É só um menino. Só um menino magro e baixo. Fechava os olhos sentado naquele banco do colégio ao lado da segunda árvore atrás das salas de aula sempre que ela passava. Abaixava a cabeça e falava bem baixinho o quanto amava aquela menininha.
A menininha era da terceira série. O menininho da quarta. Ela media 3 centímetros a mais que ele. Ele achava um absurdo. Ficava pendurado no galho do cajueiro, comia em pé, vivia de pé. Isso pra crescer logo. Só fazia doer o pé. Ela branca de cabelos castanhos. Ele moreno dos cabelos pretos. Ela vivia enrolando-os pelos dedos. Ele vivia enrolando a merendeira no casaco. É pra ninguem ver que eu uso merendeira, dizia. Ela usava um arco amarelo que combinava com as paredes do colégio. Ele amarrava cadarço do tênis no tornozelo.
Criou coragem e escreveu no espelhinho que ela usava. Escreveu com canetinha azul. "Voce é o amor da minha vida. Namora e depois casa comigo? Ass.: Digo". Nas regras do amor está tudo errado. Nos limites da razão está tudo errado. De longe a menininha sorriu faltando um dente. De perto ele viu que faltavam dois. Ele pensava que se ela tinha perdido os dentes de leite, era sinal de que estava ficando pronta pra namorar. Estava criando juizo, dizia ele.
Chovia demais. Tinham de andar por volta de cinquenta metros ate em casa. A dela era a vinte passos dali. O menininho se atrapalhava enfiando a merendeira numa mochila grande. A menininha deixou cair o guarda-chuva duas vezes antes de sair de debaixo da marquise. Nao conseguia atravessar um metro de extensao de uma correnteza de agua da chuva e sujeiras mais. Digo sorriu. Ja estava ao lado dela e sabia que pelo jeito que ela o olhou, havia aceitado namorar e se casar com ele. Entao, como bom homem, tirou o casaco e pôs na cabeça da menininha. Pegou-a todo esforçado no colo e encarou a agua, a rua e o frio. Ela sorriu com timida satisfaçao. Deu um beijo na bochecha bem molhado e correu com guarda-chuva torto os dez metros que faltavam ate a porta de casa.
A menininha de cabelos cacheados e bochechas vermelhas passou os outros quatro dias procurando o menininho moreninho que a olhava entre os dedos que escondiam a cara muito mal disfarçada.
Digo ria-se de bobo. Dizia estar no ceu. Mas a internaçao por leptospirose está longe de ser algo dos céus. A mae que nao se ria muito. Acabara por perder o ano. Teria que fazer a quarta serie denovo. Mas faria apaixonado.
quinta-feira, julho 22, 2010
sexta-feira, julho 09, 2010
Cartão de Embarque
O raio de sol ofuscou os óculos escuros, batendo enviezado entre o rosto e a lente preta. Mesmo assim respondeu ao asceno. Passou a carteira da mão direita para a esquerda e levantou o braço. Deu tchau também e viu um sorriso contido nela. Aliás, caríssimos, quem era ela? A memória não funcionava. Nenhuma gaveta escondida na cabeça continha uma pasta com uma foto 3X4 daquele rosto.
Quando livrou-se do sol viu que realmente nunca havia visto a mulher. Mas era branca, cabelos ligeiramente anelados, castanhos, vivos e um par de olhos amendoados e maiores que os dele, que eram puxados feito lã antes do tricô.
Carecia de covardia. Era corajoso demais. Não deixou de desafiar a mulher. Insuava mesmo. Não como leão atrás do filé. Parecia a criança fugindo da chuva.
- Topa um suco de uva? - arriscou.
A pergunta surgiu depois de trinta e quatro segundos de deslocamento de onde ele estava até a porta da sala de embarque do Aeroporto Internacional de Manaus. Ela carregava uma bolsa preta de couro fino de tamanho médio, entreaberta, dependurada ao ombro esquerdo, amarrotando a blusa bem levemente insinuando que ela havia acabado de mexer na bolsa e de tão recente não arrumou-se para entrar na sala. Ele deduziu que o embarque ainda esperaria por ela. Talvez uns vinte minutos mais.
- Uma coca-cola? Seu embarque não começou ainda. - insistiu.
- Aceito. Mas a coca-cola cai melhor nesse calor, não? - respondeu a mulher.
Em mais dez segundos até a lanchonete do lugar ele reparou na falta de aliança, nos pés de número 34 ou 35, na cicatriz de dois centímetros abaixo do queixo, na calça um pouco justa e no comprimento da blusa xadrez que indicava que naquele calor uma mulher escondendo a barriga é sinal de insegurança com o próprio corpo. Talvez tivesse o corpo mais bonito que ele já viu mas a mulher devia ter lá suas crises.
- Sou carioca.
- Sou do interior de São Paulo.
- Sou rubro-negro, adoro samba, futebol, churrasco, mapas, músicas antigas, turismo, cidades serranas, promoção de passagem aérea e piadas sem graça alguma.
- Sou corinthiana. O resto eu gosto tanto quanto. Terei filhos, um marido moreno, sou viciada em carinho e gosto muito de sexo, sou protetora, me divirto sozinha e sonho que o turismo será mais que promissor.
- Dizem que sou conselheiro e divertido.
- Dizem que sou amiga e engraçada.
