Passei a ter repúdio de cinemas quando eu e ele terminamos sem comum acordo. O cinema sempre era testemunha ocular do nosso amor impróprio e sem meios. Mas como bailarina dedicada e apaixonada resolvi enfrentar a repressão que a psicóloga disse que há em mim e fui ao cinema. Sozinha, diga-se de passagem, de viagem, de meia entrada mesmo. Era o filme daquela menina, aquela que fez Soníferos Animados 3, sabe? Esqueci o nome da dita cuja. Fez também aquela comédia Fala que eu te Onça. Enfim, fui ao cinema. Até aí até que estava bonita e nisso meu espelho é feroz. Pensava que podia ter baixado Homem-Aranha 8 ou ter ido para Curitiba no trem bala da tarde. Voltaria, sei lá, no máximo no início da madrugada. Amanha não trabalho mesmo. Que se dane. Brinquei de viajar agora. Não tem trem-bala para Curutiba e ainda nem se fala em Homem-Aranha 4. O ano é 2008 mesmo. Cheguei atrasada, como sempre. Quando topei na criancinha e derrubei meia pipoca dela, claro, estabanada como sempre fui e meti-me a pagar uma maior que a dela. Adoro, realmente, as crianças. Levei um susto. Dei o dinheiro que nem sei quanto e corri para a sala escura. Ainda tinha o número dele no meu celular. Resolvi ligar, porque não? Coração, coração, bate mais devagar que o silêncio do cinema denuncia tudo, tudo mesmo. Foi meio estranho, meio torto, meio segundo de ligação e minha meia, rosa, ja estava suada como a blusa, o jeans, do nervoso canastrão que eu passava. Pior foi começar a filme. Cinco pessoas no cinema para um filme nadinha - de verdade - barulhento. Ouvia a respiração do rapaz ao lado meio que choroso. Lado não, umas cinco cadeiras de mim. A sala até era pequenina. Filmes alternativos, cinema B, isso sim. O celular dele estava desligado. Vai ver é assim mesmo.
Uma meia vontade transformou-se em inteira. Meu peito começou a arder. Tinha falta de ar. Visão ainda mais escura. A bailarina torcendo o tornozelo e eu torcendo o nariz para eu mesma. Pressão baixa, ouvi de alguém.
quinta-feira, julho 24, 2008
domingo, julho 13, 2008
Romance da meia entrada - Parte I
Cinema, cinema, cinema. Era o filme da nova queridinha da América. História de uma bailarina que vivia na cidade da música encantada, cantava, dançava, conheceu um homem mais velho que, por sua vez, vivia na cidade inimiga, a cidade silente. Se organiza aí, leitor. Duas cidades: a Cidade da Música Encantada e a Cidade Silente. Qual o melhor lugar? Aí que se questiona o filme. Acreditava a menina do ballet não poder conquistar o seu príncipe por se considerar feia, estabanada e ser de uma cidade diferente (sim, no filme a metáfora das cidades que não se relacionam por detrimento de pensamentos, como se a música fosse a antítese do silêncio, é magnífica). Uma história da mesma fábula de sempre com personagens diferentes.
Faziam, sei lá, uns três anos que não a via. Mora perto, mas tão perto, que chega a ser um absurdo cinematográfico e/ou novelesco que não nos esbarremos ao menos umas vezes nessa meia vida. A meia vida que se deu nesse meio tempo é meio estranha, meio cínica e inteiramente magoada.
Na fila da pipoca meu celular tocou (lê-se, vibrou). Um número que não conheço. Conhecia mesmo era o meu amigo, atendente da coisa lá que vendia pipoca e que me fez interromper logo após o primeiro toque a tentativa de retornar a ligaçao ao número distinto. Leitor, eu não sei que nome se dá às lojas que vendem pipoca nos cinemas mas sei o nome do amigo. O nome? Não é relevante. Tudo bem. Entrei no cinema.
Enquanto a bailarina escrevia sua historia na telona eu, em desacordo com o senso de ridículo, chorava a cada passo naquela sala escura e vazia. A bailarina torceu o tornozelo quando se tornaria a bailarina principal da compania. Infortúnios na hora errada. Foi para casa. Os pais a condenaram. Que condenação injusta não é digna de pena? A pena foi a expulsão da cidade da música e marginalização, em silencio, claro, na cidade silente. Quando foi auxiliada em meio a uma grande chuva pelo bombeiro caladão interpretado por Johnny Depp (vencedor do Oscar daquele ano) meu celular tocou novamente. Quando tentei retornar a bateria acabou. E era apenas metade do filme. A mocinha ainda se esperniava entre amar e não poder falar, literalmente. Parecia que ela dizia e não a escutavam. Reza a lenda que é oriunda da enorme facilidade de comunicação o prazer e a eficácia das expressões corporais e olhares nos primeiros contados das relações.
