segunda-feira, dezembro 13, 2010

O homem de lata

L. Frank Baum no início do século XX criou uma lenda de uma menina dos sapatos de prata, um mágico mentiroso, leão sem coragem, espantalho sem cérebro e um outro cara lá. Esse cara de lá foi o que fez barulho quando eu já acordava para não fazer nada, num dia de São Nada de tardezinha. Pedia ajuda. Eram umas três da tarde e o sol testava a resistência dos meninos que corriam atrás de uma bola ali na praça. Fui apertar a mão do homem e me queimei. Era lata. E era lata quente.
A primeira coisa que o homem pediu foi outra lata. Achei irônico. Mas era lacônico. Nada de café, chá ou água. Queria uma latinha de óleo. Já lubrificado e ludibriado o homem disse a que veio. Contou que ouvira falar bem dos meus conselhos. O desacreditei mas ouvi com afinco o que ele teria de ruim na vida. O homem enlatado foi sutil e óbvio:
- Eu quero um coração.
Eu não sou mágico como no conto original e não sei dar um coração. Nem sou médico para transplantá-lo um coração.
- Homem de lata, como posso te ajudar?
- Voce escreve. Me dá um coração. Acho que sou uma boa história.
Eu olhei por três vezes, mudei a direção dos olhos para o chão. Perdi em pensamentos. Perdi as contas de quantas vezes nada veio. Afinal, vos lembro que era dia de São Nada. Até que...
- Porque um coração? Porque não um cachorro, um livro, um reduto de óleo ou a própria paz? Porque um coração?
- Porque eu quero ter sentimentos como os que você descreve.
- Desculpe, não posso ajudá-lo.
O homem de lata não insistiu. Nada contra as latas. Nada contra os homens. O homem de lata só quer um coração porque não sabe o que uma mulher é capaz de fazer com ele.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Os médicos também choram

Diziam que ele teria uma filha. Ele queria dois meninos. E os queria espertos e rubro-negros. Que gostassem de praia e da noite e de carros e de sinuca. Brincava. Sabia que teria uma menina. Nos registros do destino constava no parágrafo décimo nono que ele teria uma filha e choraria por dois motivos e ao mesmo tempo.
Elias conheceu Roberto num churrasco com os amigos. Roberto conhecia Catarina que conhecia Amanda que era irmã de Josias que era companheiro de trabalho de Linda. Em uma festa de reveillon Elias convidou Roberto que já namorava Catarina que, por sua vez, chamou os irmãos e os amigos. Na terceira queima de fogos Linda já brindava com Elias. Perde a graça se eu apenas citar como tudo foi? Poderia dizer que trocaram telefones, encontraram-se em outras duas oportunidades em festas com amigos, em uma semana estavam com os lábios grudados numa sala de cinema, em dois meses planejavam o próximo ano e em quatro meses planejavam a lua de mel. Mas eu direi que em oito meses moravam juntos. Ele de Áries e ela de Mesquita. Sonhavam com o Rock In Rio e com uma casa de praia. Contentaram-se com um conjugado na Glória. Pelo menos por enquanto. O conjugado era pequeno e o amor era enorme.
Ao receber a notícia Elias chorou. E quando terminou a notícia Elias chorou mais. Passaram-se sete meses do dia que ele quebrou a mesa muito sem querer pra comemorar a gravidez da esposa. Linda ficava cada vez mais bonita. Combinavam que o nome seria Arthur se menino ou Elizabeth se menina. Meu caros leitores, deveria ser menina. Deveria ser.
Linda perguntou ao médico se Elias estava calmo. Perguntou se eles dariam bons pais. O médico respondeu que sim, apreensivo. A pressão arterial aumentou assustadoramente. Houve convulsão. O cirurgião fez teste com a urina dela. Foi notada a presença de proteína na urina. A maioria dos médicos não choram. Este chorou. Enfermeiros choraram. O nome é eclampsia. Linda, em coma, sobreviveria se Elizabeth morresse. Era dezembro, dia 29. O Rio de Janeiro não lembrava nem de longe a alcunha de cidade maravilhosa. Perguntavam nas comunidades da internet onde estava o sol. Nem a maré na praia do leme começou a subir lás pras dezoito horas. Os pescadores achavam o dia meio estranho. Os taxistas, gaiatos, pareciam calados demais. Nem parecia verão. Anunciava um temporal. E continuava o 29 de dezembro. Elias tinha apenas 19 anos.
Pediu por sol, pediu por fogos no Reveillon e no amanhecer do novo ano pediu por ela. Pediu pela vida gritando de frente pro mar de copacabana, com lágrimas escorrendo até o queixo. Pediu um sinal. Uma folha seca em forma de coração bateu com o vento no peito de Elias. Consultou os mesmos registros do destino e começou a acreditar em anjos.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Segundo Camões, a língua dos anjos