- Dá no mesmo, né?
- É, dá.
E o assunto pouco importava. Ele continuava estudando todos os cantos dela. O perfume era de preço mediano. Ele achava que mulher digna era aquela que nem era tão futil pra gastar mares de dinheiro com essas coisas e nem aquela que nada gastava com isso. Tinha de ser equilibrada. Ela parecia.
- Gosto de ser moreno. É uma cor equilibrada. Entre o negro e o branco.
- Gosto de ser timidamente simpatica. É um equilíbrio entre a euforia e o silêncio.Entreolharam-se no calor do Amazonas. Ela parecia se perguntar quem era ele. Ele, claro, nem queria se perguntar quem era ela.
- Nossa, perdi o meu vôo.
- Talvez eu tenha perdido o meu também. Mas acho que ganhei o dia.
Tudo em volta ficou ferozmente congelado. Batiam com facilidade a casa dos 45ºC graus.
- Com certeza eu não te conheço. - afirmou ela.
- Confundi um asceno.
- Não fez mal. Eu confundiria. Mas, só estava ajeitando a blusa.
- Não precisa justificar. Te dou todo o tempo do mundo pra me deixar em dúvida.
Quando livrou-se do sol viu que realmente nunca havia visto a mulher. Mas era branca, cabelos ligeiramente anelados, castanhos, vivos e um par de olhos amendoados e maiores que os dele, que eram puxados feito lã antes do tricô.
Carecia de covardia. Era corajoso demais. Não deixou de desafiar a mulher. Insuava mesmo. Não como leão atrás do filé. Parecia a criança fugindo da chuva.
- Topa um suco de uva? - arriscou.
A pergunta surgiu depois de trinta e quatro segundos de deslocamento de onde ele estava até a porta da sala de embarque do Aeroporto Internacional de Manaus. Ela carregava uma bolsa preta de couro fino de tamanho médio, entreaberta, dependurada ao ombro esquerdo, amarrotando a blusa bem levemente insinuando que ela havia acabado de mexer na bolsa e de tão recente não arrumou-se para entrar na sala. Ele deduziu que o embarque ainda esperaria por ela. Talvez uns vinte minutos mais.
- Uma coca-cola? Seu embarque não começou ainda. - insistiu.
- Aceito. Mas a coca-cola cai melhor nesse calor, não? - respondeu a mulher.
Em mais dez segundos até a lanchonete do lugar ele reparou na falta de aliança, nos pés de número 34 ou 35, na cicatriz de dois centímetros abaixo do queixo, na calça um pouco justa e no comprimento da blusa xadrez que indicava que naquele calor uma mulher escondendo a barriga é sinal de insegurança com o próprio corpo. Talvez tivesse o corpo mais bonito que ele já viu mas a mulher devia ter lá suas crises.
- Sou carioca.
- Sou do interior de São Paulo.
- Sou rubro-negro, adoro samba, futebol, churrasco, mapas, músicas antigas, turismo, cidades serranas, promoção de passagem aérea e piadas sem graça alguma.
- Sou corinthiana. O resto eu gosto tanto quanto. Terei filhos, um marido moreno, sou viciada em carinho e gosto muito de sexo, sou protetora, me divirto sozinha e sonho que o turismo será mais que promissor.
- Dizem que sou conselheiro e divertido.
- Dizem que sou amiga e engraçada.
- Dá no mesmo, né?
- É, dá.
E o assunto pouco importava. Ele continuava estudando todos os cantos dela. O perfume era de preço mediano. Ele achava que mulher digna era aquela que nem era tão futil pra gastar mares de dinheiro com essas coisas e nem aquela que nada gastava com isso. Tinha de ser equilibrada. Ela parecia.
- Gosto de ser moreno. É uma cor equilibrada. Entre o negro e o branco.
- Gosto de ser timidamente simpatica. É um equilíbrio entre a euforia e o silêncio.Entreolharam-se no calor do Amazonas. Ela parecia se perguntar quem era ele. Ele, claro, nem queria se perguntar quem era ela.
- Nossa, perdi o meu vôo.
- Talvez eu tenha perdido o meu também. Mas acho que ganhei o dia.
Tudo em volta ficou ferozmente congelado. Batiam com facilidade a casa dos 45ºC graus.
- Com certeza eu não te conheço. - afirmou ela.
- Confundi um asceno.
- Não fez mal. Eu confundiria. Mas, só estava ajeitando a blusa.
- Não precisa justificar. Te dou todo o tempo do mundo pra me deixar em dúvida.
sexta-feira, junho 25, 2010
Vício Canalha
Uma mulher.
Uma mulher ciranda.
Umbanda.
Que manda.
Cigana
Uma mulher cheirosa
Colorida
Preta
Pálida
Quente
Sofrida
Uma mulher saliente
Calada
Casada
Adocidaca
Machucada
Carente
Forte
Atriz.
Uma mulher gostosa
Suave
Crente
Faceira
Uma mulher vicia
Qualquer
Feitiça
Atiça
Até noviça.
Uma mulher
Tem poder
Remedia
Ou mata de vez.
É minha droga
Perco a órbita
Mas eu amo todas
Denovo
E outra vez.
Uma mulher ciranda.
Umbanda.
Que manda.