Hoje em dia sem celular não se pode nem ver um filme em paz. Boa hora para a bateria acabar.
Faziam, sei lá, uns três anos que não a via. Mora perto, mas tão perto, que chega a ser um absurdo cinematográfico e/ou novelesco que não nos esbarremos ao menos umas vezes nessa meia vida. A meia vida que se deu nesse meio tempo é meio estranha, meio cínica e inteiramente magoada.
Na fila da pipoca meu celular tocou (lê-se, vibrou). Um número que não conheço. Conhecia mesmo era o meu amigo, atendente da coisa lá que vendia pipoca e que me fez interromper logo após o primeiro toque a tentativa de retornar a ligaçao ao número distinto. Leitor, eu não sei que nome se dá às lojas que vendem pipoca nos cinemas mas sei o nome do amigo. O nome? Não é relevante. Tudo bem. Entrei no cinema.
Enquanto a bailarina escrevia sua historia na telona eu, em desacordo com o senso de ridículo, chorava a cada passo naquela sala escura e vazia. A bailarina torceu o tornozelo quando se tornaria a bailarina principal da compania. Infortúnios na hora errada. Foi para casa. Os pais a condenaram. Que condenação injusta não é digna de pena? A pena foi a expulsão da cidade da música e marginalização, em silencio, claro, na cidade silente. Quando foi auxiliada em meio a uma grande chuva pelo bombeiro caladão interpretado por Johnny Depp (vencedor do Oscar daquele ano) meu celular tocou novamente. Quando tentei retornar a bateria acabou. E era apenas metade do filme. A mocinha ainda se esperniava entre amar e não poder falar, literalmente. Parecia que ela dizia e não a escutavam. Reza a lenda que é oriunda da enorme facilidade de comunicação o prazer e a eficácia das expressões corporais e olhares nos primeiros contados das relações.
Hoje em dia sem celular não se pode nem ver um filme em paz. Boa hora para a bateria acabar.
quinta-feira, julho 03, 2008
Resumo dos avessos
Amor, resume tudo em verdades miúdas, ó mulher.
Amor, resume tudo em verdades miúdas
Amor, resume tudo em verdades
Amor resume tudo
Amor resume
Amor
Eu quero um amor incondicional, digo a você
Eu quero um amor, incondicional, digo
Eu quero um amor incondicional
Eu quero um amor
Eu quero um
Eu quero
Você.
Amor, resume tudo em verdades miúdas
Amor, resume tudo em verdades
Amor resume tudo
Amor resume
Amor
Eu quero um amor incondicional, digo a você
Eu quero um amor, incondicional, digo
Eu quero um amor incondicional
Eu quero um amor
Eu quero um
Eu quero
Você.
quarta-feira, junho 25, 2008
Homo Sapiens
Homo sapiens
Nem é apenas hetero
Bem menos, sapo.
Nem canalha
Nem primata
Era para ser
Homem que sabe
O que na verdade
Não sabes nada.
Nem é apenas hetero
Bem menos, sapo.
Nem canalha
Nem primata
Era para ser
Homem que sabe
O que na verdade
Não sabes nada.
quinta-feira, junho 19, 2008
Alzirinha
A menina lançou-se no ferro que sustentava a lona da varanda da lanchonete e toda serelepe assuntou com a mãe:
- Olha mãe, sou a Alzira.
- Que Alzira?
- A da novela, mamãe.
Crianças. E eu que imitava a cuca, a emilia, o pica-pau (sem conotações)...
- Olha mãe, sou a Alzira.
- Que Alzira?
- A da novela, mamãe.
Crianças. E eu que imitava a cuca, a emilia, o pica-pau (sem conotações)...
sexta-feira, junho 13, 2008
Linha de raciocínio
Nas batidas das mais diversas baterias - Eu nao poderia crêr que batidas existam - haviam muito menos pêlos nas semelhanças tão diferentes - Eu nao poderia crer que diferenças tão semelhantes existam.
Notei. Notaste como tudo está igual? Portanto, nao subestime o que é mais magro, mais fraco, mais sensivel. Nao subestime a mim, cara pálida.
Deixa. O rock preferido está tocando ali no rádio e quero é bailar ao som da melodia.
