domingo, maio 28, 2017
domingo, outubro 16, 2016
Novo livro será lançado ainda em 2016
Tem livro novo chegando como quem não quer nada mas com narrativas impressionantes. Pelo menos pra mim, claro. Tratam a Baixada Fluminense, as relações humanas trazendo aquele tempero regional.
Quem tiver interesse pode gritar nas redes. Como bem diz a letra da famosa música, "é um silêncio que precede o esporro".
Quem tiver interesse pode gritar nas redes. Como bem diz a letra da famosa música, "é um silêncio que precede o esporro".
quarta-feira, maio 27, 2015
UM MURO DE BERLIM (CRÔNICA)
Põe o som suave da gaita de afinação em dó para início de conversa e para que não se altere na leitura. Não imagino que exista um instituto de pesquisa que tenha contabilizado quantas paredes temos na cidade mas sei muito bem afirmar que há mais concreto que gente. Sabe a encardida expressão "selva de pedra"? A conta é bem fácil de ser feita. Paredes são frias. Paredes nos fecham, separam, protegem, isolam, aquietam, secam, silenciam. As pessoas, bem, sabemos como são. Não é desacordo entre temperatura e substância. Acredito que já somos mais concretos que carne, mais reboco que pele, mais cores sóbrias que bronzeado. O ambiente faz o homem. Olhe em volta, por exemplo, bem no centro do Rio de Janeiro: somos mais sombras que plano aberto. Somos mais closes que aéreos.
Outro dia li que no mato existem olhos enquanto nas paredes existem ouvidos. Para um homem de má audição como eu a roça é sugestiva. Venho preferindo trocar paredes por cercas, grades por alguns adidos. Há um muro de Berlim dentro de casa, dentro do condomínio, na sala, na varanda deserta. Um muro de Berlim dentro de mim. É assim que atravesso a cidade todos os dias para trabalhar. É assim que os trajetos são formados. É ainda pior que sejam poucas as interações prazerosas. São oito horas por dia com pessoas por obrigação. Mas você diz que é por isso que não fala com ninguém do seu prédio. Prédios são casas amontoadas. Curiosamente nos prédios as pessoas são menos amigas das outras que nas casas. O fator rua é preponderante para o bom convívio. Como bem brada o Sarau Rua, dos talentosos Victor Escobar e Guarnier, da cidade de Nilópolis, o amor que a rua dá só quem vive a rua sente. Não à toa o profeta Gentileza escolheu pilastras da Perimetral, no Rio, para comunicar a sua.
Esqueça o Muro das lamentações, a Grande Muralha da China e as Muralhas de Constantinopla - ou Istambul. O cinza da cidade precisa ser um pouco mais colorido. Não adianta nada reclamar da falta de "bom dia" do patrão se nunca houve o seu "bom dia" para a faxineira. Isso no ponto de ônibus, na fila da lanchonete, ao atravessar a rua, na aguardo da senha. Que as mesmas pessoas que são condescendentes com a longa espera na fila do Outback sejam igualmente pacientes em outros momentos da vida. Já ajuda bastante. Fim do solo da gaita.
sexta-feira, fevereiro 13, 2015
Crônica da Polêmica do Dia
Por excesso de prazeres que a vida nos fornece parece - me perdoe se for uma ignorância generalizada - parece que caçamos a confusão, o destrutivo. Certamente há de se citar os amantes da vida, os apaixonados pelos sorrisos e impacientes para a falta de amenidades. São, digamos, minoria. De tanto, o resto anda escrevendo uma história ruim.
Os psicólogos talvez possam explicar melhor que eu. A sensação é de que perguntamos a Deus - sempre Ele - qual a polêmica do dia. Tanto na esfera pública quanto privada, com metáfora e tudo. Contando um ano inteiro temos poucos feriados para enforcar a falta de polêmica. Pela manhã já debatemos o acidente de trem, o doping de um antigo exemplo, a demissão, um crime hediondo numa cidade do interior do Pará, a atitude de um vizinho, a fala preconceituosa do deputado. Repare só.
A fama se dá pelo assassinato na novela e não pela cena feliz. Outro dia vi uma menina vendo um álbum virtual de fotos de casamento de uma pessoa que ela insistia chamar de amiga. Buscava a polêmica debaixo dos panos. Não esteve contente com a felicidade alheia. Achou ex-namorado, vestido furado e por aí vai. E logo passa. No silêncio a pergunta mais sincera seria "De que falaremos mal agora?".
A melhor festa do mundo começou. O carnaval nos permite felicidade em meio a polêmicas. Ou não sei. Já vi carnavais melhores e não são palavras de um saudosista assumido e remediado. O famoso bloco carioca Bangalafumenga anunciou o cancelamento do seu desfile duas semanas antes do carnaval justificando a falta de educação dos foliões que fazem suas necessidades pelas ruas. Uma semana depois confirmou o desfile com patrocínio pomposo - possivelmente bem remunerado. E o motivo? Era apenas mais uma polêmica para chamar atenção.
