quarta-feira, janeiro 16, 2008
Era meio-dia e dezesseis da sexta-feira dezoito de sei lá que mês
Almoço. Fui degustar da minha mais digna hora do dia. Essa coisa de trabalhar com pediatria cansa mesmo. Mesmo que eu seja um mecânico dos veículos bem arrumados. Mesmo que eu sempre esteja completamente esquecido no quintal fedido do Hotel torto que nem lembro o nome também lá perto do Forte de Copacabana, sou gente e mereço comer. Eram minutos após o meio-dia. Deixe-me ver ao celular. Sim, eram meio-dia e dezesseis da sexta-feira dezoito de sei lá que mês que eu caminhava ligeiro e tumultuado pela Rua Tonelero na altura de um prédio estranho – todos por ali o são. As pedras portuguesas são a cara do Rio de Janeiro. E são também a tortura dos meus pés. Pisei torto em uma delas, um buraco onde não havia a pedrinha dita. Sambei pelas bandas em frente ao self-service bonitinho e ordinário. Dei com as ancas num ferro à beira da calçada e beijei o chão. Nada que deixasse marcas a não ser a gargalhada do Almir.
- Machucou?
Não respondi. Juro que sou uma pessoa calma depois de ter deixado um rapaz três dias no CTI por ter me olhado diferente.
A mais viajada não devia estar em casa. Nem que fosse de prazer, uma excitação que me fere só de imaginar numa tórrida cena de sexo que meus olhos não verão jamais com o meu rival. Meu caro leitor, minha pior tortura é imaginá-la com ele. Pior que não tê-la é imaginá-la com outro. Pedi um filé de frango, arroz, farofa e uma coca-cola. O arroz estava ruim, grudento, cinzento. A farofa tinha aqueles pedaços de ovo e umas coisas indefectíveis. E o filé estava realmente bom. Nem tanto para me fazer vibrar. Era então o celular. Piscava na tela Isabela Casa.
- Você me ligou? Aliás, foi você que passou trote para minha casa de manhã cedo?
- Foi e não foi. Isabela. Tudo bem? Eu até liguei pra sua casa mas não tive coragem de falar e desliguei. Como soube?
- Meu celular tem um serviço de avisar quem ligou quando desligado. Apareceu seu número.
Ela desligou o telefone. Liguei novamente.
- Eu só queria dizer que não te esqueci ainda. Que você foi a coisa mais importante que me aconteceu nos últimos tempos. Que eu choro pelas circunstâncias. Queria dizer apenas que já, novamente ou ainda te amo.
- Quem é você, meu?
Eu desliguei dessa vez. Agora ele sabe. Agora ela sabe. Agora ele sabe que alguém a ama. Agora ela sabe que se houver algo, serei eu. Agora todo mundo sabe. E quem não sabia de nada era eu. Já tinha terminado a refeição. Paguei no crédito. Minto, foi no débito. Eles não aceitam crédito. Morreram esses R$18,60 que na conta do mês que vem demorarei três minutos para recordar. Isabela havia me ligado e nossa situação – que não existia, sumida que só – havia piorado. Estava naquele dilema. Ser ou não ser? É meu querido Shakespeare – olha ele aí novamente -, ser e não ser é ser e não ser ao mesmo tempo.
domingo, janeiro 13, 2008
Eram seis e trinta e dois da manhã da sexta-feira dezoito de sei lá que mês
- .
- Alô?
- .
- Qual foi, mano? Vai passar trote pra tua..
- Tu, tu, tu, tu..
Não me controlei. Não parei de lembrar da boca fina de Isabela. Sei lá se ela era ou não culpada por ter traído o namorado. Sei que não era qualquer uma. Era uma mulher nunca antes vista. Não à toa fez moradia na mente, no peito, na boca. Eram seis e trinta e dois da manhã da sexta-feira dezoito de sei lá que mês ainda e disquei o celular dela novamente. Havia feito a rotina de sempre. Depois do banho fazia o velho ritual. Primeiro a meia preta. Depois a blusa do uniforme da empresa. De blusa e meia eu ficava numa cena ridículamente engraçada. Depois vinha a calça e por último - óbvio - o sapato. Apago todas as luzes, ataco a chave do carro, saio ao portão, dou uma olhada no dia, se chuva, se cinza, se claro, se enganador, abro para fora o portão daqueles onde os ferros fazem desenhos oblíquos, tiro o carro como sempre quase batendo no poste e vou. Maldito de quem pôs aquele poste ali. Não sou mal motorista apesar do meu amigo me chamar de "maltorista".