Cigana
Uma mulher cheirosa
Colorida
Preta
Pálida
Quente
Sofrida
Uma mulher saliente
Calada
Casada
Adocidaca
Machucada
Carente
Forte
Atriz.
Uma mulher gostosa
Suave
Crente
Faceira
Uma mulher vicia
Qualquer
Feitiça
Atiça
Até noviça.
Uma mulher
Tem poder
Remedia
Ou mata de vez.
É minha droga
Perco a órbita
Mas eu amo todas
Denovo
E outra vez.
quarta-feira, junho 16, 2010
Mal passado
Viver é uma eterna comparação do que se viveu de melhor com o que se vive de pior. Comparamos sempre involuntariamente. Se hoje vamos a uma praia qualquer sentimos saudades da praia mais quente e mais vislumbrante que visitamos. Se comemos de um feijão tropeiro absolutamente normal aparece uma pequena decepção de não estar mais degustando aquele feijão tropeiro e fresco da roça.
Nunca iremos viver o que já vivemos. O intocável permite que alguns momentos sejam eternos. Se é palpável, é humano. Se é humano nem é tão bom. Por isso o Michael Jackson é estrela. Por era intocável. Por isso Paris é uma cidade a ser conhecida, por ser distante. Por isso o invisível amor de ontem é muito mais amor que o amor de hoje. Até que se prove o contrário andar de charrete era mais divertido. Mas vem sempre alguém sorrindo demais mostrando que a felicidade de hoje é a plenitude perfeita de amanhã.
Não existe uma fita a ser rebubinada. Hoje é dvd. Não existe um guaraná mais gostoso. Hoje é refresco de caixinha. Não existe falta de proteção. Hoje é camisinha feminina. Não existe mulher zero kilometro. Hoje é "do passado eu não sei". Não existe um passado melhor. Hoje é viver. Não existe uma verdade maldita. Hoje é você.
Nunca iremos viver o que já vivemos. O intocável permite que alguns momentos sejam eternos. Se é palpável, é humano. Se é humano nem é tão bom. Por isso o Michael Jackson é estrela. Por era intocável. Por isso Paris é uma cidade a ser conhecida, por ser distante. Por isso o invisível amor de ontem é muito mais amor que o amor de hoje. Até que se prove o contrário andar de charrete era mais divertido. Mas vem sempre alguém sorrindo demais mostrando que a felicidade de hoje é a plenitude perfeita de amanhã.
Não existe uma fita a ser rebubinada. Hoje é dvd. Não existe um guaraná mais gostoso. Hoje é refresco de caixinha. Não existe falta de proteção. Hoje é camisinha feminina. Não existe mulher zero kilometro. Hoje é "do passado eu não sei". Não existe um passado melhor. Hoje é viver. Não existe uma verdade maldita. Hoje é você.
quinta-feira, junho 03, 2010
Teoria do Amor Perecível
Fosse uma boa metáfora para te dizer com exatidão o que o tempo faz conosco quando amamos muito e por muito tempo, sei lá, saberia dizer não. Amor, o amor, aquele amor, grande e pomposo, dizem alguns poetas, é eterno. Palavra bonita. Seu sentido mais belo ainda. Quando misturados geram até delicioso êxtase. Amor eterno. Um sonho eterno. Um sonho de amor. Sonho tem durabilidade. E para mim, amor também.
Amor é recurso escasso consumido pelo tempo. O tempo pode ser curto, longo ou satisfatório. Um amor pode durar sessenta e nove anos e assim mesmo ser eterno. Um amor pode durar três, quatro anos e também ser eterno. O amor é um bem durável, perecível. Por certas vezes tem até uma obsolescência programada. O insosso é incolor, o sem-graça é inodoro. Se perde a cor após algum tempo é um amor disfarçado. Comodismo, costume, rotina. Todos se disfarçam de amor. Como todo rompimento é difícil saber quando é mera crise ou quando é ausência de amor. É dificílimo desgarrar das raízes, da até boa normalidade. Amor é emoção, é surpresa, é especial, é o descontrole, é paixão. Amor é risco. Amor é arisco. É teimoso, manhoso. Amor é um chocolate ao leite consumido pelo mais chocólotras dos ventos: o tempo.
Pode ser que a rotina dê certo. Fácil ser terno o caminho liso, sem lombadas e buracos. Haverá possivelmente felicidade. Haverá com certeza, incompleta. Existem os artifícios elásticos. O amor pode ser esticado com a boa vontade, o deleite. Como a ausência dessas atitudes causam o seu desgaste. Amor acaba tão inesperadamente como começa. A aceitação que é das mais difíceis.
Os exageros são do amor. Me perguntam se o amor é divisor. Não. É multiplicador, somador. Fosse amor não haveria de ser comparado com outras tentações e nem seria questionado. Fácil também falar como antropólogo, alheio, bem do alto, de fora de qualquer tendência. Justo. Justo também não entender nada do que disse. Ame, acostume-se, caia em dúvidas e descubra do que falo. É carinho, gratidão, desamor.