E veio com a ponta dos dedos tocando minhas costas. Eu precisava. E era das melhores. Enquanto uns e outros cismam que massagear é apertar eu não diria que boas palavras massageiam a alma, certo? Errado. Até violência massageia a alma. Inferno gostoso. Dor prazerosa. E as pontas dos dedos mesmo assim faziam circular o sangue, diminuia a tensão dos ombros, aumentava o tesão entre as pernas. Nos viramos e a massagem que era da ponta dos dedos foi para a boca. E ninguém diria que um não sabia o nome do outro. Os lábios dela beijavam a curva do musculo da minha coxa. Os dedos corriam atrás dos meus joelhos, subindo. E eu ainda tive a cara de pau de dizer que eram cócegas. Não vou esquentar mais o assunto porque o Rio de Janeiro já ferve demais e eu, meus amigos, não quero ser responsável por incêndios em bairros nobres da cidade como o das recadatas da Pavuna, dos reclusos da Penha, da sonhadora de Anchieta e do ruim de bola de Jacarepaguá.
Hoje chamam de "vibe" a onda boa que vem do lado de dentro da cama. Eu chamo de romantismo, curtição, sei lá. Sei que é bom. O efeito, dizem os especialistas, é como o de uma droga. Eu sou altamente dependente, confesso. Só que essa droga era protagonista e antagonista ao mesmo tempo. Era o controverso dotado de chuva que não inunda, sujeira que não imunda. Não é machismo meu querer ser forte e rei. E não seria ousadia dela querer ser altiva e rainha. Eu a fazia rainha do meu reino, sempre. Fazia mas confesso meus defeitos. Só que ela não me fazia ser me tronar como rei. A coroa da moeda era cara. O coroa era novo demais. A coroa não tinha ouro, tinha espinhos nada afiados que desafiavam o que eu queria: você, ela, no caso.
Eu corria e ela andava. Eu chorava e ela se ria. Eu cantava e ela ignorava. Mas nada com vontade de desagrado. Era dela. Era ela. Só que, se sou dois ou três centímetros mais alto ela queria me diminuir. Não era por mal, eu até sei. Mas não era por bem. Eu falava sem concordância e ela gargalhava. Eu comia sem classe e ela adorava. Ela não gostava de rir. Gostava de ser superior. Detestava meu jeito caipira mas era apaixonada pela minha sinceridade e até sabedoria de interior. Até que o moço, bom sujeito não deve ser, cantou e encantou. Eu brigava. Não sou possessivo, sou ciumento. E ela passou a querer requeijão ao invés da minha mão; passou a querer noite na boate ao invés de passeio de caiaque; passou a querer cinco cavalheiros ao invés do meu saveiro. E ela era da pós-graduação, dos filmes de alemão, de ler Veredas do Sertão e de comer comida japonesa com a mão. Sei não. Parecia maior que eu. E não eram centímetros. Mas eu sabia amar. Ela teve que escolher entre a Avenida Paulista ou a viela Passa Quatro.
De que adianta falar tantos idiomas se não consegue falar a mais bela das línguas? De que adianta falar inglês, alemão, sueco, polonês e mandarim se a língua dos anjos, segundo Camões, ou a língua do amor ela não sabe falar? Me responda, um dia, com a ponta dos dedos.

terça-feira, novembro 23, 2010

Na falta de inimigos

Preparou o café da manhã com ovos, pães, queijos e iogurtes. Não estava feliz. Queria estar. Não estava. Se fez parecer, se fez querer e permitiu-se. Sorriso tão gostoso que ao abrir a janela do quarto o dia nublado deixou o sol sair tímido assim mesmo. Chegou com sol próprio no quarto, fez claridade. Acordou o esposo.

- Saia daqui. Não quero acordar cedo. E não to com fome.

No dia seguinte, tentou um almoço especial. Nova negativa.

Três dias depois mais uma vez. Os dias já já estavam nublados, os arrastões nas vias do Rio, as promoções de fim de ano nas vitrines dos shoppings. Um ingresso para o jogo do Fluminense, o quase campeão. Ficou bravo.

A partir daí, silêncio total. E mesmo assim o homem brigava. Se havia almoço, reclamava. Se não havia, esperneava.

