer ter que acatar ordens muitas vezes questionáveis de algum chefe burro, de ter autonomia para fazer o que bem quiser? Falta educação, sim. Faltam professores de algumas áreas; serviço de nutricionista a domicílio; venda em lojas de varejo de lixeiras temática separadas por tipo de lixo; coleta de lixo reciclável por bairros; intercâmbio educacional em escolas públicas; candidaturas a eleições escolhidas pelo povo ao invés de o povo só escolher um em um duvidoso pequeno leque de opções. São todas carências da sociedade. Peguem as idéias, amigos. Mas a principal das carências que encontrei nas minhas andanças pela terra do sempre foi a ausência de humor. O humor, senhores, um bicho quase extinto com a danada da graça. Piadas? Só as que fazem muitos rirem e alguém chorar. Falta humor. O bom humor, especialmente. Pensei, então, este ser um produto fadado ao sucesso mundial (sou pretensioso sim, senhor) uma latinha de 500 ml de bom humor, cheiroso, gostoso. Que tal?
Confesso ser um empreendedor medroso. Mas, tudo bem. Para alguns medo é impossibilidade completa, para outros combustível para uma caminhada mais cautelosa e corajosa. Fiz um projeto com planejamento, estudo aprofundado de mercado, concorrência, fatores influenciáveis interna e externamente. Enfim, tudo como manda o manual do bom empreendedor. Em fase final me deparei com uma questão interessante: quem são as pessoas mal humoradas? Em caso de não se pensar muito os mal humorados geralmente não possuem o famoso poder de compra. Em miúdos, não tem grana. Em outros miúdos, um produto com enorme potencial de venda como a latinha de bom humor, por lei de oferta e procura, teria um preço aburdo. Com isso quem compraria? Ricos.
Seria inacessível a quem realmente precisa. Quanto maior o poder de compra, maior a satifação. Vá entender. Descartei o produto. Ironicamente, neste caso, dinheiro traria felicidade.

terça-feira, novembro 15, 2011

Se o mundo dá voltas, sou translação

Talvez tenha sido um astrólogo o inventor do termo "o mundo dá voltas". Deve ter se baseado nos movimentos de rotação ou translação da Terra. Nem entraremos no mérito dessa coisa de chamar a Terra de mundo. Mundo, na minha humilde, é aquele "mundão de meu Deus", o que meus olhos encostam e minha cabeça ousa viajar. O movimento então do mundo é discutível.
Talvez tenha sido o piloto de corridas o inventor do termo "o mundo dá voltas". Ele que conta o tempo separados por voltas. Conta das mais rápidas, das mais difíceis e das chuvosas.
Talvez tenha sido um pessimista desastrado o inventor do termo "o mundo dá voltas". Desastrado que teima em achar que o mundo é um inimigo do tipo malandro; um moribundo esperto que tenta se dar bem em cima dos outros; um cara de pau que passa a perna em quem tiver de ser. O desastrado tentou mas diz que o mundo o deu uma volta.
As voltas são esses movimentos circulares; é a volta de 360 graus do skatista; o retorno da magia de uma trilogia; uma irmã depois de cinco anos longe de casa; a poesia depois de meses só de piada; o amor voltando pra onde não se acreditava em mais nada e de onde nem se esperava. O mundo dá voltas; também a tampinha da garrafa; a bola rolada; o corpo na areia molhada; o tornado caribenho; o pneu do avião em solo portenho; o passo de dança que eu nem tenho.
Talvez tenha sido um massagista ao dizer para o seu paciente que "o mundo dá voltas" depois de um exercício esfuziante. O que o passageiro, o jogador, o piloto, o astrólogo e seja lá mais quem seja deveriam dizer é que o mundo realmente dá voltas, mas são voltas por cima.
Se alguém dá voltas, sou o circuito inteiro. Se o mundo gira, sou o louco. Se o mundo vira as costas, sou o coitado do tatuador. Se haverá uma volta, serei a triunfal. Se o mundo dá voltas eu não sou simples rotação. Se o mundo dá voltas, sou a translação. E nada mais.
Movimento circular bom é o dos braços envolta de alguém. O mundo até dá voltas. Sonhei na última noite em dar voltas nele, uma viagem de volta ao mundo. Ou vou ficar fora de órbita, no pior sentido da expressão? O resto é questão de física, química, perspectiva ou sei lá mais o quê. E, no fim disso aqui, fui procurar sentido no que escreve. Esquece, as vezes pra quem nunca foi uma volta ao mundo não faz o menor sentido.

sábado, novembro 05, 2011

Papai, o que é o sexo?

Minha filha me perguntou assim mesmo sem cerimônia:
- Papai, o que é o sexo?
Me pegou desprevenido. Pensei em tantas respostas. Pedi um tempo. Pela noite do mesmo dia chamei-a e respondi.
- É o que diferencia você dos meninos. Você tem sexo feminino, eles tem sexo masculino.
- Mas é a torneira deles e a minha pia?
- Acho que sim. Mas não é pra lavar nem as mãos e nem nada nessa torneira. E finja que a pia esteja entupida e nunca use. Ta bom?
- Tá bom, papai.
Ela cresceu e tornou-se torneira mecânica masculinizada.

Minha filha de quatro anos me perguntou assim mesmo sem cerimônia:
- Papai, o que é o sexo?
Me pegou desprevenido. Pensei em tantas respostas. Não pedi tempo tempo nenhum. Fui logo respondendo.
- Sexo é relação sexual. É como eu fiz você com a sua mãe. Eu boto a minha semente nela, ela faz que nem o feijão no algodão molhado e você cresce dentro dela. Quando fica apertado você sai.
- Nossa, não dói? Não é ruim pra ela?
Com medo do cenário anterior eu fui sincero:
- É bom demais. A gente treina sempre.
E ela, com quinze anos, estava grávida e não sabia de quem. Aos dezessete já ganhava dinheiro como garota de programa.