Amor é recurso escasso consumido pelo tempo. O tempo pode ser curto, longo ou satisfatório. Um amor pode durar sessenta e nove anos e assim mesmo ser eterno. Um amor pode durar três, quatro anos e também ser eterno. O amor é um bem durável, perecível. Por certas vezes tem até uma obsolescência programada. O insosso é incolor, o sem-graça é inodoro. Se perde a cor após algum tempo é um amor disfarçado. Comodismo, costume, rotina. Todos se disfarçam de amor. Como todo rompimento é difícil saber quando é mera crise ou quando é ausência de amor. É dificílimo desgarrar das raízes, da até boa normalidade. Amor é emoção, é surpresa, é especial, é o descontrole, é paixão. Amor é risco. Amor é arisco. É teimoso, manhoso. Amor é um chocolate ao leite consumido pelo mais chocólotras dos ventos: o tempo.
Pode ser que a rotina dê certo. Fácil ser terno o caminho liso, sem lombadas e buracos. Haverá possivelmente felicidade. Haverá com certeza, incompleta. Existem os artifícios elásticos. O amor pode ser esticado com a boa vontade, o deleite. Como a ausência dessas atitudes causam o seu desgaste. Amor acaba tão inesperadamente como começa. A aceitação que é das mais difíceis.
Os exageros são do amor. Me perguntam se o amor é divisor. Não. É multiplicador, somador. Fosse amor não haveria de ser comparado com outras tentações e nem seria questionado. Fácil também falar como antropólogo, alheio, bem do alto, de fora de qualquer tendência. Justo. Justo também não entender nada do que disse. Ame, acostume-se, caia em dúvidas e descubra do que falo. É carinho, gratidão, desamor.
segunda-feira, maio 31, 2010
Manual de Desinstruções
Um dia de tanto pedir recebi sabe-se lá como um manual de como amar, do caminho para se chegar a plena felicidade e de como sair de , assim, tão menos presentes dores do coração. Era um didático de mais de 700 folhas, com gravuras e dicas irresistíveis. Até receita tinha. Não me faça recordar das gramas e colheres mas estavam registradas doses de manga doce, tabletes de chocolate, algo de aroma de jasmim, minutos de desenho animado, horas e horas de sexo feito com amor, momentos de adrenalina no limite, canto da torcida no estádio lotado, reencontros logo após desencontros que matam saudades, recomeços após recomeços, reconhecimentos de carinho, de pessoas, de sabores, viagem com amigos, dança sensual, dança engraçada, descobertas inéditas para o mundo novinhas em folha, sucesso de novela e liberdade de beija-flor. Um manual meticuloso, metódico, racional e bem planejado. Ensinava como numa linha de montagem passo a passo como bem estar. Retomei a primeira lição. Estava amando, e amando bastante, lutando contra as corriqueiras barreiras de um amor grandioso. Lá pela página décima quinta dizia que devemos olhar bem nos olhos, dizer as palavras certas, treinadas, e bem colocadas no momento, entregar algumas coisas bem ordenadas. Parei ali. Ordem. Onde há, no amor, ordem eu quero desordem. Onde há boa colocação eu quero espontaneidade. Onde há treino eu quero improviso. Fui a um fumante mais próximo, pedi seu isqueiro e pus fogo. Da fogueira esquentei o dia gelado. Abracei a minha amada que pela primeira vez aceitou um beijo meu.
domingo, maio 23, 2010
E se eu te oferecesse um tapa?
- Você sempre aceita tudo que ofereço? - perguntou Camila.
- Acho que sim.
O que ela quis com essa pergunta? Eu realmente não sei.
- Porque? - insistiu.
O vento ficou surpreso. Até o gatinho Memeu saiu de fininho.
- Porque...sei lá porque.
- Responde.
Olhei intensamente naquela bolinha preta dentro dos olhos cor de caramelo dela. Olhei pros lábios finos, como ligeiros rabiscos na hora de finalizar uma grande obra. Minha boca secou.
- Acho que é porque ainda não houve alguma coisa que eu pudesse negar.
- E se eu te oferecesse bosta?
- Eu negaria.
- Bom. E se eu te oferecesse um tapa?
- Eu teria que ter feito algo pra isso.
- Então faça. - disse ela ajeitando o corpo para receber algo qualquer que seja.
Eu queria ou não fazer valer um tapa? Demorei. Não conseguia pensar. Ela me daria um tapa se eu roubasse um beijo. E talvez nem me considerasse mais.
- Então faça, cara.
- Tem certeza? - emendei amedrontado.
Ela parou. Fuzilou com o caramelo dos olhos. Me melou. Escorreu um veneno em mim. Era o alcool procurando a combustão. Riu-se de canto de boca, olhou para minha boca, pôs a mão direita esfregando a nuca e os cabelos absurdamente lisos:
- Vai fugir do meu desafio? Anda! Faça algo para merecer um bom tapa.
Cheguei mais perto. Respirei fundo como se fosse mergulhar em um mar escuro e gelado.
- Espero que valha um tapa.
Passei a mão na...
- Puta que o pariu. Isso? Mão na perna?
- Voce é muito fraco.
Eu sorri. Adorava entortar a primeira impressão.
Peguei-a pela blusa. Rasguei num movimento só e tão facilmente que nem sei como. Com o braço direito puxei-a, pus o antebraço bem naquela curva da coluna perto do baço, antes da bunda. Ela tinha covinhas.
- Uu... - gemeu ela.