Até o porteiro se surpreendeu quando saíram juntos. Foram a um encontro com amigos. Na primeira conversa sobre asneiras do mundo, o casal discordou em ponto de vista. Ele irritou-se e brigaram. A noite da rotina voltou.

Ela combinou consigo mesma três chances. A primeira, foi clara e honesta. Abriu o jogo. Ele ignorou. A segunda chance foi tentar entendê-lo. Escreveu uma carta. Passaram-se três dias e ele não leu. A terceira foi a insinuação. Insinuou-se com o corpo, com a linjerie e com o ciúme. Escreveu de batom na parade do quarto.

- Na falta de inimigos, não brigue comigo.

Já era tarde demais. Um homem perde a paciência toda hora. Uma mulher sempre perde a paciência mais definitivamente.

Correu a esperar o ignorante sair. Ele foi ao bar e encontrou os amigos. Dez minutos depois saiu com apenas um. Esse um parecia ter uns quinze anos. Pararam em uma farmácia. Ela corria pelas sombras. Chorava por dentro. Pegaram um táxi. Ela chamou um rapidamente. O bairro da Penha acompanhava do alto das suas vilas e cruzeiros. Baixaram numa casa pequena. Ela esperou dentro do táxi. Em mais três minutos saíram com um Ford Fiesta cinza. Ela pediu para segui-los. Entraram em um motel. Ela abriu a porta do carro e, completamente acabada, danou a chorar. Fez cara de cebola. Enquanto o marido entrara com um homem num motel os passantes não se cansavam de chamá-la de deliciosa.

E era um desperdício. Pelo menos até aquele dia.

sábado, novembro 20, 2010

Juventude literalmente transviada

Quem vai do quente pro frio morre de choque térmico. Se vai do breu pra claridade, cego temporário fica. Emenda um namoro no outro, insucesso. Vai do ódio pro carinho, falsidade. Vai do Rio de Janeiro para Nova Orleans, teletransporte. E eu falo dessas mudanças rápidas, sem pensar, sem movimento. Os olhos nem piscam. A retina mal retém. Nada entretem.
Bem me lembro dos filmes de ficção científica. Da gravidade zero para um ambiente de gravidade normal era preciso passar por uma câmara intermediária. No submarino, amarelo ou não, do fundo do mar para o interior do equipamento era preciso uma câmara intermediária para que os mergulhadores passassem para que a água nao invadisse tudo e para que a pressão se mantivesse nivelada. Para quase tudo precisamos de uma área de transferência, um cômodo de transfusão, uma sala de espera.
Por mudanças tão bruscas eu tenho medo. Das duas, uma. Ou eu dormi no ponto de ônibus e não reparei os indícios do que estava por vir ou é pra ser assim mesmo numa mudança repentina e assustadora.
Eu confesso que não vi a hora que trocaram Lula por Dilma, a nova esperança. Ela que era andróide feia e passou a ser "mãe" simpática. Não vi a hora que passou a ser normal mulheres beijarem mulheres; homens de roupas coloridas e muito mais sensíveis que as meninas; ter quinze anos e escrever biografia; crianças de cinco anos sendo apresentadoras de TV; heróis do rock nacional se parecendo com o padeiro do bairro; olimpíada ser no Brasil; Estados Unidos jogando bem futebol; as notícias mais importantes do mundo saindo de um microblog; ser famoso sendo requisito básico para ser postulante a qualquer cargo político; É o Tchan, Cia do Pagode, Beto Barbosa, Grupo Molejo e tantos outros tornando-se clássicos;
De todas a que mais me impressiona é a moda jovem de ser livre. Jovem sempre foi rebelde. E abusado. Abusaram da rebeldia. Transformaram a juventude transviada em juventude viada. O que querem, ninguém sabe. É como a tão batida comédia de situação. O rapaz está parado, pensativo. Chega uma mulher de tirar o fôlego e o convida bem selvagem pra irem pro motel. O cara, assustado, pergunta se não tem como ela pelo menos pagar o café, conversarem algo, fazer um carinho antes da violência sexual. É, meu amigo, são os novos tempos para os velhos de vinte e poucos anos de uma juventude literalmente transviada.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Céu bastardo do Méier