Tinha bela no nome. Se não tivesse seria feio. Às vezes acho ruim. Parece que só tem para confirmar. Não é necessário. Até se fosse Georgina seria linda. Pus Leaving On A Jet Plane, Chantal Kreviazuk da Trilha sonora de Armageddon no tocador de mp3. Naquela maldita Via que nada tem de Light engarrrafei tudo. Engarrafei carro, paciência e pensamentos. Isabela, Isabela, mil vezes Isabela. Mas fora somente uma. Aquele beijo. No alto da solterisse dos meus trita e dois anos ainda me dou ao luxo de me apaixonar assim, caipira, adolescente, um beijo de moça comprometida. Parado no trânsito liguei para o celular que novamente deu desligado. Liguei para casa dela. Não tinha nenhuma desculpa. O paulista atendeu. Desliguei.
Maldita sorte a dele. Chegou primeiro e nem sequer perguntou se podia. Me desculpe, meu caro leitor. Todo "outro" acha o "outro" o pior dos inimigos. Eu que o era. Não telefonei mais. Eu era o outro. Eu que adentrava em outros mares. O céu estava mesmo impróprio para tão altos vôos e eu mesmo assim voei. Canalha mesmo era eu. Foda-se. Foi num dia que tomávamos suco de pêssego ao leite que ela me perguntou se eu preferia bicicleta a carro importado. E eu respondi para irmos à pé mesmo. Os dois rimos. E nos apaixonamos.
O trânsito andou. O carro, Fiat 77, morreu. Enganei. Era um Fiesta 96 mesmo. É que sempre achei Fiat 77 bem poético. Só que morrer o carro nessas circunstâncias - nem em circunstância nenhuma - tem graça. Fechei os olhos. Fui para desligar o rádio e começou a tocar Ratatuia, Zeca Pagodinho. Passou um carro e o motorista gritou "Vacilou". O rec rec ligou o motor. Fui trabalhar me culpando e achando o paulista ainda mais sortudo e boa pessoa. Afinal, ela está com ele e não deve ser à toa. Não ligo mais e esses seis meses que não mais nos falamos devem tê-la esquecido de mim.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Eram cinco e cinqüenta e cinco da manhã da sexta-feira dezoito de sei lá que mês
Resolvi gelar a água. Entrei dando pulos e mais pulos debaixo d'água. Sabonete, mais água. Toalha. Cinco minutos mais. Não tem como não pensar. O amor coexiste. É doença de várias faces. Fosse socióloga houvesse criado a razão para as equações mal resolvidas das nossas vidas. De todas as vidas. Mas não é socióloga, coexiste e me fez perder a hora.
Acho que penso demais nela. Olhos amendoados. Ah, meus suspiros tem dona, nome e sobrenome. Isabela de não sei o quê. A mais viajada. A pombinha que não voltou ainda. A comandante de um vôo absurdo e distante. Eu te amo.
Já era hora de sair. O elegante caminhar disfarça a inquietação. Eram cinco e cinqüenta e cinco da manhã da sexta-feira dezoito de sei lá que mês. Fui relembrando das coisas abusando de uma memória fracote. Lembro de quando um amigo foi internado. Era meu amigo. Isabela nem o conhecia. Sofreu o meu sofrimento. Mesmo não podendo. E quando ele recuperou-se satisfez comigo, se satisfez com a minha satisfação. Quando ela adoece eu sofro o sofrimento dela. E quando ela alegra fico só sorrisos no meio do mais quente dos infernos. Pode ser que não me ame. Mas não é sentimento efêmero. Um dia, lindo dia, beijou meu beijo. Não foi sem querer mas foi sem querer e foi sem querer, por querer assim sem querer. Ia acontecer. Não rejeitamos. E foi o melhor de todos.