Cuidado com os exageros. Estou brincando. A moral da história é que nenhuma das duas histórias não têm moral nenhuma.

O dia em que a Ilha de Vera Cruz trocou de nome

Vera era uma velha cozinheira de marca maior. A maior marca era a da perna adquirida em uma cavalgada em Santos. Ela não sabia que em Santos se pedala mais que se cavalga. Tudo bem. Entre outras marcas essa era a maior. Pois bem, certo dia errou na mão. O que era salgado ficou doce, o que era doce ficou amargo, o que era quente frio ficou. "Cruz credo!", bradavam os homens. E assim Vera era cruz. Assim Vera carregava essa cruz. Mesmo que tenha feito cinco milhões de ótimos quitutes o primeiro erro foi eterno. É assim no Brasil: se for errar, não abuse. Pelo menos é o que eu acho.
Aí trocaram o nome da terra por Terra de Santa Cruz - uma outra mulher, casta, um pastelzinho baiano sem pimenta com mania de salvar pescadores perdidos - e ficou tudo certo. Depois o nome passou para Brasil. Mas aí são outros quinhentos anos.

Mas num é um milagre?

Não é religioso mas é milagre. Dizem que até são milagres pipoca boa sem sal; campo organizado sem cal; subir a serra a noite sem farol; não haver mal. Dizem que até são milagres se formar sem estudar; o bêbado não subir em mesa de bar; no natal não ter opção pra comprar; não ter ninguém nem o que amar.
Milagre sou eu saber escrever; você saber ler - e entender; é ter alma pra vender e não querer; é ganhar e detestar perder e mesmo assim saber quando acontecer; milagre - aproveito a mesma palavra - é fazer e acontecer.
Assim lembro que milagre é a Ilha de Vera Cruz ter virado Brasil e ter os olhos do mundo voltado para ele; Milagre são as crianças terem direitos e alguém respeitar; é o Vasco ganhar alguma coisa e o Flamengo deixar; é pão quente com manteiga derretendo no sábado de manhã; é minha mãe não esquecer de nada; meu motorista não passar da velocidade permitida; meu Rio de Janeiro me dar o direito de ir e vir sem ter me proibir de passar da terceira marcha.
Milagre é aquele mar de Arraial do Cabo que nunca se sabe a profundidade já que o cristalino engana deliciosamente; é te ver e não te querer; é ouvir a cantora linda cantar e não gostar; é não sentir medo; é ser presidente sem ter um dedo.
Dizem que são milagres músicas como as do Ivan Lins, auroras como a Boreal, Cristo como o Redentor; cidades como as do sul; praias como as do nordeste; ter um sertão na paraíba cearense - se me permitem a confusão geográfica-; e medalhas de ouro e não cordões de prata ou estátuas de bronze;
Milagres você vê na Cinderela do interior das Alagoas fazendo de qualquer lugar a sua disneylandia; é o menino negro batendo bola na parede esverdeada no subúrbio do rio sendo chamado de Pelezinho, Robinho ou Neymarzinho; caloura fechando os olhos como se estivesse entrando em Harvard;
Mas sabem quais são os melhores milagres? Os corriqueiros, despercebidos, de verdade. Quando fulano aparece você diz que é milagre; quando a Dona Florinda diz para o Professor Girafales que "é um milagre você por aqui". Aconselho oferecer sempre um humilde presente porque pra ser milagre basta ser bom que o resto a gente ou esquenta ou emenda ou inventa.

terça-feira, outubro 18, 2011

Contato ou Follower

Numa manhã ensolarada de tarde chuvosa todo mundo resolveu gritar sobre políticos ladrões, vejam só. Jovens que vivem entre o IPhone, a cerveja na Guanabara e a batidinha eletrizante da Baronetti gritavam "Fora Sarney" no Rock In Rio. Aí vieram casos de corrupção e um menino de onda quis gritar no Congresso Nacional que todos ali são ladrões e falsos. Vieram um por um cobrar explicações sobre as acusações e se defender da mesma. O acusador inocentava um por um. Ao final, todos foram inocentados. O grito era para alguém que no final das contas não era ninguém. O rapaz estava acostumado com o facebook, onde você joga suas indiretas e quando pega certinho no alvo, pode desmentir facilmente. Afinal, pode ser para qualquer um dos seus seiscentos "amigos".
O maior problema da nova geração é a falta de humildade e a certeza de se achar melhor que as antigas. O mal do preguiçoso é achar que no fim tudo vai dar certo. A vida não é um filme e se fosse, é uma centena de atores e apenas dois ou três protagonistas e a chance de você ser um deles é bem pequena. Deverias pensar nisso, contato ou follower.

O lugar comum é gostoso

O lugar comum é gostoso de ir. Metade do mundo vive lá. A outra metade quer chegar lá. Não sei quem é de verdade, quem é de mentira. Vai ver nem saberemos.
É como uma fome. Ou você se arrisca na cozinha, faz um prato que demande trabalho, tempo e criatividade ou você nem pensa e vai ao shopping comer qualquer coisa. Ou você procura uma citação em algum livro que tenha lido ou você só leu literatura fantástica e prefere pesquisar no Google.
Existem dois mundos, amigos. O dos que fazem e o dos que recebem. Mas pra fazer tem que tentar. Pra receber tem que merecer. Outro dia o rapaz reclamava que não conseguia passar no concurso público. Ele mal estudou. Por vezes nem se inscreveu. Mas só reclamava que não passou. Outro dia a menina reclamou que ninguém queria namorar com ela. Bom, andar de cara fechada e trancada em casa não teria como fazer alguém se interessar por ela. Reconheço que alguns no mundo recebem sem merecer e fazem sem poder. Se sua mania for de olhar pra vírgula e não para a frase, tudo bem.
Até eu confesso cair no lugar comum de vez em quando. Não sei cozinhar, mesmo. Mas acredito que o mal do mundo é a preguiça. É o controle remoto, é Google, é o microondas, o fast food, a entrega, os downloads. São todos abusados. Não são opções, são prioridades. Talvez precisemos sair do lugar comum, afinal, quem a menina quer namorar não é comum, o rapaz quer passar no concurso para não ser mais comum.
É gostoso viver nesse lugar mas pra sair do rebanho você precisa ser mais que uma vaca que dá leite. Tem que dar leite, ser ecologicamente responsável, falar línguas. E isso só digitar no Google não lhe dá.