Por amenidades, humanidades e umas sacanagens parece que precisamos deixar de lado a afeição por polêmicas. Sem polêmicas. Deixe que digam, que falem, deixa isso pra lá...
Os psicólogos talvez possam explicar melhor que eu. A sensação é de que perguntamos a Deus - sempre Ele - qual a polêmica do dia. Tanto na esfera pública quanto privada, com metáfora e tudo. Contando um ano inteiro temos poucos feriados para enforcar a falta de polêmica. Pela manhã já debatemos o acidente de trem, o doping de um antigo exemplo, a demissão, um crime hediondo numa cidade do interior do Pará, a atitude de um vizinho, a fala preconceituosa do deputado. Repare só.
A fama se dá pelo assassinato na novela e não pela cena feliz. Outro dia vi uma menina vendo um álbum virtual de fotos de casamento de uma pessoa que ela insistia chamar de amiga. Buscava a polêmica debaixo dos panos. Não esteve contente com a felicidade alheia. Achou ex-namorado, vestido furado e por aí vai. E logo passa. No silêncio a pergunta mais sincera seria "De que falaremos mal agora?".
A melhor festa do mundo começou. O carnaval nos permite felicidade em meio a polêmicas. Ou não sei. Já vi carnavais melhores e não são palavras de um saudosista assumido e remediado. O famoso bloco carioca Bangalafumenga anunciou o cancelamento do seu desfile duas semanas antes do carnaval justificando a falta de educação dos foliões que fazem suas necessidades pelas ruas. Uma semana depois confirmou o desfile com patrocínio pomposo - possivelmente bem remunerado. E o motivo? Era apenas mais uma polêmica para chamar atenção.
Por amenidades, humanidades e umas sacanagens parece que precisamos deixar de lado a afeição por polêmicas. Sem polêmicas. Deixe que digam, que falem, deixa isso pra lá...
quarta-feira, agosto 13, 2014
CONTO DO RIO PÉRFIDO - CAPÍTULO IV
Deu de cara com gigantescas estruturas de concreto. Ou
melhor, pedra-sabão. Era para ter
amanhecido não fosse a neblina voltando a perturbar os ares da cidade como se
estivesse em no meio do meio da Amazônia. Logo decretou: Cristo! José Patrício
deu de cara com a cabeça do Cristo Redentor meio enterrado entre árvores,
separado do restante da estátua. O cenário estava totalmente macabro. O rapaz
não reagiu. Desaforou o que via e seguiu a descida pela encosta.
A televisão mostrava ao vivo o tempo branco. As câmeras não
pegavam nada além de dois metros de distância. O fato obrigava cada repórter de
cada transmissão utilizar a sua criatividade de falar sobre o invisível,
dissertar sobre o nada. O fato era histórico. As fontes, não. Não havia
informações. Em seus estúdios, debatedores e especialistas criavam a cobertura
branca na imprensa marrom. Um fabricante de colorantes chegou a ser
entrevistado.
Nas ruas de quase toda a cidade extremistas atacavam os
alarmistas. Radicais atacavam os equilibrados. A guerra iniciou e já não era mais
santa. Recortes do que era discutido em meio a violência indicavam que uns
agiam a mando do todo poderoso, outros se intitulavam serem o próprio, clonado
em cada esquina e sem certificação. Outros estavam revoltosos com todo o
radicalismo e também respondiam. Exércitos do bem fazendo o mal. Cidadãos
comuns defendiam a própria vida e de seus familiares. Bandidos aproveitaram a
situação para efetuarem saques em instituições. Casas foram invadidas. A morte
era real. Por sobrevivência inocentes fugiam para os locais mais altos:
prédios, favelas e florestas. Ironicamente o Corcovado era um lugar seguro.
- Eu não quero saber daquele velho.
José Patrício conversava sozinho. Reclamava sozinho. Um
macaco-prego e dois sabiás ouviam atentamente. Talvez pensasse que reclamava
com a própria incoerência. Não sabia para qual lado haveria alguém ou alguma
trilha para saída. Mal sabia que o sopé da floresta estava bem distante. Estava
exausto e com um ferimento cada vez mais doloroso no joelho esquerdo. Bebia a
água das poças do chão. Chegou a mastigar algumas folhas de araribá e
pau-pereira. A alucinação causada pelas dores e pela fome era tanta que por
vezes via alguém vindo e sua direção bem distante no meio da imensidão
acinzentada. Arregalou os olhos. O corpo inteiro ficou paralisado. Duas horas
depois não era apenas uma alucinação.
- Moleque!