Bailar? Que troço mais antigo!
Mas deve ser mais ou menos por aí o raciocínio.
segunda-feira, junho 09, 2008
Um "Feliz Aniversário" original
Antes, um menino assexuado. Hoje, superdotado fisica e intelectualmente. Pode ser que eu esteja mentindo um pouco. Quem sabe? Além das transformações, Thiago desenvolveu um dom maravilhoso, que foge da sanidade e fode com a cabeça da gente: ele escreve. Mas não escreve qualquer coisa, como qualquer um e em qualquer lugar no mundo. Ele é único, "uno", espécie rara. Foi um cuspe doce de Deus num mundo que não salivava há tempos; apagou as chamas do inferno com a sua hidro-imaginação que escorreu feito enchente para a terra do Diabo. Thiago se libertou das amarras no dia 8 de junho e, por isso, o parabenizo. Felicidades, meu querido. Muitos anos de vida!
Ps: eu não sou gay, tampouco ateu. rs
Por Paulo Fernando
Ps: eu não sou gay, tampouco ateu. rs
Por Paulo Fernando
domingo, junho 01, 2008
Na lápide desde agora
- Desejo ter desejos reais.
- O desejo de ter desejo já é um desejo. E os “não reais” também.
- Mas os meus desejos são quase sonhos.
- Porque não se pode sonhar?
- Meus sonhos são apenas palavras.
- Então são fáceis. Diga-me.
- Sonho ter um texto bonito em minha lápide. E estaria assim:
“Este homem lançou seu próprio livro, um romance inesquecível. Casou-se na praia com a mulher de sua vida. Viajou pelos mares do mundo com as pessoas que sempre amou. Aventurou-se. Aprendeu. Errou muito. Acertou bastante. Ganhou dinheiro com o que tinha prazer em fazer. Fez muita coisa que ajudou a humanidade. Fez algo que o tornou célebre. Será lembrado por futuras gerações. Este homem dono de um largo sorriso achou o seu lugar no mundo. Buscou e foi feliz”.
- Então seriam estas as palavras que gostaria de ter na minha lápide.
- Meu caro. Não importam as palavras. Quem grafa-las poderá mentir.
- Haveria honestidade.
- Aí é que está. Seus desejos são belos como seria a sua lápide.
- São irreais.
- São plausíveis. E são difíceis na medida em que deseja. Deseja tanto assim? O que está fazendo para que se realizem? Sonhar não custa nada. A não ser que você espera que se faça mágica.
- Tenho uma vida inteira para escrever minha lápide.
- Pense que tem um dia.
- Dois então?
- Dois.
- É que hoje é domingo, ta frio, chove...
- Sem preguiça a partir desta segunda-feira para desejar, realizar e ser feliz.
- Combinado.
- O desejo de ter desejo já é um desejo. E os “não reais” também.
- Mas os meus desejos são quase sonhos.
- Porque não se pode sonhar?
- Meus sonhos são apenas palavras.
- Então são fáceis. Diga-me.
- Sonho ter um texto bonito em minha lápide. E estaria assim:
“Este homem lançou seu próprio livro, um romance inesquecível. Casou-se na praia com a mulher de sua vida. Viajou pelos mares do mundo com as pessoas que sempre amou. Aventurou-se. Aprendeu. Errou muito. Acertou bastante. Ganhou dinheiro com o que tinha prazer em fazer. Fez muita coisa que ajudou a humanidade. Fez algo que o tornou célebre. Será lembrado por futuras gerações. Este homem dono de um largo sorriso achou o seu lugar no mundo. Buscou e foi feliz”.
- Então seriam estas as palavras que gostaria de ter na minha lápide.
- Meu caro. Não importam as palavras. Quem grafa-las poderá mentir.
- Haveria honestidade.
- Aí é que está. Seus desejos são belos como seria a sua lápide.
- São irreais.
- São plausíveis. E são difíceis na medida em que deseja. Deseja tanto assim? O que está fazendo para que se realizem? Sonhar não custa nada. A não ser que você espera que se faça mágica.
- Tenho uma vida inteira para escrever minha lápide.
- Pense que tem um dia.
- Dois então?
- Dois.
- É que hoje é domingo, ta frio, chove...
- Sem preguiça a partir desta segunda-feira para desejar, realizar e ser feliz.
- Combinado.
quinta-feira, maio 29, 2008
Querem ver
Subentende-se um valor a mais no olhar.
E por ele que procuro
Procuro e nada a ele em especial, vem.
Para os ouvidos, música.