terça-feira, agosto 23, 2011

O Tal

Sempre quis conhecer esse Fulano. Esse tal de Fulano de Tal. Sobrenome esquisito. Minha mãe tem esquisitices, eu sabia. Ela não inventaria um homem invisível. Isso é coisa de cinema. E ela nem frequenta muito. Como não é um filme a nossa vida, quando ela se separou do meu pai, eu fiquei triste. Chorei escondido pra caramba. E ainda choro. Faz um ano que eles mal se falam. É mãe pra lá, pai pra cá. Um não presta pra cá, outro não presta nada pra lá. Tá todo mundo certo e todo mundo errado? Meu pai diz que minha mãe tem outro. Ela não diz nada do meu pai. Mas não sei não. Vi na TV que um rapaz lá era O Tal. Bonitão, musculoso. O Tal, então, existe. Só não sabia se era o Fulano. Comecei a ter uma raiva estranha desse cara. Achei que era culpa do Fulano de Tal a separação dos meus pais. Só que outro dia ouvi minha mãe comentando sobre uma Fulana. Não deu pra ouvir se era De Tal. Que familiazinha essa pra estragar a minha. Comecei a prestar mais atenção. Meu pai nunca havia comentado nada sobre Fulana. Acho que já ouvi outras pessoas falando no nome dela. Não sei muito bem. Dizem que eu tenho problema de audição porque pra tudo eu falo "O quê?" mesmo se eu tenha escudado e entendido.
Quando eu estava quase resolvido sobre essa separação, sobre a culpa do Fulano e tentando saber da Fulana me veio mais perguntas. Minha mãe grita no telefone: "Eu mato Fulana, Beltrana, Ciclana. Porque é toda hora Fulana de Tal pra lá, Beltrana de Tal...". Aí eu resolvi voltar a ver meus desenhos porque ainda sou criança e essa vida de adulto tem muito nome esquisito.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Me chama disso tudo

Ah, sua doida. Me chama de burro, de bobo, de babaca e de babão. Me chama de pentelho, de petisco, de palhaço e de pavão. De chefe, de canalha, de barrigudo e de bundão.
Pode até falar, pode até zuar. E me espichar, tudo sem razão. Pode me chamar de ator, um mal cantor, o bebedor, bem sem graça, sem asa ou aviador. De poeta de bar, carioca sem o esse, pronto pro abate, cara de mamão.
Me chama de samba deprimente, sem um cavaquinho. Chama de piranha, diz que arranha, que eu sou. Chama de papel na mão, nego sem tostão, anjo pervertido com cara de ladrão. Me chama de manhoso, de esnobe, de gostoso, de cheiroso, de branquelo e de pobretão.
Me chama disso tudo e eu...sou. Eu sou, então.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Lava e passa

A idéia é que você não seja apenas doméstica, ou domesticado, ou domesticador. Em tempos de patrulheiros da ética é melhor afirmar que não há preconceito com qualquer uma das profissões acima. Só que a idéia não é brincar de cão e dono, nem de buscar a bolinha. A idéia é algo mais, é redonda, é apetitosa, é cardápio em motel para podólogos. A idéia é que se lave e passe. Que se leve e passe. Que se passe e se leve. Que seja leve e passado. Que seja presente e nem tão pesado. Que seja diet, passe e fique. Que fique, passe e amarrote. Que a vida esteja em qualquer cantinho disso ai. A idéia é cuidar. E, cuidado, você leva, e leva o que a vida peça. Cuidado, você lava e a vida passa.

quarta-feira, julho 06, 2011

O maior conceito da comunicação moderna

Tantos pensadores falaram sobre a comunicação que, tantos já falecidos, devem se contorcer no refúgio dos sábios com tanta troca de informação que existe hoje em dia. E eu, cá com meus botões quase caídos, penso que cheguei ao ponto de ebulição da comunicação. E é simples: quanto mais perto, pior. Algum pensador disse que de perto todos são piores do que se imaginava, ou algo assim. Leitor, desconfio que tivera sido Nietsche o homem a escrever tamanho pessimismo. E eu comecei a concordar.
Quanto mais perto, pior. Esse é o maior conceito da comunicação moderna se levando em conta que a informação não apenas chega ligeira na sua televisão, no seu jornal, no seu computador e no seu celular. A informação chega rápida e cuspida. E é por isso que reparamos tanto no pior do homem. Não é o apressado que come cru. É que o apressado come mosca, tropeça na moça que é a verdade. O facebook te apresenta isso. O twitter te apresenta isso.
Pego como caso um ator famoso de novelas. Novelas não, filmes. O rapaz resolve almoçar sozinho na feira de São Cristóvão. Num determinado momento é visto conversando com uma vendedora de tapioca. Algum qualquer tira uma foto pela câmera do celular. Não preciso me esticar na suposição para dizer que terminou em divórcio um simples fato cotidiano. E olha que tapioca não é uma coisa boa assim.
Apenas acho que antigamente ao pedir a palavra o texto era melhor produzido, as falas eram mais pontuais, a informação era mais relevante e todos eram, de fato, informados. Nem toda palavra tem que ser dita. Nem toda hora é hora de falar. E nem tudo deve ser espalhado por í. Uma sociedade quase que sem segredos. Por tanta obscuridade sendo posta às claras nunca foi tão noite todos os dias. Por isso, caríssimo e único leitor, um dos males do mundo é a comunicação exarcebada. Afinal, todo mundo quer falar mas nem todo mundo quer ouvir. E acabamos ouvindo.