Bem ao fundo Morialdo surgiu arrastado por uma força
inacreditável. O velho sobreviveu. E José Patrício não tinha sequer dignidade
de inventar algo para falar. Não haveria desculpa ou perdão. O próprio ouvia
ecoar nos ouvidos a própria voz dizendo “Eu não vivi nada. Você já viveu tudo”.
O juizado final de alguém com dezoito anos. Como se sabe, depois dos vinte e
tantos anos nada é tão final assim.
- Ô Moleque. O que você fez foi muito errado.
O velho falava e suor frio descia pelas costas do rapaz. Não
há vergonha maior que o crime cobrado pelo exato vitimado. Frente a frente.
Cara a cara. Sem rodeios ou personagens. Ao moleque não era permitido rodear.
- Perdão. Por favor!
- Não corra mais por aí. Eu poderia ser seu avô. Agora, de
pé. Apresente-se. Como se chama?
O velho contou que deu uma leve cochilada. Mal sabia onde
estava e como havia parado ali. Imaginava ter sido algo muito improvável. Não
notava as feridas pelo corpo. O que sangrava ele ignorava. O que doía ele
chamava de besteira. Todo mundo pratica a falsa displicência. Morialdo
resmungou:
- Ainda diz que já vivi de tudo...
quarta-feira, agosto 06, 2014
CONTO DO RIO PÉRFIDO - CAPÍTULO III
Todos ainda comentavam sobre o Cristo Redentor e sua rendição
ao pé do Corcovado. A cidade inteira tomada por uma neblina praticamente
serrana. Se não bastasse o contexto ninguém teria realmente deixado passar
despercebido, sobretudo os cariocas, a previsão do tempo para este dia.
Principalmente, uma previsão certeira. Não apenas começou a chover. Ao cair da
tarde já começava o chuvisco. Lá pelas tantas da noite já alagava a cidade
inteira. Poças e correntezas pelas bandas da baixada fluminense e a tomada de
pessoas que antes ignoravam sua existência. Rios e riachos pelos lados do
Humaitá, pelos cantos da Rua das Laranjeiras, pelos meios do Alto da Boa Vista.
Dentro da gruta já se formava um grande aquário onde os únicos animais eram os
dois homens que já não se entendiam.
- Esse velho aqui não deve aguentar.
E Morialdo seguia falante. Cada vez mais necessitado de um
diálogo para preencher o silêncio e o medo. Cada vez mais cheio de conteúdos.
Citou até Nietzsche.
- Qual seu nome, rapaz?
O velho seguia suas perguntas. Essa deveria ser a pergunta de
número cento e quatorze. Isso considerando somente as sobre o nome do moleque
que já não respondia e até implorava para o Deus – que ele dizia não acreditar –
acabar com aquele mau agouro todo.
- Você está chateado comigo? Não te conheço.
José Patrício considerava Morialdo um companheiro de cela
irritante. A paciência com o esquecimento do velho havia acabado lá pelo meio
da tarde. Morialdo considerava José Patrício um novo neto a cada momento que o
conhecia pela primeira vez, um possível ajudante arremessado pro seu lado, um
braço forte que ele já não tinha. De um lado a suposição de esperança. De outro
lado a sugestão de um peso.
Quarenta e dois anos antes José Morialdo implicava consigo
mesmo. Pegava sempre um papel para espirrar ou tossir e acabava escrevendo. Não
dançava o rock. Não ouvia rádios. Não ia para lanchonetes. Sequer lia
clássicos. Sequer ia aos cinemas. Era apenas trabalhar e escrever. A redação do
jornal o considerava fanático. Não gostava. Considerava-se lunático. Santa
diferença. Os amigos diziam que pelo menos suas crônicas eram boas, muito boas.
Não era possível toda vez sonhar e ter que escrever. Dormia um papel em branco,
acordava assustado todo rabiscado em consciência, de ponta a ponta. Todas as noites.
Todos os sonos. Não era possível. Considerava coisa de doença.
- Escrever é uma maldição.
- Uai. É troça?
- Escrever dói. A cabeça nunca fica vazia. Escrevo para
despachar os pensamentos e parece que cada vez mais atolam, acumulam. Escrevo
mais. Escrevo mais e mais. E mais.
- Reclama de barriga cheia. Aliás, de cabeça cheia. Acaso
queria ser vazio? Pelo menos assim sustenta sua família, seus filhos e netos. Trabalha
esse trem por eles então.
O amigo do sotaque de um canto de Minas estava mais que
certo. Morialdo sabia e mirava as forças na família que crescia. Seus filhos
ainda crianças dariam netos e bisnetos. Sonhava que pelo menos o mais velho
fosse jogador ou médico. Ou médico de jogador.
- Melhor eu ir.
Despediu-se do mineiro. No meio da noite acordou assustado ao
lado da esposa. Não quis acordá-la. Iluminou o papel com seu candeeiro de mesa
e começou a escrever. Não sabia ainda se comédia ou tragédia. Era no Rio de
Janeiro de mais adiante.