Detestava perder o controle. Não só da TV mas do DVD, do computador e até de mim mesmo. Bebia da forma que chamam hoje em dia de socialmente. O que, pra mim, é beber passarinhando, dando bicadinha pra não morrer de sede. Não sou de dar bicadinha. Eu bebo pra valer, como pra valer, faço pra valer. Com controle, claro. Eu e Quitéria havíamos brigado. Foi semelhante à falta não intencional. Dei carrinho no jogador sem querer. No futebol tropecei e dei uma pernada na perna do cara. Em casa saí deixando um recado num pedaço de papel avisando que ia pro futebol.
A crônica, meus amigos, é cruel. Foi Nelson Rodrigues que fez a brisa derrubar da mesinha de centro o bilhete que deixei. Quitéria, como boa espécie de mulher teimosa e intolerante, quis dar o troco pra quem só tinha dinheiro inteiro. Ligou para duas amigas e resolveu sair sem avisar. Bar do Espuma. É lá que ferve e borbulham os anjos nada pecadores do céu bastardo do Méier. Eu sei disso porque sempre foi lá que ela quis ir e não tinha oportunidade. Tomei duas doses e meia de Whisky, um trago de um cigarro vagabundo e à varejo do bar da esquina, pus os documentos no bolso direito da calça, arrumei o penúltimo botão da blusa, o perfume CK e, aí sim, fui.
Os homens nunca estão preparados para enfrentar seus penhascos. Uns são mais assustadores quando vistos de perto. O Bar do Espuma era ali pra perto do Engenho de Dentro, mais pra lá da Abolição. Não pensei que caberia tanta gente. E eu acharia Quitéria. Dançava com as amigas. Demorei uns três minutos até encontrá-la. Outros dois minutos até conseguir me aproximar tamanha a muvuca. Nesses dois minutos um homem chegou ao ouvido dela. Em dez minutos estávamos à porta do meu fiat Uno preto. Fazia tempo que não fazíamos em um estacionamento. Sei que os meus leitores famintos e famigerados bem sabem o que fizemos no estacionamento. Dali era ir pra qualquer outro lugar. A areia da praia à noite é como gelo seco e inofensivo. Por lá que pararíamos.

O policial queria o teste do bafômetro. Minhas duas doses eram percebidas a três kilômetros de distância. Com o aparelho na minha mão ela me interrompeu. Quis dar um beijo logo naquela hora. Depois do beijo susurrou que era pra dar sorte. Antes do beijo fez aquela cara de pecadora que me faz perder o sentido. No meio do beijo movimentou a língua tanto que me fez perceber o lance. Fiz o teste. Nenhum álcool percebido. Bafômetro zerado mesmo depois de tantas doses. O policial nos liberou e saímos. Demos mais um beijo e, aí sim, devolvi o melhor beijo dos últimos tempos com a bala de Halls da cor preta que ela havia me passado no beijo da sorte. A bala anulou o efeito do que já bebi. Linha Amarela estava descolorida, Avenida Ayrton Senna desacelerada e por aí vai, ou foi. A areia gelada de Grumari foi testemunha do crime que foi ter amanhecido depois de uma longa noite.

Eu não sou fofo

Primeiro,
Não sou gordo, nem gordinho.
Sou sarado como o Faustão
Nem tenho dois ou três anos de idade
Como o fofinho do filho
Da prima do seu irmão.

Segundo,
Não sou de amorzinhos
Nem de cartas, nem de flores.
Recebo cartas para pagar contas
E das rosas vermelhas
Uso as pétalas sem pudores.

E, por fim
Fofo é o trouxa
É a bochecha do menino
O bobo do teu marido
O corno do teu inofensivo
Melhor amigo.

Não sou fofo
Só gosto de vestir
essa fantasia primeiro.
Pra depois tirá-la
Peça por peça
Porque fofo safado, dizem,
É bom à beça!

terça-feira, novembro 02, 2010

Luizinha e o menino falador

Eu era quietinha. Me preparava muito para responder a chamada na sala de aula. Tossia o "presente" depois de ouvir meu nome. Luiza Maria. Já depois era quase uma sinfonia. O Miguel era popular. E eu só uma menininha. Miguel era falador e eu pequenininha.

- A luizinha parece espinha na ponta do nariz. Prefiro minha bola de futebol.

Subi a estradinha de terra ainda meio úmida depois da última chuva feito um raio. Não queria chorar pra ninguém. Fui pro espelho ver se eu tinha alguma espinha. Juro que não tinha.

- Mãe, ele disse que pareço uma espinha. E as espinhas são muito feias.

No dia seguinte, realmente apareceu a dita. Dei um grito de assustar. A mãe achou que eu tinha me machucado, caido da cama, torcido o pé. Antes fosse. Tinha um vulcão na ponta do meu nariz. Era verde. Era extraterrestre.