Semifelicidade

Outro dia li. Mas porque ainda insisto nisso eu ainda não sei. Me meti a ler uma revista qualquer. A qualidade anda tão sensata que qualquer dia a própria palavra revista vai pedir revisão por ser vinculada a publicações tão ruins. Mas, por fim leitor amigo, certa vez li que o novo padrão de relacionamentos é o de casais semifelizes.
Tá aí uma coisa a não ser entendida. Tem gente que mistura suco de manga e coca-cola não por dúvida mas por insatisfação com um ou outro somente. Os casais andam nessa coisa estranha de insatisfação passiva. Vovó dizia que em tempos de vacas tão magras (e ela não se referia a nada vulgar) ninguém troca o certo pelo duvidoso. Mesmo porque o certo, nesse caso, nem é tão certo assim. E o duvidoso, nesse caso também, é sinonimo de risco. O risco é a aventura, é a busca pelo que se quer mesmo que difícil, é a novela na vida, é a vida no filme, é o livro ao vivo.
A semifelicidade é invenção nova. Se isso vira moda o político seria semiladrão, semiperdoado; Jorge seria semisanto; o Rio de Janeiro seria semilindo; e eu, porque nao, seria semideus? Cada semi no seu lugar. Semi-final em Copa do Mundo e só.
Se o sufixo for mais utilizado seus parentes reinvidicarão participação nos lucros. Daí será um tal de sub, quase e por aí vai.
Casais semifelizes poderão ter semihistórias, semimúsicas, semiamor. É como se bola na trave fosse gol. É contentar-se com metade, com pouco. É pouco. Muito pouco. Pra quem é de plenitude semifelicidade é igual completa infelicidade. Não vim aqui ser semifeliz. Não vim passar frio no peito. O frio é na barriga.

quarta-feira, junho 29, 2011

Guarda Chuva

Como diz o Ziraldo, o guarda chuva foi uma coisa que começou como guarda-sol, mas aí choveu. Isso aqui foi uma coisa que começou meio praia mas virou coisa de gordinho, porque choveu. O guarda-chuva serve não para te permitir secura na garoa forte mas para você se molhar com bastante ou pouco estilo. É parente bem próximo e meio bastardo do capuz fino do casaco branco. Se tem um guarda chuva apenas, certo que uma haste estará quebrada. Se ele anda nas mãos de outrem na rua, certo que irá nos seus olhos. O guarda chuva é feito de um tecido especial que resiste ao sol, ao calor, à foto, à sogra, menos à chuva. Daí a você querer saber porque o guarda chuva é tao eficaz e porque o guarda sol é tao eficaz na chuva é querer demais. O principal é que o guarda chuva serve para espada de criança, bengala do preguiçoso, item de dança de filme e até de para quedas de agente secreto. Mas para chuva, nem se for chuva de algodão.

terça-feira, junho 07, 2011

Tentei pegar o sonho pelo rabo

O céu reclamou que eu estava me despedindo. Não estava mais estrelado como há dois dias. Tinha uma lua tímida, meio que obrigada a trabalhar. Não sei explicar como em um dia eu estava distraído e em outro, talvez três ou quatro dias depois, eu estava de frente pra um par de olhos apertados e verdes. Apertados quando riam e verdes a toda hora. Adorava vê-los de perto, como naquela noite. A voz sussurrando coisas que não posso dizer, aquele lago num brilho fosco, o vento bem fraquinho. Tudo parado como que assistindo aquela cena. E a boca? Era mais do que eu imaginava. E olha, senhores, que eu imaginava demais. Por ela eu lembro morangos e coisas mil. E os morangos nunca foram tão doces. Eu não sei explicar e nem sei o que pode ser. Desisti de pensar na hora que eu vi que o céu estava mesmo certo e era uma espécie de despedida. E no beijo mais forte, no fogo mais... não existia definição para o fogo fora e dentro de qualquer corpo naquela hora. Parecia carnal mas quando os olhos faziam tudo parar, até tudo parar de girar, encontravam um olhar penetrante num espaço de três centímetros tudo se transformava em...
- Acorda, rapaz! Acorda!
Abri os olhos, dei meio sorriso, meio educado. As outras duas metades é melhor eu não dizer quais foram. Tentei dormir novamente, pegar o sonho pelo rabo feito cometa ou recuperar a transmissão pelo sinal. Sonhos não são cometas que passam e nem transmissões que se recuperam. Me recuso a acreditar que tenha sido apenas um bom sonho.

quarta-feira, maio 18, 2011

Menininha no banco de trás

O pai dirige pela Linha Vermelha quando o trânsito pára.
- Feliz são aqueles que não vivem nesse trânsito caótico, não pagam esse imposto caríssimo, não são obrigados a comprar uma cadeira pra criança tão cara, não pegam ônibus lotado, não precisam acordar de madrugada pra trabalhar, não precisa pagar muito na passagem de avião, não dependem de dinheiro pra serem felizes, não morrem de frio, nem de fome, nem de calor, nem gordos, nem sem amor...
Enquanto a menininha na sua cadeira no banco de trás diz:
- Papai, feliz é quem tá morto?

segunda-feira, maio 16, 2011

Vou jogar meu coração pela janela

É pra ver se ele quica e volta?
É pra ver se alguém corre pra pegá-lo no colo?
É pra ver se acerto a cabeça de um homem?
É pra ver se cai numa cesta da sonhos de padaria?
É pra ver se cai numa poça d'água e faz pedra virar borracha?
É pra ver se desmonta todo?
Vai que alguém monta e deixa pra tras uma peça ruim?
Dizem que dá multa jogar coisas pela janela.
Coração não é coisa.
Nem sujeira.
Nem nojeira.
Nem latinha de cerveja. Cabe nessa lei?