Muitos moradores das zonas sul, norte e centro perpetuavam a
estadia em hotéis e motéis da Baixada Fluminense. Chovia mais pra perto do mar
que lá pra perto do pedágio da Dutra. A ironia era as empregadas hospedarem
suas patroas. Com o tempo até poderiam usar as patroas de empregadas e as
empregadas de patroas. Assim como os pedreiros com seus patrões, os motoristas
com seus chefes e as secretárias com suas gerentes. A Baixada é a nova Zona Sul
e a Zona Sul é a velha Baixada. Nesse quesito o velho e o novo fogem dos seus
sentidos. O velho e o novo. O antigo e o contemporâneo. Morialdo e José
Patrício.
- Quer saber de uma coisa? Eu detesto velhos. Todos os
velhos. Inclusive você. No ônibus cheio tenho que levantar pra dar lugar pra
velho. Vou ao banco e minha fila demora muito porque tem atendimento especial
pra velho. Vou ao supermercado e acontece a mesma coisa. Velhos são problemas.
Prefiro morrer cedo a ficar velho. Que você não aguente mesmo.
Uma dos lados da gruta arrebentou com a força da água.
Sobravam alguns metros ainda sem estarem submersos. Ambos em cima de uma rocha
de uns cinco metros de superfície. O nível da água subia com considerável
velocidade. Para frente e para os lados um lago escuro onde horas antes só
havia gruta. Para trás uma parede por onde escorria água.
- Faz alguma coisa, velho.
- Se está escorrendo água por essa parede imagino que exista
um buraco. Uma entrada de água. Uma saída pra nós.
Com a cabeça fez que concordou com o senhor. Certamente a
contragosto. A parede cedeu lentamente e ofereceu uma saída com uma correnteza
mais forte. Um buraco de um metro de diâmetro a cerca de cinco do nível onde
estava. Uma correnteza cada vez mais forte. Folhas, galhos e muita terra também
entravam na gruta por este local.
O combinado foi o moleque subir nas costas do velho e,
estando lá em cima, ajudar a puxar o velho para fora. O nível da água já cobria
até a metade do corpo deles e subia cada vez mais rapidamente. O velho agachou
levemente pressionando as costas contra a rocha abaixo da pequena cratera
aberta pra saída. José Patrício subiu pisando sobre o joelho e depois no ombro
de Morialdo. Esticou o que pôde e não conseguiu alcançar um modo de subir ainda
mais. O nível da água estava quase no pescoço do velho.
Mais um pouco e, enfim, conseguiu agarrar os dedos em um
galho sustentado por algo do lado de fora. Subiu um pouco. O velho já estava
com a água acima da cabeça. Insistia em pôr o rosto mais para fora da água.
Pedia ajuda. Implorava para que José Patrício o puxasse. Passava por sua cabeça
que não conseguiria se salvar se insistisse em puxar o velho.
- Velho?
- Me ajuda.
- Acha que já viveu de tudo nessa vida?
- Me puxa! Me puxa! Puxa!
- Responde!
- Acho que muito. Não tudo.
- Me desculpa. Eu não vivi nada. Você já viveu tudo. Não
consigo te puxar.
- Não me deixa aqui! Não me deixa aqui! Não!
O moleque tentou uma única vez. Deixou a mão de Morialdo
escorregar, virou-se sem resquícios de hesitação e saiu da gruta. Sem peso
algum. José Patrício sabia que o velho havia ficado sem chances.
A tempestade não dava trégua na Guanabara. O papel molhou com uma lágrima.
CONTO DO RIO PÉRFIDO - CAPÍTULO II
A queda se deu lá pelas treze horas de terça-feira, 29 de
Julho. O Cristo Redentor teria tombado para frente, beijando todo o maciço do
Corcovado em direção ao Humaitá, com sede de água do mar, como que se estivesse
com uma absurda vontade de saltar do caos de um trem Japeri lotado, de um metrô
da linha dois entupido. Mas o Redentor não frequenta a linha dois do metrô,
tampouco o ramal Japeri. O fato é que ele teria mergulhado ou apenas tentado
esconder o rosto. O pescador franzino da boca da Barra que comentava lá pelas
bandas dele. Ele realmente não viu, mas acredita-se que foi exatamente assim.
Não viu assim como quase todo mundo. A notícia da queda transpôs outra notícia
igualmente preocupante: entre os fins de julho e o início de agosto de 2014,
logo após a Copa, em uma ressaca descomunal a cidade do Rio de Janeiro passa os
dias e as noites tomada de um forte nevoeiro. Nada se vê na Guanabara.
Os pensamentos começaram a decantar no meio de um quase breu.