Para o nariz, cheiros que mais vêm da mente que do ambiente.
Mas pros olhos, carma, acizentadas paredes.
Eles precisam de borboletas à frente.
Eles precisam de cor.
Eu quero cor.
Mas, segundo uma das Leis de Murphy...
"O modo mais rápido
de se encontrar uma coisa
é procurar outra.
Você sempre encontra
aquilo que não está procurando".
(Thiago Kuerques - 19/10/06)
E por ele que procuro
Procuro e nada a ele em especial, vem.
Para os ouvidos, música.
Para o nariz, cheiros que mais vêm da mente que do ambiente.
Mas pros olhos, carma, acizentadas paredes.
Eles precisam de borboletas à frente.
Eles precisam de cor.
Eu quero cor.
Mas, segundo uma das Leis de Murphy...
"O modo mais rápido
de se encontrar uma coisa
é procurar outra.
Você sempre encontra
aquilo que não está procurando".
(Thiago Kuerques - 19/10/06)
segunda-feira, maio 19, 2008
A desencantada do ônibus e do dentista.
Não sabia como me aproximar dela naquele matinal ônibus de todos os dias. Cabelos abusadamente lisos, como cortina de um palco para o rosto perfeitamente fino. Era a única que vi naquele veículo a cruzar as pernas num espaço tão pequeno. Sabia que era linda. Nathalia? Amanda? Rosélia? Fabiana? Joana? Claudinha? Assassina? Professora? Psicóloga? Matilde? Ana? Me engana!
Enchia-me de audácia todo dia um pouquinho mais. Foram tantas doses homeopáticas que me perdi. Mas depois me encontrei bem ali, cruzando com ela mesma na fila de espera do dentista. Éramos cinco. Depois quatro. O terceiro acompanhava o sexto que eu nem havia visto entrar. Restamos nós. Comecei o assunto. Ela lembrou de mim do ônibus. Fazia pré-vestibular no centro. E eu estagiando na engenharia. Falava de violoncelo e eu ainda sonhando com a guitarra. Pensava em natação e eu ainda nos próximos jogos do Caxias na tv. Viajou o mundo um pouquinho e eu só fui a São Paulo ver os Rolling Stones uma vez. Mas usava aparelho como eu.
Quando lembramos disso da última vez eu lhe resgatei em mim. Mirei duas horas nos olhos negros e prossegui. Agora, se ela me dissesse que se apaixonou por mim e não me acha um príncipe, muito menos encantado e que não chegou a mim porque buscava ele, eu a amaria por toda vida. E foi o que ela disse. Por toda a vida.
Enchia-me de audácia todo dia um pouquinho mais. Foram tantas doses homeopáticas que me perdi. Mas depois me encontrei bem ali, cruzando com ela mesma na fila de espera do dentista. Éramos cinco. Depois quatro. O terceiro acompanhava o sexto que eu nem havia visto entrar. Restamos nós. Comecei o assunto. Ela lembrou de mim do ônibus. Fazia pré-vestibular no centro. E eu estagiando na engenharia. Falava de violoncelo e eu ainda sonhando com a guitarra. Pensava em natação e eu ainda nos próximos jogos do Caxias na tv. Viajou o mundo um pouquinho e eu só fui a São Paulo ver os Rolling Stones uma vez. Mas usava aparelho como eu.
Quando lembramos disso da última vez eu lhe resgatei em mim. Mirei duas horas nos olhos negros e prossegui. Agora, se ela me dissesse que se apaixonou por mim e não me acha um príncipe, muito menos encantado e que não chegou a mim porque buscava ele, eu a amaria por toda vida. E foi o que ela disse. Por toda a vida.
quinta-feira, maio 15, 2008
Mário Quintana não me ajudou
- E como está o namoro?
- Não estamos namorando.
- Hm
Era uma espécie de teimosia do destino. O namorado atual dela era tudo o que eu não consegui ser. Podia até ser rei e eu um pobre diabo. Mas eu sabia bem que o mais importante ele não haveria de ter. Pois eu guardava comigo. Era o meu pesadelo bom. O beijo, a uns três ou quatro meses atrás, tivera sido roubado por mim num ato de desespero. Quis, sim, tacar alcool na fogueira quase fria. Nunca havia recebido um olhar de tamanho desprezo. E ela se foi.