Vou jogar meu coração pela janela
É pra ver se assam no churrasco de domingo;
É pra ver se dará falta dele o meu amigo;
É pra ver se causa gargalhada no gringo;
É pra ver se alguém pinta de azul;
É pra ver se desliza no mapa até a região sul;
É pra ver se um músico de rua faz de inspiração;
É pra ver se uma menina cuida como bicho de estimação.

sexta-feira, maio 13, 2011

Tem um meridiano que passa lá em casa

Afinal de contas, foi de um perfume que gruda a culpa por isso tudo. Mania de delegado, afinal, de procurar culpado achando que tudo é crime. Ou mania de matemático prático de pôr lógica em todo drama. Nem todo dramaturgo mata alguém no fim de suas histórias. Nem todo ator está mentindo quando beija o sapo ou quando chora engraçado. Com licença mas pus a culpa no perfume.
Boca grande, lisa, macia, musse, rosada, vermelha, de revista, sem revista alguma, sem suspeito, com denúncia, com crime, com absurdos, com o absurdo de se gostar conhecendo tão pouco e tampouco importava ser longe, perto, de avião, de carroça. Começou teimoso e não ia mais terminar. Me cutucaram um mês depois. Eu aqui e ela lá. Seria mais fácil jogar uma âncora pra trazer o barco pra perto do litoral. Seria mais fácil amarrar litoral carioca com interior paranaense. Eu que sou viciado em mapas reparei que só que jogaram as linhas erradas e perdidas. É um tal de trópico pra lá, meridiano pra cá. Fui ver e o trópico pode ligar Santiago no Chile a São Paulo, na direção horizontal. Eu quero subir e descer. Que ela escale então um meridiano ou que eu faça rapel numa linha dessas. Uma linha que me dividiu bem ao meio entre o mar vivo e o mar Morto, entre nomes bíblicos e outros mundanos, entre Jude dos Beattles ou Lacraia do funk. Era uma linha fácil de achar e que me dividiu em duas partes: a que quer de novo esse beijo e a que quer o beijo, o abraço, as risadas... E, só pra avisar, menina, tem um meridiano que passa lá em casa, te deixa na porta. É só bater e ficar a vontade.

domingo, maio 08, 2011

Amaria, mas...

O futuro do pretérito é um tempo verbal enganador. Engana o português, o leigo e até o professor. É como se eu fosse mas tem sempre um porém. É mais ou menos dizer que eu ia mas não vou. Ele diria mas não diz. Ele olharia mas não vai olhar. Ele amaria mas não amará. É um tempo verbal carregado de condicionalidade que quase ninguém vê.
Se o gato escaldado em água de cheiro doce disser que te beijaria você, por conveniência, poderia entender que ele quer te beijar mas tem vergonha, por exemplo. Se ele for feio, você pode achar que ele quer te beijar se você quisesse. Se ele for amigo, ele poderia te beijar se não fosse amigo. Então não me venha querer dizer que me amaria mas não amará. Isso não se diz. Não quando você diz uma coisa mas seus olhos e pernas dizem outra. Sei que odeia reticências. Só queria te dizer eu te amaria, mas...
É o canalha do futuro do pretérito saindo da gramática pra se meter em coisas do coração.

domingo, abril 24, 2011

Desconhecidos do consultório

Queria porque queria parar de perguntar pro amigo gay, pra amiga louca, pro amigo bêbado e contentado em querê-la e não tê-la. Queria mesmo era um especialista. Tentou um amigo de uma amiga que, diziam, sabia aconselhar como ninguém. Como ninguém mesmo. Tanto que terminou os conselhos na cama com ele. Isso fazia alguns anos. Por aí jogou a toalha como se estivesse num ringue deserto e pediu um analista, o analista, no caso. Anote, o analista, meu caro leitor.
- Não fique mendigando amor. Quem gosta de amor é romancista. Quem gosta de migalhas é pombo. E quem fica só por ficar é economista. Economiza tempo nas intermináveis conversas vazias entre casais.
Ela, deitada no divã, demorou mais dois minutos pra entender. Entendeu que essa coisa de amar não tem explicação. E antes de sair da sala em completo silêncio o doutor emendou:
- Tenho dito. E o que eu digo é coisa de mentiroso. Eu minto que sinto muito bem. - disse o doutor.
Ela parou de entrar no consultório do namorado para consultas quando brigavam. Essa coisa de fingir que eram desconhecidos, de vez em quando. Casaram-se em novembro de 2008, assim que acabaram com a mania do cérebro se meter em coisas do coração.

terça-feira, abril 19, 2011

Tem gente

Tem gente que é de quarto. Tem gente que é de sala. Tem gente que é de rua. Tem gente que é la de casa.
Tem gente que não é de ninguém. Tem gente que é do mundo. Tem mundo que é meu. E tem gente que é de todo mundo e mais alguém.
Tem gente que é de verdades. Tem gente que é de mentiras. Tem gente que tem as próprias verdades. E tem gente que acha que meias-verdades não são mentiras.
Tem gente que é de longe. Tem gente que é perto demais. Tem gente que tá longe mas é como se estivesse mais que aqui perto, entende?
Tem gente que é de menina. Tem gente que é de menino. Tem gente que é de menina e menino, ao mesmo tempo.
Tem gente que é de ontem. Tem gente que é de depois de amanhã. Tem gente que é atemporal, de todos os dias e amanhã também.
Tem gente que bate na porta. Tem gente que toca a campainha e demora a entrar. Tem gente sai entrando sem cerimônia nenhuma.
Tem gente que é qualquer. E qualquer uma teria inveja de você. Tem gente que é amada. Ninguém é amada como você. Tem gente que pode reclamar de muita coisa. Tem gente que vai reclamar que veio aqui ler. Até você. Ah, quer saber? Vem logo aqui viver.

terça-feira, abril 12, 2011

Amizade masculina começando

Ambos se pegam olhando pra mesma mulher no meio da estação de metrô e dizem:
- Gostosa, né?
- Pra caralho...
Ponto final.