O menino localizava-se mais no tempo e do que no espaço. Talvez ajudasse a
entender onde estavam. Mas não sabiam da tal queda que o mundo inteiro
deliciava por debater. Um sadismo midiático. Um repórter chegou a lamentar não
poder entrevistar a estátua.
- Cristo Redentor! – exclamou Jose Patrício.
- Qual seu nome?
- Que saco, velho! Que saco!
Irritou-se com a repetição. Soltou um grito e palavrões aos
montes. Tudo isso de costas e em direção a uma grande parede de pedras. Tudo
isso até esgotar o excesso de raiva. José Patrício é do tipo que guarda mágoas
possivelmente por anos. Ou as mágoas dele são do tipo que o guardam por anos.
Respirou fundo, virou-se. O velho já se apressava em dizer que eles deveriam
sair dali. Apressou-se também em perguntar o nome do garoto.
- Estou irritado com o senhor, não vê?
- Vejo. Mas não sei o motivo. Vai se irritar sozinho ou quer
dividir comigo? Pelo que eu me recordo não fiz nada a você. Acabo de te ver aí
olhando pra parede, rapaz. Até achei coisa nova de adolescente. Sei lá. Só vim
te perguntar onde estamos e onde está Jorginho. Você conhece o Jorginho? Ele é
magro, alto, cabelos grisalhos, tem uma mancha no braço esquerdo, tem também...
- Qual o nome do senhor mesmo?
- Morialdo. José Morialdo.
- Seu Morialdo, sente alguma dor? Algum machucado?
O velho nada sentia. Nenhum arranhão. Nenhuma avaria. Lataria
intacta como se estivesse ainda em 1973. Não fossem os cabelos brancos ninguém
chamaria de velho. Aliás, a modernidade retrógrada da adolescência não permite
que não se chame um grisalho de velho. Mas, pera lá, um jovem com feridas
espalhadas pelo corpo e um velho sem lesões? José Patrício não quis alongar e
foi prático.
- Vamos procurar uma saída.
Imaginava-se o prefeito Eduardo Paes lançando desculpas ou
justificativas em diversos meios de comunicação. Imaginava-se o mesmo do
governador Sérgio Cabral. Esse Rio de Janeiro da atualidade é pérfido. Não era
como no caso das vigas da perimetral que haviam sumido misteriosamente e que
poderiam ser ignoradas até que a estação climática mudasse e cada carioca
esquecesse. E olhe que alguns não esqueceram, felizmente. O Cristo Redentor não
era visto mais lá no topo do Corcovado. Nenhum governante apareceu. O corretor
imobiliário caiu no choro por não poder mais vender aquele conjugado na Glória
com vista lateral da vista parcial para o Cristo já imparcial. A mulher
amargurada que trabalhava como acompanhante de uma idosa em Copacabana pediu um
milagre, uma graça divina, algum sinal para que pudesse acreditar que Deus
existe. . Recebeu um aumento de salário. Chamou de milagre o que a patroa
chamou de dissídio. Um homem passou gritando pelas ruas vazias que “A natureza
está revoltada. Um tigre atacou um menino no Paraná! O Cristo Redentor tomba no
Rio! É o apocalipse! É o fim dos tempos!”. A tropa de elite assumiu sem
qualquer cerimônia as funções dos bombeiros e embrenharam-se na floresta. O que
começa errado talvez termine errado. O que começa absurdamente torto termina
pior ainda.
- Me diz uma coisa, moleque. Acredita em Deus?
- Sou ateu.
- Ateu daqueles que praticam? Olha lá. Não minta para mim.
- Não estou mentindo. Ateu de ateu mesmo.
Enrugou a testa desenhando interrogações no ar. Nem quis
insistir muito. Descansavam da tentativa da retirada de umas pedras que se
ofereciam como possível rota de saída. Através delas que alguns feixes de luz
arrebentavam dentro da gruta. Nenhuma novidade.
- E o senhor, acredita em Deus?
- Há dúvida neste ateu! – e sorriu.
- Não. Só quero saber.
- Minhas maiores desilusões e meus maiores desamores foram
todos envolvidos por religião. A partir daí acreditei em Deus. Ainda está em
tempo.
- Não vou mudar.
- Quando seu calo apertar e sua mente não aguentar você irá
gritar alguns palavrões e pedirá por Deus. Não sei se exatamente nesta ordem.
O menino não quis dar-se por vencido. E na falta de
argumentos à altura – é sabido que a disputa sempre será desigual – atacou de
qualquer forma o alvo da vez.
- Duvido muito.
- Se quiser que te agrade eu te digo uma coisa que penso de
Deus e se sorrir é porque acredita nEle. Se não reagir é porque está convicto
do seu ateísmo.
- Vamos lá. Manda ver.
- Deus é sádico. Ele gosta de nos ver sofrer. Caso contrário,
ofereceríamos prazeres e não sofrimentos. As promessas são subidas de joelho em
enormes escadarias, exaustão de orações e tantas outras coisas. Ninguém promete
um recital de poesia ou uma suave canção para Deus.