Um beijo interminável. Ambos ofegávamos desesperados. Era um prato quente esperando pra ser degustado. Não podíamos deixar esfriar. Camila abriu o zíper da minha calça que caiu na hora e correu pra abrir a dela que reclamou pra descer. Pulou em cima de mim. Pus a perna direita em cima da cadeira. As pernas dela enlaçavam a minha cintura. Mordeu meu pescoço. Mordi o bico do seio. Ela tremeu e começou a gemer mais. Rebolava com o meu dentro dela. Rebolava ritmada e felina. Tentou me arranhar. Juntei os dois braços atrás das costas dela e segurei com apenas uma mão. Ela continuou rebolando de um lado pro outro, de cima pra baixo. E eu fazia os mesmos movimentos, só que mais violentamente. Estávamos já suados. E tudo se misturava. Pés nas pernas, coxas nas coxas, mão na bunda, mão no meio da bunda dela, um dedo só, aquele som de pele com pele, barriga com barriga, peito com peito, com ombro, com boca, com língua, com dedos. Ela já gritava. Eu também. Até que ela começou a tremer, gritar descontrolada e diminuir os batimentos, os movimentos e abriu os olhos bem lentamente.
- Acho que sim. - disse ela.
- O que?
Ela desceu e eu ganhei um forte e merecedor tapa na cara.
- Acho que sim.
O que ela quis com essa pergunta? Eu realmente não sei.
- Porque? - insistiu.
O vento ficou surpreso. Até o gatinho Memeu saiu de fininho.
- Porque...sei lá porque.
- Responde.
Olhei intensamente naquela bolinha preta dentro dos olhos cor de caramelo dela. Olhei pros lábios finos, como ligeiros rabiscos na hora de finalizar uma grande obra. Minha boca secou.
- Acho que é porque ainda não houve alguma coisa que eu pudesse negar.
- E se eu te oferecesse bosta?
- Eu negaria.
- Bom. E se eu te oferecesse um tapa?
- Eu teria que ter feito algo pra isso.
- Então faça. - disse ela ajeitando o corpo para receber algo qualquer que seja.
Eu queria ou não fazer valer um tapa? Demorei. Não conseguia pensar. Ela me daria um tapa se eu roubasse um beijo. E talvez nem me considerasse mais.
- Então faça, cara.
- Tem certeza? - emendei amedrontado.
Ela parou. Fuzilou com o caramelo dos olhos. Me melou. Escorreu um veneno em mim. Era o alcool procurando a combustão. Riu-se de canto de boca, olhou para minha boca, pôs a mão direita esfregando a nuca e os cabelos absurdamente lisos:
- Vai fugir do meu desafio? Anda! Faça algo para merecer um bom tapa.
Cheguei mais perto. Respirei fundo como se fosse mergulhar em um mar escuro e gelado.
- Espero que valha um tapa.
Passei a mão na...
- Puta que o pariu. Isso? Mão na perna?
- Voce é muito fraco.
Eu sorri. Adorava entortar a primeira impressão.
Peguei-a pela blusa. Rasguei num movimento só e tão facilmente que nem sei como. Com o braço direito puxei-a, pus o antebraço bem naquela curva da coluna perto do baço, antes da bunda. Ela tinha covinhas.
- Uu... - gemeu ela.
Um beijo interminável. Ambos ofegávamos desesperados. Era um prato quente esperando pra ser degustado. Não podíamos deixar esfriar. Camila abriu o zíper da minha calça que caiu na hora e correu pra abrir a dela que reclamou pra descer. Pulou em cima de mim. Pus a perna direita em cima da cadeira. As pernas dela enlaçavam a minha cintura. Mordeu meu pescoço. Mordi o bico do seio. Ela tremeu e começou a gemer mais. Rebolava com o meu dentro dela. Rebolava ritmada e felina. Tentou me arranhar. Juntei os dois braços atrás das costas dela e segurei com apenas uma mão. Ela continuou rebolando de um lado pro outro, de cima pra baixo. E eu fazia os mesmos movimentos, só que mais violentamente. Estávamos já suados. E tudo se misturava. Pés nas pernas, coxas nas coxas, mão na bunda, mão no meio da bunda dela, um dedo só, aquele som de pele com pele, barriga com barriga, peito com peito, com ombro, com boca, com língua, com dedos. Ela já gritava. Eu também. Até que ela começou a tremer, gritar descontrolada e diminuir os batimentos, os movimentos e abriu os olhos bem lentamente.
- Acho que sim. - disse ela.
- O que?
Ela desceu e eu ganhei um forte e merecedor tapa na cara.
terça-feira, maio 18, 2010
À gerência
Pedimos a colaboração de não jogar palavras ao vento, não cobrar taxas por declaração de sentimento, não acabar com prazer de momento. Pedimos que os senhores e senhoras sejam razoavelmente educados e tolerantes com qualquer coração, olhar perdido e exclusão de cartas, papéis, msn e orkut. Pedimos que não pixem retratos, não joguem água em nenhum chopp, que deixe ser como será e que este coração, se for morrer, que morra de amor.
À gerência.
À gerência.
quinta-feira, maio 13, 2010
O homem nu
Acho que vou ficar surdo.
Não ouvir o que o passado tem a dizer.
O passado é ruim, é mal passado, é amarrotado.
Depois vou ficar mal.
Serei uma maledicência deliciosa de homem com barba cerrada.
Acho que vou ficar impertinente.
Vou sair por ai só pra dizer que saí.
Quem disse que sou sem sal?
Logo depois vou ficar mais teimoso.