- Mãe, Miguel tem razão. Eu sou uma espinha.
- Luizinha, ela vai sumir. Você é linda. E ele vai ver que você é linda.

Então eu fingi que estava doente e fiquei em casa três longos dias. Fiquei lendo as revistas da minha mãe. Fiquei vendo no orkut o que o Miguel gosta. Não achei nada. Mas queria ficar linda.
Pedi dinheiro ao papai pra uma missão muito importante. A palavra "missão" animava meu pai, policial dos médios. Fui com a Tatá na loja de meninas. Compramos de tudo. Tatá era mais velha e conseguiu comprar até sutiã com enchimento.

- Quem é essa menina?
Os amigos dele também queriam saber. Todo mundo queria saber. A lanchonete parou. A bola de futebol rolou para o cantinho da calçada, esquecida e murcha. Um menino até deixou o sorvete cair no chão de tão distraído.

Miguel começou a olhar e até queria falar com a menina linda. Mas a menina linda era eu. E quando Miguel veio falar comigo eu disfarcei, fiz que não era comigo.

- Qual o seu nome? Você é nova aqui? Mas você é tão linda!
Eu queria sair correndo de tanta vergonha. Mas eu lembrei de quando ele me falou aquilo e continuei.
- Obrigada. Você que não é. Parece um machucado que demora a sarar.

O gato comeu a língua do menino falador. Nem espinha, nem machucado. O cravo perdeu a rosa.

Luizinha e o professor de literatura

Mas me chamavam mesmo era de Mônica, da Turma da da Mônica. Usava quase sempre um vestidinho rosa com os cabelos revoltados e presos por um rabinho de cavalo. Era a cara da mamãe com as bochechas do papai. Oito anos de idade.
Meu primeiro amor foi um homem de óculos com armação preta, sem barba nenhuma, sorriso branco e fácil. Me deu um livrinho de poesias do Carlos Drummond no meu aniversário de nove anos. Eu escrevia uma poesia por dia. Todas pra ele.
Combinei fazer uma surpresa no dia 13 de dezembro. Com custo descobri que era aniversário dele. Juntei o dinheiro que mamãe me dava para comer no colégio. Nada de recreio. Acordei cedo e ansiosa. Estudava à tarde. Nove da manhã e lá estava eu acordando minha prima. Ela me maqueou, arrumou minha roupa e me ajudou comprar uma camisa xadrez de tom amarelado. Cheguei exatamente às 13:27 horas na porta do colégio. Testei o perfume no nariz, passei a mão pelo cabelo e entrei. As aulas começavam em mais vinte minutos. Passei um corredor, o pátio meio deserto, mais dois corredores pequenos até chegar a última sala do bloco B. Abri a porta bem devagar. Tremia tanto que quase fiz terremoto na cidade inteira. Fazia respiração de cachorrinho pra controlar os batimentos. Aprendi na TV. Quando entrei na sala dei de frente com o meu professor de literatura beijando uma mulher mais alta que eu, mais bonita que eu e mais velha que eu. A tremedeira parou de súbito. A caixa de presente caiu. Sai correndo não sei nem pra onde. Só sei que parei num cantinho escuro, pus a cabeça entre os joelhos e quis sumir de todo mundo.
Foi meu primeiro choro de amor. O mais dolorido. Mesmo porque doía tanto que eu não sabia o que era. Nem o que era amor.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Puxa-me pela gravata

Tenha gravada na memória o dia que fui servo e não tirano. E vai tirando o pudor da sua boca. Desbocada é bem melhor. Mas só entre quatro paredes.
Das coisas que gosto é ter que sair a rua. Eu transpiro feito eles, animais. E, pior ainda, é ter que assim mesmo abraçar outros mais suados que eu. Eu pelo menos transpiro perfumado. Eles transpiram odor de fossa. Os meses de setembro e outubro são torturantes. Pedir voto é assim. E ainda dizem que é fácil. Ter que comer pastel, bolinho de batata, aipim, beber capirinha, cachacinha, isso tudo não é fácil. Não é fácil mentir, prometer, enrolar na resposta sobre promessas não cumpridas e me fazer como se fosse um deles.
Não sou das sacanagens nem das safadezas. Sou de palavra e de família. Uma palavra aqui, outra ali. Uma família aqui, outra ali. E o que que tem um caso aqui e outro ali? Deu no jornal que fiz sexo com a secretária no meu gabinete. Mas eu não tive culpa. Ela que pediu emprego pro namorado. Eu só falei que ofereceria uma oportunidade pro rapaz se ela puxasse a minha gravata. Ao jornal eu neguei. Afinal, foi na sala de reuniões e não no gabinete. Esses jornalistas...