O moleque tentou congelar as reações. Por fim sorriu.
- Vi um sorriso. Não se preocupe. Eu também menti. Essa
teoria não é minha. É do Rubem Alves.
O nevoeiro persiste. Nada se vê na Guanabara.
terça-feira, julho 29, 2014
CONTO DO RIO PÉRFIDO - CAPÍTULO I
Mal conseguiu reagir. Pedras, ruídos e uma opacidade desenganada. Visão torta, paisagem turva. Umidade mais que exagerada. Olhou, ou tentou olhar, para todos os lados. Imprimiu um ritmo crescente de aflição e descrença. Examinou o corpo sujo de terra. Encontrou alguns vegetais jogados pelo corpo. O celular estava em desuso. Totalmente molhado sabe-se lá de quê.A agonia sempre tem som nessas horas. Gritou qualquer coisa inteligível o mais barulhento que pôde. Só o som do eco veio como resposta. Era algo muito parecido com uma gruta.
- Gritar não vai adiantar. Comece me ajudando a subir. Anda!
- Estás surdo, moleque? - repetiu o senhor.
O moleque é um negro, ossudo, esticado pra cima, sanfonado e atende por José Patrício. Impactado pela situação absurda ajudou o senhor sem refutar nem mesmo o fato de ter sido chamado de moleque. Esqueceu a insolência adolescente por detrás do medo desconhecido.
- Qual seu nome?
Tentava elaborar algum sentido para aquilo tudo. Pela primeira vez na vida não entendia o que estava acontecendo. O que seria aquela gruta, os arranhões pelo próprio corpo e aquele velho a tagarelar infinitamente.
O velho aproximou-se e disparou dois cascudos bem no teto da cabeça do menino.
- Tem alguém aí? Acorda pra vida, moleque!
- Para de me bater, seu velho. Chamo José e só quero saber o que está acontecendo aqui. Como eu vim parar aqui? Como o...
- Calma, calma. Vamos localizar essa cabecinha perdida. Só me ajude a sentar nessa pedra aqui.
O velho preparou sua explicação com todas as vírgulas que a mesma merecia.
- Vamos do começo então. O Cristo estava olhando pra mim e eu pra ele. Foi o meu filho Jorginho que me levou para esse passeio. Mas aí? O que aconteceu? O que estamos fazendo aqui? Qual o seu nome?
- Meu nome é José. Eu que acabei de te perguntar o que aconteceu. O senhor disse que ia contar.
- Bonito nome. Bonito nome.
- Você sabe o que houve aqui?
- Bom. Preciso que me chame de senhor. Fica melhor. Na minha época nem existia esse tal de você.
- Que saco! Não sabe de nada, não é?
O velho começou a assoviar como se tudo aquilo fizesse parte do seu pacote de férias. Alongou os braços, esticou e dobrou sequencialmente os punhos. Nem respirou fundo. Enquanto o menino respirava fundo enchendo a boca de desaforos o velho continuava seu ritual. José recuou.
- O senhor poderia contar o que houve aqui?
- Claro, menino. Gostei da sua educação ao me chamar de senhor. Coisa rara.
- Obrigado. Conte, por favor.
- O Cristo estava olhando pra mim e eu pra ele. Jorginho que me levou pra passear. Falando nele, onde está? Você parece muito com meu afilhado. Qual seu nome, menino?
Não era aconselhável irritar-se. José Patrício concluiu que estava perdido sem sequer saber como, onde e ainda acompanhado de um senhor com Alzheimer.
O orgulho carioca nunca tivera sido tão ferido. Nada poderia ser comparável àquilo. Repórteres amontoavam-se pela cidade. Os aeroportos recebiam uma legião da imprensa internacional. Os moradores das redondezas foram obrigados a saírem de suas casas. Muitos foram parar nos hotéis e motéis da Baixada Fluminense. Na zona sul os bairros do Humaitá, Cosme Velho, Laranjeiras e Botafogo foram evacuados. Parte do Rio Comprido e do Estácio também. Os principais portais de notícias estampavam o acontecido na primeira página. O taxista evangélico falava em fim dos tempos. Ativistas organizavam pelas redes sociais um ato público. Alguns falavam em golpe e em volta da ditadura. Um turista mineiro sacramentou para um senhor desavisado: o Cristo Redentor caiu.
- Gritar não vai adiantar. Comece me ajudando a subir. Anda!
- Estás surdo, moleque? - repetiu o senhor.
O moleque é um negro, ossudo, esticado pra cima, sanfonado e atende por José Patrício. Impactado pela situação absurda ajudou o senhor sem refutar nem mesmo o fato de ter sido chamado de moleque. Esqueceu a insolência adolescente por detrás do medo desconhecido.
- Qual seu nome?
