segunda-feira, novembro 26, 2007

Prêmio

Olha que coisa. A Mel (http://blogcasuale.blogspot.com/) teve a coragem de dizer que sou escritor. E, além disso, de premiar com o Escritores da Liberdade. De verdade essa coisa de "escritor" e "liberdade" são coisas muito relativas. Como ela, eu também não em considero escritor. Que seja. Liberdade então, nesse caso, é escrever por vontade, oportunidade, com asas e palavras soltas. Deixa voar o sorriso pela singela lembrança. Obrigado Mel.


Vou repassar a quem convém. Os considero, sim, escritores da liberdade.


Letícia (Cuidado ao entrar), Erika Murari (Onconto), Paulo Fernando (A verdade nua), Ly (Divino Senão Fosse Humano) e Robertinha (Em Alguns Instantes).

Desfrutem.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Pré-conceitual

- Me chama de negro.
- Eu não.
- ANDA, ME CHAMA DE NEGÃO.
- Claro que não.
- Porque não? Eu sou negro.
- Primeiro, porque não me convém chamar-lhe de negro. Segundo, porque você tem nome. Terceiro, que essa coisa de "negão" é só pra suas "nêgas".
- "Nêgas"? Vou te processar.
- Ora.
- Você falou com conotação preconceituosa.
- Então desculpa.
- Tudo bem. Mas porque você tem esse preconceito? Já ficou com uma negra?
- Eu não tenho preconceito.
- Já esteve com uma?
- Não.- Seu preconceituoso!
- Só porque nunca estive com uma negra? Vai ver eu nunca tive oportunidade. Já pensou nessa hipótese?
- Não tem desculpa.
- Tudo bem. O que quer afinal?
- Que confesse seu preconceito.
- Mas eu não tenho.
- Você está incomodado comigo só porque sou negro. Nunca quis estar com uma negra e tem nojo de se referir a mim como negro.- Ah, por favor.
- Viu? Confessou.
- Eu não vou confessar o que não sou.
- Sabia que preconceito dá cadeia?
- Sabia sim. E o que é preconceito para o senhor?
- Você me tratar de forma diferente só porque sou negro.
- O senhor conhece o Lázaro Ramos? Viu Ó pai, ó?
- Conheço. Vi sim. E o que que tem?

- Numa cena o personagem do Wagner Moura chama o personagem do Lázaro de negro por causa de uma dívida no que este responde numa das mais belas retóricas sobre a questão da raça: - Porque me chama de negro? Não comemos da mesma comida? Não sofremos das mesmas doenças? Não tomamos os mesmos remédios? Não sangramos da mesma cor? Não somos gente? E você vem me chamar de negro?

- Eu lembro dessa cena.
- E você aqui querendo que o chame de negro, querendo reverter o quadro que transparece que o preconceituoso aqui é você mesmo.
- O quê?
- Exatamente. O preconceito começa contigo.
- Só quero respeito.
- Desisto.
- Me chama de negro.
- Preto.
- Ahhhhh seu f...
- Calma. estava brincando. Mas porque até tu diz que quanto tudo está mal que a "coisa está preta"? Porque tem superstição com gato preto? E galinha preta?
- Meu amigo, a coisa tá afro então.
- Um chocolate quente então?
- Melhor, café com leite.
- Aceito.

terça-feira, novembro 20, 2007

Carioquice




O inexplicável rubro-negro parece uma mística odisséia futebolística de novos tempos ou de tempos em que não há razão para esses cariocas carentes se apegarem com tanto afinco. É a ultra-euforia de um time que ganha mais atravéz de vozes e aplausos do que através de chutes e galopes. Fui comprar o uniforme do soldado em preto e vermelho. Esgotado. "Volte semana que vem, de repente já teremos". O vendedor deu um sorriso matuto. Com certeza flamenguista, supus na contradição convicta. A vergonha de chutar torto, de ovacionar o ébano Obina transpôs as arquibancadas de cada mesa de boteco. Resolvo vestir o manto comprado com custo a duas semanas atrás. O caminhoneiro grita "aee flamenguista, tá com tudo heim?". Pois é. E o outro me gritou "Se tivessem usado essa camisa ontem...". O "ontem" dele refere-se ao pseudo jogo de futebol da seleção brasileira contra a seleção peruana em Lima, Peru. Deu tanta raiva, mas tanta raiva, que no trailer do bigode eu gritei "Peru neles!". Enfim, poucos amigos...
É algo inexplicável essa carioquice sem vergonha que vem fazendo festa no Maracança, que vem ensinando o que é paixão, que não tem ligado para a reafirmação da fama de que carioca é relaxado e só quer saber de praia. "Carioca é tudo folgado", me disse a mineira. E eu não discordo. Sou rubro-negro e muito folgado mesmo. Te mete com esse mar, esse verde com sotaque de beleza, esse sol amarelinho, esse céu de cetim...