Já as mulheres...

terça-feira, abril 05, 2011

Poesia de Viagem

Sou rodoviária, você aeroporto.
Sou o pé e você o olho.
Sou o resto e você o corpo.
Sou alface e você o molho.
Sou o Luan Santana e o grito bobo.
Sou o carioca esperto e você o Brasil todo.

Você é a bicuda e eu o bico maior.
Você é a coca e eu, água.
Você é cosquinha e eu, barba.
Você é o beijo de tirar o fôlego e eu, isso e mais abraços.
Você é o nectar e eu, perdoe, a flor.
Você é a proximidade e eu a distância.
Você é o defeito e eu a ignorância.
Você é noite e eu, manhã.
Você é balada e eu, cinema.
Você é axé e eu, afroxé.
Você é daqui e eu dali.
Você é música e eu ré ou lá.

Só que eu sou você. Você é mais que eu.
Eu sou mar do interior, o sol da madrugada fria;
a brisa fresca do Ribeirão quente.
Eu sou a parte que você entende e não entende.
Sou a história mal escrita
precisando da sua tradução.
Se sou voador você é o céu inteiro.
Se você é essa certeza toda que pinta meu morro
eu sou o amor e você paixão.
Mas sou também paixão e você o amor todo.

terça-feira, março 22, 2011

O desejo em L'Isle-Adam

Aquelas duas bocas já haviam estado mais perto que o impossível. Já foram muito mais que beijos. Até os dedos estavam no meio disso. Ele desenhando os lábios dela entre os beijos. Ela olhando penetrada nos olhos enquanto chupava o dedão dele. Pois então, já estiveram assim. Não estão mais.
L'Isle-Adam, a 32 kilometros de Paris, fazia tocar na esquina da Rua Louvet com a Rua du Martray a deliciosa balada Le Plus Beau Du Quartier. Era uma livraria com café, ou café com literatura. Fazia uma semana que se esbarravam por ali. Sem se falarem. Só trocavam olhares. E eram muitos. Ele fazia MBA em Tecnologia da Informação na cidade. Ela passava três meses de férias aprendendo francês na cidade luz. Até o iraniano dono do lugar sabia que ali tinha brasa. No terceiro dia seguido resolveram se cumprimentar. Quando ele dobrou um dos corredores das grandes prateleiras de livros clássicos a perdeu de vista. Demorou demais. No sexto dia ela reapareceu. Quando ela ia aproximar-se dele um francês entrou na frente. Era charmoso, não há de se negar. Mas era francês. Ela queria agora e de novo um brasileiro. Nada de perder para a França novamente. E o Francês da mesa, em cinco minutos de conversa, quis tornar o ambiente mais leve e brincou com a freguesia brasileira no futebol. Perdeu mais. Nada demais. Ela parecia não cair de graças por eles. No sétimo dia Deus criou o quê? No sétimo dia resolveram conversar. Tremedeira de lá e de cá. Falaram das famílias, dos cães, do amigo de um, da cidade do outro e por fim, como foram parar ali. Se protegeram demais. Despediram-se até segunda ordem.
- Mas é possível sentir saudade e necessidade de alguém assim tão subitamente? Ele deve ter alguém - balbuciava ela depois que virou a esquina.
- Eu me apaixonei agora ou me apaixonei de novo? Ela deve estar namorando, noiva ou casada - reclamou em voz baixa já dentro do ônibus.
E eu, como narrador ávido por desfechos felizes, percebo que irão continuar com a brincadeirinha de esconder os desejos. Afinal, como disse um tal de Zygmunt Bauman, o desejo não deseja a satisfaçao mas, sim, o desejo deseja o desejo.

sexta-feira, março 11, 2011

Todo mundo tem seu lado arlequim‏

O carnaval não é uma festa popular. É apenas popular. É uma manifestação mas não é festa. Não é passista mas passa. Não é samba mas é enredo. É obra, é conjunto. É conjunto da obra. Não é puxador de nada, nem de samba nem de carro. É alegoria mas não é quesito pra isso.
Carnaval é um personagem além do fervor de Salvador, do frevo de Recife. É um personagem além dos desfiles da Sapucaí, dos bonecões de Olinda. Carnaval mexe até com o cara do interior do Mato Grosso, com o cara das margens do Rio Negro, com a menina do vestido florido da Serra Capixaba, com o ator de novelas, com o engravatado da ponte aérea.. Carnaval é estado de espírito, é vontade guardada, é personagem assumido por uma semana. O ruim é que carnaval é algo totalmente perigoso pra qualquer homem heterossexual. Qualquer um tem o direito de ser ruim da cabeça e doente do pé. Alguns amigos cismam em não gostar, o que fazer? Mas, repare só na menina quieta que não curte boate, no roqueiro que não ta nem ai pro funk, no mala que dorme cedo, na tímida que detesta praia. Tudo virado do avesso quando se assume uma personalidade de carnaval.
O personagem faz o asmático fumar, o atleta se embebedar, a anorexica comer, o fanho cantar e dançar...
Certo é que todo mundo tem seu lado Arlequim. Todo Arlequim tem sua Nega Maluca. O ruim é quando a tinta no rosto não sai. Ai nem você mesmo sabe quem é personagem ou quem é você.