Tentava elaborar algum sentido para aquilo tudo. Pela primeira vez na vida não entendia o que estava acontecendo. O que seria aquela gruta, os arranhões pelo próprio corpo e aquele velho a tagarelar infinitamente.
O velho aproximou-se e disparou dois cascudos bem no teto da cabeça do menino.
- Tem alguém aí? Acorda pra vida, moleque!
- Para de me bater, seu velho. Chamo José e só quero saber o que está acontecendo aqui. Como eu vim parar aqui? Como o...
- Calma, calma. Vamos localizar essa cabecinha perdida. Só me ajude a sentar nessa pedra aqui.
O velho preparou sua explicação com todas as vírgulas que a mesma merecia.
- Vamos do começo então. O Cristo estava olhando pra mim e eu pra ele. Foi o meu filho Jorginho que me levou para esse passeio. Mas aí? O que aconteceu? O que estamos fazendo aqui? Qual o seu nome?
- Meu nome é José. Eu que acabei de te perguntar o que aconteceu. O senhor disse que ia contar.
- Bonito nome. Bonito nome.
- Você sabe o que houve aqui?
- Bom. Preciso que me chame de senhor. Fica melhor. Na minha época nem existia esse tal de você.
- Que saco! Não sabe de nada, não é?
O velho começou a assoviar como se tudo aquilo fizesse parte do seu pacote de férias. Alongou os braços, esticou e dobrou sequencialmente os punhos. Nem respirou fundo. Enquanto o menino respirava fundo enchendo a boca de desaforos o velho continuava seu ritual. José recuou.
- O senhor poderia contar o que houve aqui?
- Claro, menino. Gostei da sua educação ao me chamar de senhor. Coisa rara.
- Obrigado. Conte, por favor.
- O Cristo estava olhando pra mim e eu pra ele. Jorginho que me levou pra passear. Falando nele, onde está? Você parece muito com meu afilhado. Qual seu nome, menino?
Não era aconselhável irritar-se. José Patrício concluiu que estava perdido sem sequer saber como, onde e ainda acompanhado de um senhor com Alzheimer.
O orgulho carioca nunca tivera sido tão ferido. Nada poderia ser comparável àquilo. Repórteres amontoavam-se pela cidade. Os aeroportos recebiam uma legião da imprensa internacional. Os moradores das redondezas foram obrigados a saírem de suas casas. Muitos foram parar nos hotéis e motéis da Baixada Fluminense. Na zona sul os bairros do Humaitá, Cosme Velho, Laranjeiras e Botafogo foram evacuados. Parte do Rio Comprido e do Estácio também. Os principais portais de notícias estampavam o acontecido na primeira página. O taxista evangélico falava em fim dos tempos. Ativistas organizavam pelas redes sociais um ato público. Alguns falavam em golpe e em volta da ditadura. Um turista mineiro sacramentou para um senhor desavisado: o Cristo Redentor caiu.
quarta-feira, janeiro 15, 2014
Ajustando a timidez
A sala está vazia do segundo andar desse restaurante simples
de comida caseira aqui no centro de São Paulo. Entre muitas mesas vazias
considero incomum – apesar de ser corriqueiro – os lugares dos cantos ocupados
com uma ou duas pessoas por mesa e as mesas centrais vazias. Vale a mesma regra
para as mesas próximas a televisores e portas. Mas não vale para mesas em
shows. Se bem que os shows são em pouca ou nenhuma luz na plateia.
Considero na pesquisa realizada por mim mesmo às minhas
singelas observações que somos – nós, os tímidos – uma vasta maioria em todos
os cantos. Temos absoluto problema em sermos o centro das atenções. Subir ao
palco então, nem pensar. E falar em público? Só sob a mira de um revólver – e talvez
nem assim. Festas de aniversários incomodam na hora do parabéns. É muito mais
confortável observar, estar em silêncio, ver de longe, notar ao invés de ser
notado. Os tímidos se reconhecem quando cruzam olhares e desviam com
velocidade. Sofrem crises estomacais com
apresentações em grupo, com obrigações da escola, do trabalho e do que mais
for. Praia é um martírio. O tímido pode ter corpo perfeito que mesmo assim se
sentirá altamente incomodado quando vê alguém o observando. Até o simples fato
de andar se torna uma guerra de derrotados.
Os tímidos perdem oportunidades. Deixam de viver histórias.
E sempre se arrependem quando a oportunidade passa. A timidez é vizinha de
porta da depressão. E não sou eu quem está falando isso. São os fatos. Quem
pouco fala muito sofre. É bastante razoável querer sair dessa. Mas, como?
Uma vez tímido sempre tímido. Relato aqui o quanto melhorei.