terça-feira, outubro 19, 2010

Mulher de vinte e cinco

Só queria perguntar a idade. Apostava consigo que ela tinha vinte, no máximo. Foi ao encontro dela. Driblou dois, passou no meio da dança do terceiro e no quarto tropeçou bem de leve. Nada demais. Cutucou-a no ombro esquerdo, aproximou do ouvido pra que ela pudesse ouvir no meio do turbilhão. Antes disso lhes conto o início. Ele nunca saía pra boates. Só não gostava. Não bebia, fumava ou dançava. Era meio fofinho. Esquece, era acima do peso, gordo, referência pra quem vê e gigante pra quem abraça. Exagero, era um gordo quase magro, um esbelto quase obeso. Seu sorriso era um cartão de visitas, um samba-enredo com direito a nota dez. Por promessa, saiu com os amigos.
Foram para Juiz de Fora. Apenas três horas e meia de carro pela estrada. A contragosto entrou na boate. Bebeu uma caipirinha. Pensava que não poderia ser brasileiro sem ter provado ao menos uma caipirinha. O covarde virou corajoso, o tímido virou dançarino e o recatado virou conquistador. E voltamos, então, ao ouvido da menina.
Passaram-se algumas idas, algum desdém, algumas mexidas no cabelo, alguns olhares e algumas boas tiradas. Beijaram-se, trocaram MSN e sumiram. Acordou em casa, sozinho e com sensação de que tudo não passara de sonho. Mas não passara. Uma semana inteira de conversas pelo computador. O que era respondido com olhares e em, no mínimo 24 horas, é respondido já pela internet. O blog declara, o facebook divulga e encontra, o picasa mostra e o MSN permite. As conversas sobre a família, os medos quando criança, o prato preferido, a música que toca e o ex-namorados que passaram bem são coisas preenchidas pelo virtual. E nessa semana inteira conversaram e se apaixonaram assim mesmo pelas 18" daquela tela. É mais fácil ser verdadeiro por ali.
Dessa vez pegou um ônibus na sexta-feira a noite. Chegando em Juiz de Fora ela o recebera naquela rodoviária pequena e fria. O abraço e beijo mais quentes. Tiveram a primeira noite. Nada de errado. A semana inteira de conversa pela internet preenchia o espaço equivalente aos meses que os casais se conheciam. Os e-mails diários confidenciavam os sonhos. Uma distancia facilmente derretida. Um chocolate em cima do corpo, como molde de um sorvete a ser mordido.
Ele escondeu-se atrás da porta do quarto. Chegou sem avisar. Telefonou para o celular dela assim que percebeu que ela havia entrado na casa. Pediu pra que fosse ao quarto. Quando ela entrou a imagem dele em tempo real era transmitida para um monitor de 40" enfeitado com corações. Na tela ele a pedia em casamento. Pediu pra que ela se virasse para que o beijo fosse de verdade. Nada mais perfeito que um pedido virtual e um desejo real. Os cantinhos não são tão mais frios e distantes. Permaneceram conectados com esse péssimo trocadilho vivendo, como diria Cazuza, o bom do amor seja de mãos dadas ou clicando por aí. Ah, e ele perdeu a aposta. Ela tinha vinte e cinco anos. Mas nem parecia.

quarta-feira, outubro 06, 2010

Pior um carinho na mão que dois voando

O carinho vem sempre de quem não se espera tanto. Se quer encostar no cantinho verde de tinta, a mesma está pra lá de passada e nem faz sombra. Encosta no verde que vira amarelo. Poe a pontinha do dedo no azul que fica rosa. Nem viva esperando que preencham seus balões daqueles desenhos de colorir da época de escola porque vão rabiscar, despentear, amarrotar mas nunca, sinceramente, será colorido como você deseja. Não há o que se fazer para o descolorir. Aconselho que tu sejas homem de recusar carinho de quem não deseja. Não existe a máxima de que um carinho na mão é melhor que dois voando. Deixe os dois voando. Primeiro porque a fidelidade ao que se sente é uma dignidade dos grandes heróis. Também pudera, aceite carinho de quem não é o seu sonho e durmirá mal por tanto tempo que seja. Se não o carinho de quem se quer, nada feito.