Agora, cinco e cinqüenta e sete da manhã eu te ligo. Não quero sair de casa sem saber de você. Pena o seu celular estar desligado e eu não poder ligar para a sua casa. Vai que dou de encontro com a voz paulistana e sortuda do seu namorado?
sexta-feira, janeiro 04, 2008
Profissão Jaime
- De repente eu bato na sua boca pra parar de falar besteira. Detesto a sua mania de advinhar tragédias. Só de falar, atrai. Sabia? Criança tem que falar de coisas de criança.
- Desculpa Tia.
- Olá, com licença. Tudo bem?
- Oi moço, tudo sim.
- Desculpe o incômodo mas eu estou querendo assaltar vocês.
- Nos assaltar?
- É. Penso que gritos e intimidação não são necessários.
- Faz sentido. E o que quer assaltar? Tenho nada.
- Se não tem nada. Tudo bem. Mas a senhora poderia levar em conta a minha educação.
- Tudo bem. Tudo bem. Tenho cinco reais, um celular, uma câmera fotográfica e esta minha carteira aqui. A criança só tem o boneco do Buz Lighthear.
- Então me passa tudo.
- Tudo bem. Aliás, posso ficar com os documentos?
- Ah, pode sim. Não usarei mesmo. Chega de cartão de crédito. Mais, não.
- Você é muito gentil. Não querendo abusar muito mas posso ficar com os cinco reais? É o dinheiro do ônibus.
- Fique.
- Obrigado. Escute. Me sinto até um pouco honrada em ser assaltada pelo senhor...
- Jaime, ao seu dispor.
- Sim, Jaime. Crisimara, muito prazer.
- Então. A Senhora tem pilha na câmera?
- Tenho sim.
- Desculpe a ousadia, mas podemos tirar uma foto?
- Sim, claro. Juninho tire a nossa foto. Anda.
- ...
- Nossa como você é fotogênica.
- Que isso, você que é. Até que pra um assaltante você não é tão mal. Até leva jeito.
- Obrigado. Estudei muito pra isso.
- Então. Então. Acabou o assalto?
- Pois é. Coisas boas duram pouco. Pode me dar seu telefone ou MSN?
- Estranho isso.
- O quê? Acha-me estranho?
- Não. Você é agradável. Sua profissão que não combina com a sua doçura.
- Eu penso em mudar de vida. Só não sei ainda as opções.
- Você é educado, tem poder de persuasão e sabe ganhar dinheiro fácil usurpando dos outros. Que tal uma profissão condizente?
- Obrigado pelos elogios. E ainda me chamou de fotogênico, agradável e doce. Não sei se estou ultrapassando as barreiras, mas gostaria de sair comigo?
- Deus do céu, o que estou fazendo?
- Se não quiser...
- Sim. Aceito.
- Então. Vamos. Mas qual era a profissão que ia falar mesmo?
- Político.
- Boa idéia.
sábado, dezembro 29, 2007
07. 08...

terça-feira, dezembro 25, 2007
Noel quem?
Pus sapato na janela. Foi roubado. Papai Noel existe. O que não existe mais é a CPMF.
Feliz Natal.
sábado, dezembro 22, 2007
Nemo
- Eu queria saber quem tem deixado o portão aberto.

sexta-feira, dezembro 14, 2007
Facetas de vidro
- Tudo bem. Mas porque está com essa cara de tolo?
- É esse clima de fim de ano, a descrença no papai noel, a rotina de planos não
cumpridos.
- Sem esse de Papai Noel. Fala logo, Túlio.
- É mesmo o clima de fim de ano. Participei de três "amigo-oculto". Nem sei o plural
disso. Mas é que me senti estranho comigo mesmo.
- Estranho como?
- Vou te contar. No primeiro, amigo-oculto do pessoal do curso de inglês foram me
descrever. "Eu tirei uma pessoa que falta muito e mesmo sem vir tira notas boas. É uma
pessoa quieta" e em uma só voz gritaram o meu nome. Acertaram.
- E você falta tanto assim?