Tem que dizer pro vencedor que ele não ganhou nada.
Tenho que, ao menos, fazer da vitória do outro algo valioso.
Acho que vou ficar dengoso.
E no final da batalha eu deito no colo do meu dengo.
No momento seguinte vou ficar bonito pra caramba.
Vou me pintar feito um quadro manchado.
E será assim que vão me achar belo.
Gritem!
Acho que vou ficar mudo.
E tanto quanto ficar como um animal.
Das poeiras que enxergo eu relevo que tenha defeitos.
Mas revelo que tem paraíso na voz, felicidade na cor.
O tom de pele esquenta.
Acho que vou ficar indecente.
Por isso vou ficar gostoso.
Por isso você já é gostosa.
Acho que vou ficar esquisito pra caramba
Se eu parar de achar
E ficar logo nu.
Não ouvir o que o passado tem a dizer.
O passado é ruim, é mal passado, é amarrotado.
Depois vou ficar mal.
Serei uma maledicência deliciosa de homem com barba cerrada.
Acho que vou ficar impertinente.
Vou sair por ai só pra dizer que saí.
Quem disse que sou sem sal?
Logo depois vou ficar mais teimoso.
Tem que dizer pro vencedor que ele não ganhou nada.
Tenho que, ao menos, fazer da vitória do outro algo valioso.
Acho que vou ficar dengoso.
E no final da batalha eu deito no colo do meu dengo.
No momento seguinte vou ficar bonito pra caramba.
Vou me pintar feito um quadro manchado.
E será assim que vão me achar belo.
Gritem!
Acho que vou ficar mudo.
E tanto quanto ficar como um animal.
Das poeiras que enxergo eu relevo que tenha defeitos.
Mas revelo que tem paraíso na voz, felicidade na cor.
O tom de pele esquenta.
Acho que vou ficar indecente.
Por isso vou ficar gostoso.
Por isso você já é gostosa.
Acho que vou ficar esquisito pra caramba
Se eu parar de achar
E ficar logo nu.
segunda-feira, maio 10, 2010
Amor de salão
Era número cinco, na rua da ladeira. Tremia a cada passo em direção ao salão. Chovia um mundo inteiro. Haviam árvores em todo o calçamento. E mais que pessoas, mais que sorrisos, mais que música, havia medo. Era a primeira vez que se viam. Era um aniversário vistoso. Sei lá. Nunca se soube que festa era aquela. Sentou-se, ele, à direita do que se parecia com um pedestal. Sentou com uns três estranhos. Padeceu horas com os olhos desencontrados por aí. Mal imaginava o que seria ela. Magra, rechonchuda, alta, miúda.
Quisera ela que fosse tudo certinho como nos sonhos mais rosas. Se fosse fácil não existiriam as novelas. Nem esse aqui que vos escreve teria tamanho tesão para lhes contar. Nem saberia como descrever o quanto ela demorou tanto escolhendo a mais perfeita roupa que não havia reparado nas duas horas e meia de atraso.
O salão era espaçoso como uma audiência de pena de morte. São sempre kilometros que separam um do outro através de um silêncio sem perdão. E o castigo de serem desconhecidos era o sadismo mais gostoso que os dois disputavam. Um lugar comum. Sim, comum no século passado. Detalhes do período imperial. Mais parecia um Theatro Municipal em um espaço atemporal com cadeiras bem distribuídas e luzes a meia-luz.
Mal chegou e o viu, calado, encrostado entre a solidão e a multidão. Seguiu na direção dele. Tocava numa romântica qualquer. Ele seguia os olhos para o chão depois de ter visto o relógio pela enésima quinta vez. Ele levanta-se. Ela se aproxima. Apagam-se todas as luzes. Nem era combinado. Realmente acabou a energia. Vá lá, a mão dela escorreu pelo peito que se virava em sua direção. Ninguém enxergava nada. Eles enxergavam tudo. Os gritos evasivos de quem tem medo do escuro deixavam surdos ambos. Queimaram quarenta e cinco segundos tentando fazer com que as bocas se encontrassem. Recostavam os lábios pelos pescoços, pelos ouvidos, pelos olhos e bochechas. Fecharam os olhos. Pareciam os únicos que enxergavam na escuridão. Ninguém os via. Nem a mais eficaz visal acostumada com o breu os via. Apagaram de vez as luzes do minutos. Os corações misturavam as batidas ora por estarem juntos, ora por se tocarem, ora pelo perigo, ora pela multidão cega, ora por ser sexo mesmo. Não sabiam quanto tempo tinham. E assim mesmo foi. Ela facilitou e desceu as alças do vestido. Ele tirou a própria calça como se fosse uma sujeira na pele. Livrou-se do paletó e da camisa só livrou-se quando ela arrancou-lhe ignorando os botões. Enquanto isso ela ja estava só de calcinha. Ele pôs as duas mãos em cada lado da cintura dela e a trouxe pra perto, rápido. Ela pôs as pernas entre a cintura dele num pulo de gata. Assim mesmo, fazendo cócegas debaixo dela que ele a levou para o canto. Não esbarraram em ninguém. Rasgou a calcinha como se fosse papel. Talvez a calcinha já quisesse sair por si só. Puxava pela nuca os cabelos curtos e negros da mulher. Ela arranhava-lhe com dentes e unhas. Fazia mordidinhas entre as pernas dela. E depois ela entre as pernas dele. Ela fingia ser um pirulito que nunca poderia acabar. Fazia devagar para não gastar. Fazia rápido para gozar. Era indecisa. Ele também. Conviviam bem com isso. Sabia cada coisa que ela gostava. Mas era hora de ser o homem estranho. Ela também. Por isso experimentou colocá-la de costas beijando a nuca da branca, encaixando tudo que desse atras dela. Com a mão direita colocava os dedos deslizando por virilha abaixo. A mão esquerda revezava entre boca e seios. Puxava os bicos até se excitar com gemidos e tremores das pernas dela. A barriga se contraia. As pernas apertavam como se fossem matar alguém. Até que ela de repente saiu de perto e deu-lhe um bom tapa na cara. E deu mais um. Mais outro. No quarto ele segurou a mão. Com a mesma mão segurou uma das pernas. A outra segurou somente uma perna. Abriu e pulou nela como se fosse um castigo que a criança mais espera. Não podia gemer. Mas o último orgasmo foi tão forte que não teve jeito. Gritou. E a luz piscou. Menos de um segundo. Eles recuperavam o fôlego. Não sabiam onde estava qualquer roupa. Por ali só caminhava a calcinha rasgada. E assim ficou.