sexta-feira, novembro 16, 2007

Meu terno negro


Contigo aprendi a ser menos misterioso. Não tem funcionado nenhuma tentativa de criar um jogo. Vou ao teu encontro com milhões de idéias para agir, maquear o que sou e sinto. No ato nada acontece. Têns o poder de me fazer ser sincero. Tranforma minha alma em minha roupa. O que vê é aquilo que sou. A minha vulnerabilidade você conhece toda. Até minha fraqueza e minha força.

Certo dia quis uma sessão de verdades. Quis tacar-me na parede, beijar meu peito pouco peludo, puxou levemente os cabelos, quis arrancar minha roupa. Era minha alma ali. Mais uma vez me viu de verdade. E nem senti vergonha. Senti pena. Fechou os olhos e disse em sussurros que eu sou lindo. A fiz abrir os olhos e confessei: EU TE AMO.

domingo, novembro 04, 2007

Fila de banco


Três horas e vinte e sete minutos em pé nessa fila. Já reparei em todos os rostos. Depois de estar aqui deixei a mente sair, voar. A linha de pensamento é burra. É sem reta, nem rumo. Uma bunda, duas bundas, prova da faculdade, professora chata, piadas com ela, sorriso de
lado, auto-crítica com minhas piadas, medo de não ser boa pessoa, receio de não ter falado tudo da última vez que estive com a amada, amada, amor, que amor, amor estranho, eu amo, jogo do flamengo. Meus pensamentos.

Fila do banco. Desgraçado momento na vida de um pobre. O odor era de feira livre. Estariam economizando energia? Nem ventilador funcionava. O calor, nossa! A gordinha à minha frente, blusa grudada de lycra - se é que era mesmo isso - de cor vermelha com duas marcas generozas de algum tipo de líquido debaixo dos braços. Não sei se sou indiscreto ou se fora apenas conscidência. Ela mirou em mim o olhar vesgo e matuto.

- Quero te dar...
Pensei. Como assim? Me dar? Sem um carinho? Sem ao menos perguntar meu nome? Pera lá. Sou gente.
- Dar?
- É. Nossa vez já está chegando. Quero te dar...
Nem deixei terminar. Que fosse a mais bela do mundo. O tesão é quebrado. Dar. Dar. Dar? Que vulgar! Só faltou perguntar se quero comer. Mas isso nem deve importar. Ela quer é dar. Confesso ter analisado novamente. Não era tão ruim. Era cheinha. E eu cheinho de vergonha,
claro.
- Minha senhora - comecei - dar assim, sem umas indiretas? Sem uma conversa? Eu não sou objeto. Tenho coração. Sou feio mas sou legal.
- Ahah, você não entendeu.
- Entendi sim. A senhora quer me dar mas eu não quero comer.
- Comer?
- Comer; dar uma borrachada; uma bimbada; um pega-pra-capá; um tchaca-tchaca-na-mutchaca...
- Eu só quero te dar meu cartão. Sou psicóloga e reparei a tua necessidade. Não é normal falar sozinho numa fila de banco.
- Ih.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Não sou um Swayze


Demos um beijo como de Patrick Swayze e Demi Moore em Ghost. Pus as duas maõs em seu pescoço, a ponta dos dedos na nuca, seus olhos cabisbaixos, minha testa na sua, celebrando um ponto de partida invisível. Desci as mãos pelo resto do pescoço desnudo, encontrei os ombros, ambos, com a mão esquerda levantei seu queixo e num beijo o cinema fez-se realidade. Não sou um Patrick Swayze e nem você uma Demi Moore mas iremos nos amando até o outro lado da vida.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Ordinário Nézinho