Meu passado e eu. Eu não queria saber mais que podia. Eu estava de teco-teco nervoso, um tique meio doido. Pegava carona nas pessoas que passavam com o meu olhar só para não ter que encará-la sem poder tê-la. Corria os olhos pela bilionésima filial do McDonald´s, pelo segurança vesgo, pela calça jeans escura dela mesma. Acontece que éramos criminosos por nos amarmos e não estarmos juntos. Aliás, estávamos em outras. Ela quase noiva sem mesmo namorar. Voê, leitor, não entende se não afeito a dogmas. E eu, sei lá. Deu-me um acesso voluntarioso e infindável de covardia. Corria mais os olhos pelos quadros expostos em preto e branco do passado da minha cidade. Santa história. Quer saber? Eu voltei a abrir a boca, o coração...
- Eu ainda te amo, menina. Eu ainda te amo! Não te amo pouco, te amo ainda mais.
E ela olhou. Olhou novamente. Se atrapalhou nos passos. E olha que estava parada. Olhou ao redor. Me aproximei. Estava com blusa rosa e ela de verde. Rompia nos pés uma vontade de correr o mundo com ela furtada a tiracolo. E foi de vez em vez que os lábios pareciam ímãs. Mas o beijo era exatamente aquela parte do íma que repudia. As bochechas grudavam e as bocas não se permitiam. O que é que o bom Mário Quintana diria a ela? Diria para morrermos.
- Morrer? Tá louco?
- Nunca leu Mário Quintana?
- Li, sim.
- Mário diria...
- Gosto de vida.
- Mário diria que é tão bom morrer de amor... e continuar vivendo.
- Estou grávida do meu noivo... E Mário Quintana saberia que existem muito mais coisas além de amor. Chegamos ao fim.
- Não estamos namorando.
- Hm
Era uma espécie de teimosia do destino. O namorado atual dela era tudo o que eu não consegui ser. Podia até ser rei e eu um pobre diabo. Mas eu sabia bem que o mais importante ele não haveria de ter. Pois eu guardava comigo. Era o meu pesadelo bom. O beijo, a uns três ou quatro meses atrás, tivera sido roubado por mim num ato de desespero. Quis, sim, tacar alcool na fogueira quase fria. Nunca havia recebido um olhar de tamanho desprezo. E ela se foi.
Meu passado e eu. Eu não queria saber mais que podia. Eu estava de teco-teco nervoso, um tique meio doido. Pegava carona nas pessoas que passavam com o meu olhar só para não ter que encará-la sem poder tê-la. Corria os olhos pela bilionésima filial do McDonald´s, pelo segurança vesgo, pela calça jeans escura dela mesma. Acontece que éramos criminosos por nos amarmos e não estarmos juntos. Aliás, estávamos em outras. Ela quase noiva sem mesmo namorar. Voê, leitor, não entende se não afeito a dogmas. E eu, sei lá. Deu-me um acesso voluntarioso e infindável de covardia. Corria mais os olhos pelos quadros expostos em preto e branco do passado da minha cidade. Santa história. Quer saber? Eu voltei a abrir a boca, o coração...
- Eu ainda te amo, menina. Eu ainda te amo! Não te amo pouco, te amo ainda mais.
E ela olhou. Olhou novamente. Se atrapalhou nos passos. E olha que estava parada. Olhou ao redor. Me aproximei. Estava com blusa rosa e ela de verde. Rompia nos pés uma vontade de correr o mundo com ela furtada a tiracolo. E foi de vez em vez que os lábios pareciam ímãs. Mas o beijo era exatamente aquela parte do íma que repudia. As bochechas grudavam e as bocas não se permitiam. O que é que o bom Mário Quintana diria a ela? Diria para morrermos.
- Morrer? Tá louco?
- Nunca leu Mário Quintana?
- Li, sim.
- Mário diria...
- Gosto de vida.
- Mário diria que é tão bom morrer de amor... e continuar vivendo.
- Estou grávida do meu noivo... E Mário Quintana saberia que existem muito mais coisas além de amor. Chegamos ao fim.
sábado, maio 10, 2008
Culpa do noticiário
Que me faz sumir do mundo.
É uma criança que morre
E muita gente que surge
Parecem nascer da tragédia sensacional
Justiceiros do aparecer
O absurdo fantástico
Que é hoje viver.
Um mês de ausência
Sem amor em maio
É tudo culpa
Desse tal noticiário.
É uma criança que morre
E muita gente que surge
Parecem nascer da tragédia sensacional
Justiceiros do aparecer
O absurdo fantástico
Que é hoje viver.
Um mês de ausência
Sem amor em maio
É tudo culpa
Desse tal noticiário.
Assinar:
Postagens (Atom)