Acenderam-se as luzes do salão. Já eram cinco da manhã. Não havia mais ninguém em um festa apagada.
Quisera ela que fosse tudo certinho como nos sonhos mais rosas. Se fosse fácil não existiriam as novelas. Nem esse aqui que vos escreve teria tamanho tesão para lhes contar. Nem saberia como descrever o quanto ela demorou tanto escolhendo a mais perfeita roupa que não havia reparado nas duas horas e meia de atraso.
O salão era espaçoso como uma audiência de pena de morte. São sempre kilometros que separam um do outro através de um silêncio sem perdão. E o castigo de serem desconhecidos era o sadismo mais gostoso que os dois disputavam. Um lugar comum. Sim, comum no século passado. Detalhes do período imperial. Mais parecia um Theatro Municipal em um espaço atemporal com cadeiras bem distribuídas e luzes a meia-luz.
Mal chegou e o viu, calado, encrostado entre a solidão e a multidão. Seguiu na direção dele. Tocava numa romântica qualquer. Ele seguia os olhos para o chão depois de ter visto o relógio pela enésima quinta vez. Ele levanta-se. Ela se aproxima. Apagam-se todas as luzes. Nem era combinado. Realmente acabou a energia. Vá lá, a mão dela escorreu pelo peito que se virava em sua direção. Ninguém enxergava nada. Eles enxergavam tudo. Os gritos evasivos de quem tem medo do escuro deixavam surdos ambos. Queimaram quarenta e cinco segundos tentando fazer com que as bocas se encontrassem. Recostavam os lábios pelos pescoços, pelos ouvidos, pelos olhos e bochechas. Fecharam os olhos. Pareciam os únicos que enxergavam na escuridão. Ninguém os via. Nem a mais eficaz visal acostumada com o breu os via. Apagaram de vez as luzes do minutos. Os corações misturavam as batidas ora por estarem juntos, ora por se tocarem, ora pelo perigo, ora pela multidão cega, ora por ser sexo mesmo. Não sabiam quanto tempo tinham. E assim mesmo foi. Ela facilitou e desceu as alças do vestido. Ele tirou a própria calça como se fosse uma sujeira na pele. Livrou-se do paletó e da camisa só livrou-se quando ela arrancou-lhe ignorando os botões. Enquanto isso ela ja estava só de calcinha. Ele pôs as duas mãos em cada lado da cintura dela e a trouxe pra perto, rápido. Ela pôs as pernas entre a cintura dele num pulo de gata. Assim mesmo, fazendo cócegas debaixo dela que ele a levou para o canto. Não esbarraram em ninguém. Rasgou a calcinha como se fosse papel. Talvez a calcinha já quisesse sair por si só. Puxava pela nuca os cabelos curtos e negros da mulher. Ela arranhava-lhe com dentes e unhas. Fazia mordidinhas entre as pernas dela. E depois ela entre as pernas dele. Ela fingia ser um pirulito que nunca poderia acabar. Fazia devagar para não gastar. Fazia rápido para gozar. Era indecisa. Ele também. Conviviam bem com isso. Sabia cada coisa que ela gostava. Mas era hora de ser o homem estranho. Ela também. Por isso experimentou colocá-la de costas beijando a nuca da branca, encaixando tudo que desse atras dela. Com a mão direita colocava os dedos deslizando por virilha abaixo. A mão esquerda revezava entre boca e seios. Puxava os bicos até se excitar com gemidos e tremores das pernas dela. A barriga se contraia. As pernas apertavam como se fossem matar alguém. Até que ela de repente saiu de perto e deu-lhe um bom tapa na cara. E deu mais um. Mais outro. No quarto ele segurou a mão. Com a mesma mão segurou uma das pernas. A outra segurou somente uma perna. Abriu e pulou nela como se fosse um castigo que a criança mais espera. Não podia gemer. Mas o último orgasmo foi tão forte que não teve jeito. Gritou. E a luz piscou. Menos de um segundo. Eles recuperavam o fôlego. Não sabiam onde estava qualquer roupa. Por ali só caminhava a calcinha rasgada. E assim ficou.
