- Me chama de negro.
- Eu não.
- ANDA, ME CHAMA DE NEGÃO.
- Claro que não.
- Porque não? Eu sou negro.
- Primeiro, porque não me convém chamar-lhe de negro. Segundo, porque você tem nome. Terceiro, que essa coisa de "negão" é só pra suas "nêgas".
- "Nêgas"? Vou te processar.
- Ora.
- Você falou com conotação preconceituosa.
- Então desculpa.
- Tudo bem. Mas porque você tem esse preconceito? Já ficou com uma negra?
- Eu não tenho preconceito.
- Já esteve com uma?
- Não.- Seu preconceituoso!
- Só porque nunca estive com uma negra? Vai ver eu nunca tive oportunidade. Já pensou nessa hipótese?
- Não tem desculpa.
- Tudo bem. O que quer afinal?

- Que confesse seu preconceito.
- Mas eu não tenho.
- Você está incomodado comigo só porque sou negro. Nunca quis estar com uma negra e tem nojo de se referir a mim como negro.- Ah, por favor.
- Viu? Confessou.
- Eu não vou confessar o que não sou.
- Sabia que preconceito dá cadeia?
- Sabia sim. E o que é preconceito para o senhor?
- Você me tratar de forma diferente só porque sou negro.
- O senhor conhece o Lázaro Ramos? Viu Ó pai, ó?
- Conheço. Vi sim. E o que que tem?
- Numa cena o personagem do Wagner Moura chama o personagem do Lázaro de negro por causa de uma dívida no que este responde numa das mais belas retóricas sobre a questão da raça: - Porque me chama de negro? Não comemos da mesma comida? Não sofremos das mesmas doenças? Não tomamos os mesmos remédios? Não sangramos da mesma cor? Não somos gente? E você vem me chamar de negro?
- Eu lembro dessa cena.
- E você aqui querendo que o chame de negro, querendo reverter o quadro que transparece que o preconceituoso aqui é você mesmo.
- O quê?
- Exatamente. O preconceito começa contigo.
- Só quero respeito.
- Desisto.
- Me chama de negro.
- Preto.
- Ahhhhh seu f...
- Calma. estava brincando. Mas porque até tu diz que quanto tudo está mal que a "coisa está preta"? Porque tem superstição com gato preto? E galinha preta?
- Meu amigo, a coisa tá afro então.
- Um chocolate quente então?
- Melhor, café com leite.
- Aceito.