- Falto sim. Me vêem como um turista, visitante que não faz parte do grupo por isso.
- Entendi.
- Já no segundo amigo-oculto foi em família. E a minha tia seguiu dizendo que havia
tirado uma pessoa esquelética, sonsa, talentosa com a escrita, preguiçoso com os rumos
da sua vida e extremamente sarcástica. Precisa dizer qual o nome disseram? E precisa
dizer que disseram o nome certo?
- Túlio, convenhamos que você é bem sarcástico sim.
- O que pegou foi o "preguiçoso com os rumos da sua vida".
- Não liga pra isso não.
- E por último foi o amigo-oculto com a minha turma na faculdade.
- E como foi?
- Uma palavra denunciou o amigo-oculto da menina.
- Qual?
- "Eu tirei o menino mais pervertido da sala". "TÚLIO! TÚLIO!"
- E o que tem de mal nisso?
- Reparei que sou tantos Túlios que me sinto até desenganado.
- É normal se comportar de formas diferentes em diferentes ambientes.
- Mas não é normal formas tão diferentes.
- Um quieto e ausente. Outro sarcástico e preguiçoso. O terceiro é pervertido. São
coisas diferentes demais.
- Túlio, você é tudo isso mas não consegue ser tudo junto no mesmo lugar. É completo
apenas pra você que sabe disso tudo e ainda persegue por se descobrir mais. Você não
pode se sentir falso por ser isso ou aquilo. Você é tudo e é tudo de pedaço em pedaço.
- É, esse clima de final de ano.
- É, esse meu amigo pensa é demais.
- Pensar ou viver?
- VIVER! - disseram os dois em voz conjunta.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Com Fiança
domingo, dezembro 02, 2007
O torcedor
O futebol no Brasil parece ser - de vez em quando - a única instituição que, na prática, faz justiça. E como é delicioso ainda ter essa emoção fazendo valer qualquer suor.
Times
01 São Paulo
02 Santos
03 Flamengo
04 Fluminense
05 Cruzeiro
06 Grêmio
07 Palmeiras
08 Atlético-MG
09 Botafogo
10 Vasco
11 Internacional
12 Atlético-PR
13 Figueirense
14 Sport
15 Náutico
16 Goiás
17 Corinthians
18 Juventude
19 Paraná
20 América-RN
[] Libertadores da América [] Sul-americana []Rebaixados para Série B
sexta-feira, novembro 30, 2007
Parada do Caminhoneiro Gostosão
- Ah, deixa de frescura.
- Não é frescura.
- è frescura sim. E vamos andando.
- Então tá. Daqui a cinco minutos você me diz.
O prédio em construção. O pesadelo de uma era o sonho da outra. Esticando a calçada e as pernas o primeiro bigode soltou:
- Você tá igual melancia na roça.
- Eu? Porque?
- Tá rachando de boa.
Continuaram caminhando.
- Pedreiro é uma raça nojenta. Eu não te falei?
- Eu acho graça.
E outro homem mais a frente soltou a nova:
- Garota abelha?
Ela riu. O barrigudo continuou.
- O homem-mel chegou.
A primeira quis bater no barriga. A segunda. Bom, a segunda riu denovo.
- Acho até engraçado. E se falam essas coisas é porque somos lindas e gostosas.
- Você tem uma teoria muito discutível.
- Se falam é porque somos.
- Pedreiro chama até Dercy de gostosa.
Continuaram a caminhada. Na frente do bar:
- Ei, princesa.
Ela virou-se como num susto.
- Você é o toicinho da minha feijoada.
- Nossa!
- Nossa? Nossa digo eu. Você é tão linda que não caga. Lança bombom.
O nome do bar? "Parada do caminhoneiro gostosão".
terça-feira, novembro 27, 2007
Doce de leite e bolinhos de chuva
1 xícara de farinha de trigo
1 xícara de amido de milho
1/2 xícara de leite
2 ovos
4 colheres de açúcar
1 colher de sopa de fermento em pó
- bata o açúcar com os ovos e junte os demais ingredientes, em uma panela esquente o óleo e frite as colheradas em fogo baixo.
- depois de frito passe os bolinhos em açúcar com canela.