Acenderam-se as luzes do salão. Já eram cinco da manhã. Não havia mais ninguém em um festa apagada.
quarta-feira, maio 05, 2010
Domada
Quero uma apática
Que não faça pirraça
Não me arrebata em nada
Faça menos graça
Faça nada em toada
Não reclame da toalha molhada
Nem finja desgraça
Quero uma amarga
Sem sorrisos piranhos
Que não fale se arranho
Nem se barganho
Nem se demoro no banho
Que não me agarre no canto
Alguém que não amo.
Quero ninguém então
Perdido no senão
De ter escutado um não
Mulher eterna, senhores
Desgraçado coração
Cuspa na minha mão
O amor vivido em vão.
- Mentira!
Que não faça pirraça
Não me arrebata em nada
Faça menos graça
Faça nada em toada
Não reclame da toalha molhada
Nem finja desgraça
Quero uma amarga
Sem sorrisos piranhos
Que não fale se arranho
Nem se barganho
Nem se demoro no banho
Que não me agarre no canto
Alguém que não amo.
Quero ninguém então
Perdido no senão
De ter escutado um não
Mulher eterna, senhores
Desgraçado coração
Cuspa na minha mão
O amor vivido em vão.
- Mentira!
domingo, maio 02, 2010
Mão Direita
- Bom apetite. - Obrigado.
Quem deseja bom apetite para quem vai escrever? Era coisa de escritor mesmo. Pareciam dois personagens dos filmes do Woody Allen, duas caricaturas dos intelectuais novaiorquinos excêntricos e covardes. Que ele tivesse um apetite enorme por boas palavras, inspiração e tudo o mais do mais. Mas que escritor vai ter boas palavras se ele apenas vive de romances encoxados de mel? As palavras boas estão pelas ruas. E o escritor que vos escreve mal sai do casulo. O Rubem Fonseca, por exemplo, é um enjaulado tinhoso que não suporta sair por ai a toa para ser visto. Mas já viu bastante para uma vasta obra policial. Não precisa nem escrever mais. Quanto mais sair pra ver a vida. Por tanto e tudo, resolvi perambular antes da primeira palavra do último capítulo da derradeira história que me daria talvez o ouro da literatura. Daria o reconhecimento de fãs, os três devotos leitores que, sabe-se lá porquê, continuam lendo persistentemente. E com uma câmera na mão o matuto tirou fotos e deu esmola, molhou e foi molhado, trabalhou e foi muito bem trabalhado. Viu o deficiente mijando em si, arrastando o cotoco pelo chão do trem choroso. Viu a criança engraxando sapatos na frente da rodoviária, tão novo e inocente que ainda sabia sorrir. Ah, deixa pra lá.
Voltou para escrever as ultimas linhas. O dedo indicador da mão direita respondia mal. Parecia fome. Comia algo com leite. E tentou escrever. O dedo indicador se mantinha encolhido assim como o dedo médio se encolhia teimoso que só. Ao passo de mais dez minutos a mão inteira estava paralisada. E era um destro. E só. Ficava por ali sem terminar o romance. Era preciso, a partir dali, fazer nascer a mão esquerda, ou os pés, ou a boca. E fingir que nunca houvera mão direita. O pior, dizia o boêmio, não era não poder escrever. O pior era ter que, pra sempre, apertar sempre com a mão esqueda.
Quem deseja bom apetite para quem vai escrever? Era coisa de escritor mesmo. Pareciam dois personagens dos filmes do Woody Allen, duas caricaturas dos intelectuais novaiorquinos excêntricos e covardes. Que ele tivesse um apetite enorme por boas palavras, inspiração e tudo o mais do mais. Mas que escritor vai ter boas palavras se ele apenas vive de romances encoxados de mel? As palavras boas estão pelas ruas. E o escritor que vos escreve mal sai do casulo. O Rubem Fonseca, por exemplo, é um enjaulado tinhoso que não suporta sair por ai a toa para ser visto. Mas já viu bastante para uma vasta obra policial. Não precisa nem escrever mais. Quanto mais sair pra ver a vida. Por tanto e tudo, resolvi perambular antes da primeira palavra do último capítulo da derradeira história que me daria talvez o ouro da literatura. Daria o reconhecimento de fãs, os três devotos leitores que, sabe-se lá porquê, continuam lendo persistentemente. E com uma câmera na mão o matuto tirou fotos e deu esmola, molhou e foi molhado, trabalhou e foi muito bem trabalhado. Viu o deficiente mijando em si, arrastando o cotoco pelo chão do trem choroso. Viu a criança engraxando sapatos na frente da rodoviária, tão novo e inocente que ainda sabia sorrir. Ah, deixa pra lá.
Voltou para escrever as ultimas linhas. O dedo indicador da mão direita respondia mal. Parecia fome. Comia algo com leite. E tentou escrever. O dedo indicador se mantinha encolhido assim como o dedo médio se encolhia teimoso que só. Ao passo de mais dez minutos a mão inteira estava paralisada. E era um destro. E só. Ficava por ali sem terminar o romance. Era preciso, a partir dali, fazer nascer a mão esquerda, ou os pés, ou a boca. E fingir que nunca houvera mão direita. O pior, dizia o boêmio, não era não poder escrever. O pior era ter que, pra sempre, apertar sempre com a mão esqueda.
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