Da escola não tenho amigo algum. Eu não era ruim, nem bom. Eu simplesmente não
era. Chegava, estudava, saía. Repetidamente à exaustão de todos os anos. Nas
festas a mesma coisa. Nas reuniões de família também. No futebol, no bairro,
nas festas juninas, na calçada nas férias. Tem gente que nem conhecia minha
voz. Daí, entrei na faculdade e resolvi: vou disfarçar. Comecei a brincar,
comecei a me defender. O humor foi minha melhor defesa. Chamar a atenção para
outra coisa me permitia estar no meio. Eu não precisava mais ir pro canto ou
pro fundo. Se bem que eu sou desafiador. Tímido, me meti a liderar coisas.
Apresentava trabalhos fazendo graça. Falava ao telefone no trabalho fingindo
estar falando com algum conhecido. Um dia mesmo numa apresentação para quase
duzentas pessoas pedi para o técnico de iluminação jogar toda a luz no meu
rosto. Não via ninguém. Assim, sozinho vendo tudo branco, fiz a mais desenvolta
apresentação da minha vida. Alguns nem acreditam que eu seja tímido.
Afirmo que quase todos somos tímidos. Alguns brincam de
serem mal-humorados para se defender. Outros dançam para se defender. Outros
cantam, outros jogam, outros ficam sérios, outros fazem discursos, outros se
fazem de marrentos, outras de sensuais, outros não fazem nada. Há quem ainda
não tenha descoberto a própria defesa. Eu ainda sou tímido. Mas escrevo, trabalho e
falo sacanagens para os amigos. Às vezes ser tímido não é eterno. É apenas
questão de ajuste. Ser um tímido melhor foi uma das metas. E, confesso, estou
sentado na mesa grudado na parede, longe do centro e da televisão.
quinta-feira, janeiro 09, 2014
A Barreira do Oi
Reparei na barreira do OI que impomos aos desconhecidos por
aí. Para o zelador mais fechado, para o padeiro do bairro, para o atendente do
caixa do banco, para o cobrador do ônibus – os poucos que sobraram -, para o
conhecido da academia. Até aí, pela lá, tudo normal apesar da normalidade.
Estamos sempre fechados mesmo que sejamos bastante expansivos. O desconhecido é
chamado de estranho desde sempre e não pode ser à toa. Não falamos com
estranhos e nem aceitamos nada de estranhos. Estranhos, repara? E não
desconhecidos.
O OI, neste caso, é para quem não está dentro de nossas
vidas ou por enquanto ou num estado eterno. Tem gente que do início ao fim da
vida não conhece todo mundo do bairro, mas é amigo do rapaz lá de Manaus, mesmo
que virtualmente. O OI de passagem. Conhecemos pessoas de OI e TCHAU. Mais que
isso só comentários sobre o calor carioca ou a chuva de ontem.
O pior OI é para quem entrou e saiu. É pior porque você
transformou o conhecido em desconhecido, ou estranho. Aquela ex-namorada que
você via totalmente pelada, que você sabia cada mania, cada significado de cada
risada e cada plano passa por você resumida a um cumprimento. É natural. Não há
como haver intimidade eterna justamente porque provavelmente eu vejo outro
alguém pelada, sei de cada mania, cada significado de cada risada e cada plano.
É uma substituição não exatamente plástica e descartável.
Talvez seja pior com amigos. Não houve desquite, só descaso.
Não houve aviso, só afastado. Aquele amigo que dormia na sua casa e
confidenciava do seu choro hoje é resumido a um “oi” no cruzamento da escada da
saída de uma estação de metrô qualquer. Em um mundo de amigo que adiciona amigo
do amigo porque passaram cerca de uma hora dentro de um mesmo restaurante com
rodízio e compartilharam risadas em grupo. Da internet se você gritar meia
dúzia pode responder. Bem pouco perto dos mais de quinhentos amigos virtuais,
literalmente.
Não existe contrato de estabilidade entre quem é mais que um
OI que não impeça de viver vários TCHAUS. Todos invisíveis, alguns prematuros e
todos completamente reversíveis. Na relação escritor x leitor peço, não
abandonem a leitura sem ao menos uma justa causa. Estamos combinados?
sexta-feira, julho 12, 2013
Amar não cansa
terça-feira, dezembro 18, 2012
Pra caixinha
São dez reais
Pro caixa do supermercado
São 5 reais
Pra menina da padaria
São oito reais e cinquenta
Pro cabeleireiro
O do café
Pro lixeiro
O do pão
Pro pedreiro
Mais o troco do cinema
Pro moço da pipoca
Daí fui pagar a prestação da casa
Ninguém me deu caixinha.
Pro caixa do supermercado
São 5 reais
Pra menina da padaria
São oito reais e cinquenta
Pro cabeleireiro
O do café
Pro lixeiro
O do pão
Pro pedreiro
Mais o troco do cinema
Pro moço da pipoca
Daí fui pagar a prestação da casa
Ninguém me deu caixinha.
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