sábado, fevereiro 19, 2011

Baixando a guarda

E eu sei o caminho da felicidade. É felicidade com prazo de validade, com tempo milimetricamente determinado mas é felicidade, na mais pura forma. Pelo menos é o que eu tenho e é o que eu sei. Pode até pensar no efêmero. Eu penso que é um pontapé inicial, um treinamento ou, melhor ainda, a origem. E somos tão burros que sabemos o nascedouro da felicidade, a origem dessa arte, o fino prazer. E sabemos também exatamente que quem dá felicidade também tira. E nunca estamos preparados pra isso. É como baixar a guarda pro mais perigoso pugilista com a esperança de que ele não irá desferir um soco, um gancho. É como saber que o mais íntimo é o pior inimigo, caso seja possível. Mesmo assim, lhes digo senhores do norte e senhoritas do sul, que tudo vale a pena em cada poeira, cada mancha na camiseta branca, cada rasgo na calça jeans. Mesmo assim mais vale acreditar que esse caminho da felicidade pode tornar-se mais longo e gostoso mesmo que haja um limite invisível, mesmo que calos passados machuquem, mesmo que planos futuros padeçam implicantes, mesmo que alguma coisa seja contra, apegue-se no tantão a favor. Permita-se não entrar na lei do impedimento. Permita-se não se negar a voar por medo de altura. Permita-se viver um amor bem grandão, mesmo que seja só por uma madrugada. O espaço de uma hora pode valer por uma eternidade. E falando em hora, hoje é um belo dia para se viver. Afinal, o dia terá 25 horas. O caminho da felicidade está nisso: em saber criar uma hora entre o sábado atolado e o domingo cansado só pra te ver. Vai ficar aí parada ou vai logo voar?

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Mesmo que eu perca tudo

Citarei. Me perdoe, leitor, citarei sem lembrar a fonte. Não há cheiro de inteligência eqüina por aqui que me faça lembrar quem tenha falado isso mas falarei. O caso, senhores, é que não se pode deixar de viver a sua vida com o zelo de cuidar demais da vida alheia. O peão não pode deixar de laçar porque a menina na arquibancada tá com medo. É por isso que não deixarei de fazer mais nada moldado na reação dos outros, no que possam sentir, no que possam sofrer. Se eu tiver que ficar bêbado, ficarei. Beberei das piores biritas que os cantões desse país produziu e não terei vergonha de assumir que eu fiz isso ou aquilo. Se eu tiver que derrubar um muro, derrubarei. Farei de tudo o possível. E se eu for processado por isso, que se dane. Se eu tiver que quebrar a cara de alguém, farei. Quebrarei como se fosse a primeira e única coisa que eu fizesse na vida. Mataria aquele cara babaca, sim. Mesmo que eu perca tudo. Mesmo que eu perca família, mesmo que os amigos virem a cara, mesmo que minhas palavras peçam divórcio de mim, eu farei. Eu posso estar perdendo tudo mas estarei me ganhando.

domingo, fevereiro 06, 2011

Número restrito

O número na telinha do celular era restrito.
- Alô?
- Alô. Quem é?
- Prazer, Lauro. Estou te ligando pra te convidar pro nosso casamento no dia 21 de setembro, às 19 horas na Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. A noiva estará a mulher mais linda do mundo com um vestido que termina acima dos joelhos, com uma fenda respeitável na perna direita e uma renda que fará a tia fofoqueira da terceira fileira da esquerda comentar por duas semanas mais. E seremos felizes correndo na areia gelada da praia às cinco e quarenta e seis da manhã de domingo em frente ao Hotel que estaremos hospedados, ali mesmo em Ipanema.
- Lauro, já somos casados, lembra?
- É que todo dia eu me apaixono de novo e tenho vontade de te pedir em casamento mais uma vez e mais uma e mais outra...

terça-feira, janeiro 18, 2011

O amor e suas anestesias

Pelo tom de cores pairando entre o dourado sem brilho e o cinza bronzeado devia ser Londres mesmo. E é claro que era. O inglês elegante obedecendo praticamente todos os sons das consoantes da sua língua. A década era a de quarenta. Exercite-se mais, meu amigo leigo. A década era de quarenta, pois do século XIX. Mais precisamente, 1842 anos depois de Cristo.
O casal húngaro havia emigrado para a Inglaterra a procura de oportunidades. Encerrava-se a famosa Guerra do Ópio e os ventos uivavam a transição dos tempos para a segunda Revolução Industrial. O progresso estava rondando a cidade. O homem havia estudado alguns conceitos de farmacologia e nada mais. Aos dezenove anos já havia perdido os pais, um em acidente caseiro e a mãe com pneumonia. Com o desespero pediu em casamento a namorada de infância em Taban, periferia de Budapeste. Já em Londres o ar, os costumes e as máquinas mexiam com o casal. As intermináveis horas de trabalho, o sono constante. Mas era Londres. Era a chuvosa e magnífica Londres.
Taban era um distrito charmoso da antiga Budapeste. As árvores acolhiam os casais. O casal mais charmoso do mundo era aquele que partiria logo dali. Ele era o vinho perfeito para o momento que ela queria. Ela era o seio perfeito que na mão dele cabia. O casal dos sonhos de todos. Desculpem-me o clichê mas isso existe sim. O amor é raro. Meu conselho é para que torne-se raro, leitor. O amor é raro e não combina com pessoas comuns.
Certo dia totalmente incerto a mulher perfurou a perna na altura da coxa com uma faca. Acidente doméstico. O homem descobrira somente em casa. A mulher delirava. Sangrava a aproximadamente duas horas, calculou. Sabia que o sangramento poderia a matar. E ela gemia de dor a cada toque dele em sua perna direita. Em um canto do quartinho em que moravam ele guardava algumas coisas de farmácia. Usou um gás hilariante. Ouvira pelas esquinas que um homem usou esse gás em uma pessoa e essa pessoa não sentir dor no local que o gás foi infiltrado. Além do gás jogou um líquido a base de éter. Ausência de sensação (do grego, an + aisthēsis) é a anestesia que o amor causa. Para salvar a mulher que amava inventou a anestesia ali, às 23:54 daquele ano de 1842.

