quarta-feira, maio 27, 2015

UM MURO DE BERLIM (CRÔNICA)

Põe o som suave da gaita de afinação em dó para início de conversa e para que não se altere na leitura. Não imagino que exista um instituto de pesquisa que tenha contabilizado quantas paredes temos na cidade mas sei muito bem afirmar que há mais concreto que gente. Sabe a encardida expressão "selva de pedra"? A conta é bem fácil de ser feita. Paredes são frias. Paredes nos fecham, separam, protegem, isolam, aquietam, secam, silenciam. As pessoas, bem, sabemos como são. Não é desacordo entre temperatura e substância. Acredito que já somos mais concretos que carne, mais reboco que pele, mais cores sóbrias que bronzeado. O ambiente faz o homem. Olhe em volta, por exemplo, bem no centro do Rio de Janeiro: somos mais sombras que plano aberto. Somos mais closes que aéreos.
Outro dia li que no mato existem olhos enquanto nas paredes existem ouvidos. Para um homem de má audição como eu a roça é sugestiva. Venho preferindo trocar paredes por cercas, grades por alguns adidos. Há um muro de Berlim dentro de casa, dentro do condomínio, na sala, na varanda deserta. Um muro de Berlim dentro de mim. É assim que atravesso a cidade todos os dias para trabalhar. É assim que os trajetos são formados. É ainda pior que sejam poucas as interações prazerosas. São oito horas por dia com pessoas por obrigação. Mas você diz que é por isso que não fala com ninguém do seu prédio. Prédios são casas amontoadas. Curiosamente nos prédios as pessoas são menos amigas das outras que nas casas. O fator rua é preponderante para o bom convívio. Como bem brada o Sarau Rua, dos talentosos Victor Escobar e Guarnier, da cidade de Nilópolis, o amor que a rua dá só quem vive a rua sente. Não à toa o profeta Gentileza escolheu pilastras da Perimetral, no Rio, para comunicar a sua.
Esqueça o Muro das lamentações, a Grande Muralha da China e as Muralhas de Constantinopla - ou Istambul. O cinza da cidade precisa ser um pouco mais colorido. Não adianta nada reclamar da falta de "bom dia" do patrão se nunca houve o seu "bom dia" para a faxineira. Isso no ponto de ônibus, na fila da lanchonete, ao atravessar a rua, na aguardo da senha. Que as mesmas pessoas que são condescendentes com a longa espera na fila do Outback sejam igualmente pacientes em outros momentos da vida. Já ajuda bastante. Fim do solo da gaita.

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