- Pronto, gozei.
- É amor, eu reparei. Muito bom, minha linda.
- Perfeito.
- Está sendo sarcástica?
- Não. Estou sendo sincera!
- Hm. Sacana, safada.
- Porque?
- No cú. Caramba, dessa eu não sabia.
- Nézio, você nunca sabe de nada.
- Opa, do que eu nunca sei?
- Detalhes, apenas detalhes.
- Tipo, quais?
- Do cú, por exemplo.
- O que mais?
- Sabia que quando era adolescente eu fiquei com meninas? A última vez nem faz tanto tempo. De vez em quando me arrisco.
- Já? - surpreso
- Já sim. E não foi nada ruim.
- Então vamos...
- Não, não vamos.
- Porque não?
- De verdade? Enjoei. Você podia ser mais atento.
- Mas eu pensei que estivesse envolvida.
- Até estava. Mas você perdeu a graça. Me desculpa, Nézinho.
- Poxa.
- Viu? Porque não fala "Porra" ao invés de "poxa"? Porque não foi direto ao cú sem eu pedir?
- Porra. Pronto.
- Assim?
- PORRA!
- Melhorou mas não ficará perfeito. Devia ter mais atitude. Tudo que fizer não será mais espontâneo.
- Vamos fazer denovo. Sem conversas.
- Gozei, já disse. Estou indo.
- Quer saber? Eu também cansei.
- Fica descansando aí então. Estou indo.
- PORRA! NÃO TO PEDINDO.
- Ui. Vai me machucar?
- CALA A BOCA.

...

- Bem melhor assim. Foi difícil? - diz ela.
- Não.
- Mas eu não gozei.
- E daí?
- E daí que eu quero denovo.
- Não dá. Estou indo.
- Ah cacete! Eu quero.
- Queria. Pois eu não quero mais.
- Nézinho, volta aqui. Não me irrita...
- Tchau
- Homens filhos da p...

quarta-feira, outubro 24, 2007

Frases


Sou personagem de um romance interessante que eu teria escrito se não estivesse vivendo.




Shopenhauer dizia que, nos seus minúsculos detalhes, tudo na vida parece ridículo ou cômico.



Porque nem as perguntas consigo falar? Vai ver sou mesmo mais bonito por escrito.

Meme do Livro

Este meme é aquela coisa de pegar um livro que esteja lendo ou outro qualquer à sua frente.


Abra a página 153
Procure a 6ª frase completa
Poste essa frase em seu blog
Repasse para outros 5 blogs


E cá estou debaixo de chuva ligeiramente empolgado postando a frase.



- Meu caro Zig, o senhor é especial. (Zig é Zigmunt Freud, o psicanalista)

(Quando Nietzsche chorou)



Agora vou repassar para a Letícia (http://www.cuidadoaoentrar.blogspot.com/), Robertinha (http://www.emalgunsinstantes.blogspot.com/), Erika (http://oncoto.erikamurari.com.br/), Mariliza (http://tempodesaturno.blogspot.com/) e Girassol (http://omeugirassol.blogspot.com/)


Boa leitura, galera!


Claro, à convite da linda Daniduk (www.blog.daniellakai.com)

segunda-feira, outubro 22, 2007

Eu

Quadrúpede ridículo.
Um mamífero ignorante.
Um primata indesejável.
Um repugnante ser
Um rastejante imoral
Um animal.
Mas eu me amo
O coisa normal.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Por Parte de Pai