sábado, janeiro 15, 2011

Mentira é promoção de supermercado

Mentira é uma promoção de supermercado. Cheguei a essa conclusão depois de mentir e ver mentira por ai. Nem quero chegar ao mérito de mentir pro bem ou pro mal, mentir bem ou mentir mal, mentir fraquinho ou mentir gordinho. Mentira é vinda de vocação e mesmo assim não é fácil. O sorteio de uma loja de conveniência, o pacote de uma agência de viagens ou uma promoção de supermercado. A mentira é bem semelhante.
O pobre homem da Piedade - pobre na acepção do bolso - é sorteado e ganha um Porche Carrera GT avaliado em U$440,000. O homem tem a renda mensal de um salário minímo mas sempre sonhou com um carro desses de filme do James Bond. Primeira coisa que pensou foi exibir pros amigos e pras mulheres. Dizia ele que os carros chamam as mais belas mulheres, não importa se carro bonito ou feio. Passou a tentar sustentar o carro. Era imposto mais caro, combustível para as saídas cada vez mais recorrentes, limpeza caprichada e outras coisas além da manutenção que era falsa e custosa. Por isso nem toda a promoção é boa. Ele poderia ter vendido o Porche Carrera GT mas o exibicionismo e a tentativa de passar riqueza foi mais interessante. Acabou desvalorizando o carro com kilometragem alta, alguns arranhões e troca de itens originais por outros. Adquiriu dívidas e, por fim, tornou-se mais pobre que antes. Todos em Piedade sabem disso.
Por isso a mentira é isso. Uma droga com falsa sensação de felicidade, uma obra com falsa sensação de segurança, um sexo com falso orgasmo. Uma mentira não se auto-sustenta, como acham os mentirosos. Assim como o Porche é uma falsa vida milionária a mentira é uma falsa vida boa e justa. Caro leitor, faça um aviãozinho de papel e pinte-e com uma cor qualquer de tinta guache. Pode ser que não chova por dois dias ou três anos - a natureza anda meio excêntrica mesmo. Mas quando chover, senhores, a tinta sai. É o efeito da mentira.
Um autor desconhecido diz para darmos poder a um homem para vermos quem ele é. Ainda acho mais. Acho que todos deveriam mentir uma vez para saber o valor real de uma verdade. Para casos de insistência na mentira, suponho desistência de verdade. E talvez eu nunca tenha sido tão mais sincero em toda minha vida, hoje.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Engolindo sapos

To indo aí de Jegue, gatinha. Pelo menos você sabe que seu príncipe vai tardar mas vai chegar. To indo com a malemolência do menino safado pra chegar aí com a mais bela das intenções. Espera, porque vale a pena. E leve em consideração todos os fados que contam por aí. É verdade, acredite. Lamba o sapo, beije o sapo com aquela intenção lendária. Abrace o sapo e pense tudo pelo lado bom. Engolindo o sapo você correr o risco de cagar o mais belo dos príncipes. Pense nisso!

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Mentindo em quatro palavras por verso e algumas estrofes além

Acordar cedo é ótimo
Pena que não trabalho
Por isso, vou de ônibus
Lotado, amassado, cheiroso, gostoso.
Tipo café sem açucar
Ou dança sem par.

Só existe amizade verdadeira
Eu sou ótimo escritor
De Pernas Pro Ar
Muita Calma Nessa Hora
A vida é um moinho
A fórmula do amor

E eu sei mentir
Dinheiro nem traz felicidade
Trabalho enobrece o homem
Dinheiro na mão, vendaval
Não quero o dinheiro
Só se quer amar.

Se gritei feio contigo
Eu não dou desculpa
Não sou nada exagerado
Fui ali com amigos
Foi só um copo
E nada além disso.

E as mulheres, hein?
Mulheres gostam de rosas
Mulheres gostam de românticos
Agora, vamos fazer amor?
É só a cabecinha
Relaxa, não vai doer.

Isso nunca aconteceu antes
Você é a primeira
Você é o primeiro
Nunca transei com primeiro
Nunca gozei assim antes
Tamanho não é documento.

O tempo cura tudo
Mentir em quatro palavras
É dizer bem descaradamente
Que nunca te amei.
Eu já te amei?
Deixa dessa vez comigo
Eu pago a conta.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Queria matá-la de rir

Poderia ser um dia qualquer de janeiro. Mas era fevereiro já e ninguém havia reparado. Nem eu. E logo eu que gostava de rir e fazer rir. Logo eu que não precisava esperar por nada. Já chegava antes que o sol aparecesse e saía muito depois que ele partia. Minha pele negra não brilhava mais. Perdi tempo. Perdi tempo pensando. E pensar, meu caros, as vezes é muita falta de amor.
Foi mais ou menos por aí que quis rir mais. Quem faz pensar, muitas das vezes chato é. Quem faz rir, só é chato de vez em quando. Penso que o drama é um câncer desnecessário e o humor exagerado é, no máximo, uma alfinetada altamente suportável. A chatice é um mal descartável. Cuidado, senhores, para só repararem quando já estiverem no lixo das amizades, no descarte por alguém menos dramático e mais engraçado.
Na quarta-feira seguinte desse texto meio atemporal eu quis matá-la de rir. Existia um termômetro. Se olhasse pro chão ou para o alto, tremesse a perna em velocidade incômoda ou prendesse os lábios com mais força eu saberia que não estava suportando as graças. Pelo contrário, descontrolava-se aos poucos. Quis matá-la de rir. Isso era agir como legítima defesa. E nenhum advogado precisaria me defender. Nada contra esses ilustres mentirosos. E nenhum juiz haveria de me condenar por crime algum. Só quis matá-la de rir pra depois matá-la de prazer. Aí sim, assumirei o crime que é ama-la, ou melhor, amar você.

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