Dezenove anos com muitos sonhos. Magro, de óculos, pálido, agradável. Uma vida sendo aberta pela frente, um clarão de que se tem notícias nos melhores momentos da vida. O chevette 79 na garagem e suaves prestações na conta. O ano era o de 83. Só vivendo à época para saber o quanto era incrível ter um carro tão atual. Um carro de quatro anos atrás? Cheira a novo, dizia. Trabalhava como desenhista em uma grande empresa. Não me pergunte o que era ser "desenhista". Vale dizer que é o equivalente ao engenheiro dos dias atuais. E, principalmente, estava se casando naquele ano com uma mulher incomparável com qualquer habitante do universo. Após um bom tempo de namoro, um satisfatório tempo de noivado e o tempo que fosse a ser incluso, era o tempo ideal, a estação perfeita para o trem do amor fixar moradia. Todos os sonhos românticos de um tempo bom estava acontecendo. Em casa era comum. Eram sete irmãos sob a tutela do Senhor Jorge e da Senhora Ieda. Uma estupenda família como a minha, a sua e a de quem lê.
A felicidade por completa estava com data e hora marcados para início. Dia 03 de dezembro do ano corrente, 1983. Fosse um desfile da Beija-Flor de Nilópolis o campeonato estaria decidido tamanha felicidade e brilho do casal e do casamento. A semana precedente ao casório fora normal, corrida, ansiosa e animada. Flores para a igreja, buffet, convidados, lista de presente nas lojas, vestido, terno e tudo mais.
Aos 11 anos, Ronaldo sofreu um acidente de carro. Um acidente nada fatal. Uma batida alheia que o fez bater com o peito no painel do veículo. Após o acidente surgiu algo no coração. Uma espécie de sopro, um vácuo. Toda vez que praticava esporte sentia-se mal. Um cansaço fora do comum foi notado. Exames detectaram um problema no coração. Uns diziam ter pouco tempo de vida. No cerne da verdade haveria de fazer operações de cinco em cinco anos ou tomar remédio para o resto da vida. Eram restrições terríveis para o resto da vida. Preferiu a segunda opção tendo como conseqüência não poder haver esforço físico. Uma vida inteira assim.
Cedo. Sete e pouca da manhã. Dia três de dezembro. O dito rapaz corria de lá e de cá. Não casa-se todo dia com a mulher da sua vida, dizia. Seu Jorge pedira, tempos antes, que se fosse o caso de morte, que a vida o levasse no lugar do filho. Achava cruel ver uma vida tão plena ser tirada assim, injustamente. O casamento estava prestes a começar. Desde cedo Jorge não parecia nos seus melhores dias. Ronaldo arrumou-se, aprumou a flor no bolso da frente do terno e correu para a felicidade. A benção pai e mãe.
A cerimônia começou. Seu Jorge e Dona Ieda não apareceram. Aliás, Dona Ieda apareceu e ficou tão pouco que sua ausência fora mais notada que sua presença. Após o casamento a pior notícia sussurrou em todos os ouvidos. Seu Jorge havia falecido. Seu coração atacou talvez pela emoção ainda em casa, sentado ao sofá, sozinho com sua esposa. Não pôde ver o casamento do filho. A causa? Coração. Exatamente o problema do filho. Só que seis meses antes todos os exames comprovaram a saúde impecável e o coração de criança, jovem e forte de Seu Jorge. Não havia nada em seu coração.
Pouco tempo depois novos exames em Ronaldo não detectaram qualquer anormalidade sequer. Estava curado e ninguém sabe explicar como. Dona Ieda contou uma promessa de Jorge: No dia que meu filho tiver de partir, que eu vá no lugar. No dia do enterro sua recém esposa prometeu que o nome do primeiro filho seria Jorge.

Meu nome é Jorge Thiago Ladeira Kuerques, filho de Ronaldo e Cristiane, neto de Eloísio Carlos e Francisca França por parte de mãe e de Jorge e Ieda Kuerques por parte de pai.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Sujeito de sorte

Sujeito de sorte esse tal de Thiago Kuerques. Vou falar dele, de fora, do alto, do que é escutado. Assim mesmo, resume tudo. Sorte. Pode ser que se machuque hoje à noite, pode ser que o amor seja negado denovo, pode ser até que seu salário atrase novamente. É um sujeito de sorte. Um sujeito por ora chato, outras sarcástico, quase nada narcisista, calado, bem palavreado, preguiçoso, apaixonado pela vida. Um sujeito assim, que não sabe cozinhar, é viciado em meia dúzia de palavras, aprende fácil, que tem mania de conselheiro, um doce.
Um sujeito que é o netinho da vovó, o filhinho da mamãe, o orgulho do papai, o safado da empregada, o danado da rapaziada, o tarado lá da sala. O sonho de consumo, o que é quase nada. Um sujeito sem jeito. Um sujeito que come muito e quase pouco. Um sujeito do mundo todo, pequeno e grandioso.
Um sujeito que se apaixona devagar, o que não é demorado. Um sujeito nem feio nem bonito, nem sedutor nem amargo. Um sujeito atordoado que é amado; que tem bem amado. Aliás, um sujeito que tem bem te amado. Um sujeito normal e diferente. Um sujeito cheio de predicados. Sujeito de sorte esse Thiago Kuerques.