quarta-feira, setembro 29, 2010

Me deporta

Embarcamos sempre numa viagem qualquer, as vezes sem destino, as vezes sem companheiro, as vezes sem carro, carroça ou avião. Nunca nos perguntam. Nos embarcam sem permissao alguma. E a falta de consentimento faz com que se torne uma viagem horrorosa, desgostosa, mulher peluda de pernas grossas. Nem um carinho é feito. Somos uma pena no furacão; uma gota na tromba d`água; um puro no congresso; um romântico no século XXI. Todos são levados, assoprados, arrastados, enlameados.
Somos lançados ao mar bravio, ao ar sombrio, sem bussula, sem boias salva-vidas. E é a partir daí que vai ou racha; quebra ou encaixa; afunda ou abandona; ou fode ou sai de cima ou debaixo; ou chuta ou sai da frente; ou assa ou queima;
Mal cheguei, mal passado e já to saindo. Não queria ter vindo mesmo. Me deporta que eu gosto.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Texto Dilmafiga

Ganhei um abraço de março. Acho que foi junho que mandou dar já que ele ainda se demora a chegar. Uns diazinhos a mais e o inverno tira dos armários os casacos e as meias. Não aqui no Rio, claro. Lá pra baixo de São Paulo. Mas o abraço de março foi tão simpático que até a porta se abriu para que maio passasse sem noivas mesmo. Talvez fosse um abraço de piedade.
Setembro veio meio independente. Me agarrou pelas pernas. Me levantou de ponta a cabeça. É sempre um mês diferente. Veio uma carreira de novas e velhas. As velhas são umas senhoras nada caducas antes da eleição. As novas são as meninas burras da nova geração.
Outubro vem vindo, sabido. Cospe um domingo. E é uma das raras vezes que a segunda-feira é digna. Primeiro, véspera de feriado. Segundo, haverá passado a pior das eleições que o mundo já teve. Esquisito é que é tanta opção ruim que vai ganhar quem roubou menos, quem matou menos, que escondeu mais. Um novo político bonito é o ex-presidente da UNE e ex-prefeito de Nova Iguaçu, tipo aquele do impeachment. Um molusco versão boneca inflável. Presidente de plástico. Anda tudo muito colorido. Daí que embassam as vistas de quem queria pelo menos ver quem anda fodendo. É essa gente que pelo menos gosta de saber ao invés de ficar no escuro.
Daí novembro vai encerrando os trabalhos. Vale de nada. E dezembro começa a festa estranha de tanta gente esquisita. Afinal, posso nunca ter acreditado em diabo algum mas sempre espero que algum deste apareça dizendo que tudo não passa de uma pegadinha.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Ao contrário da música do Herbert

O telefone tocou. Ele foi lá e cortou o fio. A energia elétrica acabou. Uma música invadia pela janela. Fechou todas as persianas. Pegou o celular e pôs uma qualquer para tocar. Nada muito agitado ou irritante. Preparou as flores, as pétalas e o aroma. Por não ser um homem bonito era um homem romantico, apaixonado, digno. Era um dos que se fala por aí homem com H maiúsculo. Não era meloso. Não era ignorante. Não era bobo. Não era machão. Não era ridículo. Não era garanhão. Era homem. O Homem.
Desamarrou a blusa mais parecida com uma bata. Fez deslizar o pano pelo ombro esquerdo dela. Surgiu a alça do sutiã. Pôs os dedos entre a alça branca e a pele dourada. Fez escorregar até o ante-braço. Encostou os lábios nos ombros dela como se agradecesse pelo momento, pelo cheiro, pelo sorriso, pelos suspiros. E ela realmente suspirava. Cada movimento dele a fazia contrair os músculos, a fazia prender por milésimos de segundo a respiração. Ele sentia isso. E se sentia o homem mais feliz do mundo. Deslizavam as mãos pelo corpo um do outro como se tentassem provar que aquilo ali existia. As coxas grossas dele a firmeza com que ele segurava a cama para que não fizesse barulho quando ela se mexia em cima dele a deixavam louca. A cintura fina dela e a força com que ela o apertava como se dissesse que não quisesse que ele partisse o deixava louco. Fecharam os olhos e deixavam se tocar. Permitiam. Talvez seja mais ou menos por ai. Permitiam-se. De vez em quando era bom nada mais importar. Ficaram de olhos fechados, quietos até que os pensamentos se cruzaram e viram que não era o corpo um do outro que fazia o tesão ficar daquele jeito. Viram, sim, que sexo com amor é a melhor coisa do mundo. E amaram-se como se fosse a primeira e última vez. Ao contrário da mulher da música do Herbert Viana ela não disse adeus, nem chorou sem nenhum sinal de amor.

terça-feira, setembro 07, 2010

É bem escrito demais pra ser bom

É quando tudo começa a ficar muito mais que meio torto. Maria Rita canta bem demais para tocar no meu dia a dia; ta calor demais pra ir a praia; Veríssimo é bom demais para a Academia Brasileira de Letras; seu cozido é bom demais para que eu possa comer; esse trem é bom demais da conta pra que mineiro possa ver; tá muito bonito pra um fotógrafo retratar; é chimarrão demais pra ser gaúcho; é consoante demais pra ser alemão; é elegante demais pra ser italiano; tá muito certinho pra que possa ser medido; é muito oval para ser circuito de automobilismo; é exata demais pra ser matemática; é muito gay pra parecer cazuza; é muita calcinha pra ser o Wando. É muito sangue pra ser um dos jogos mortais; é muito bom gosto pra ser Woddy Allen; é muito gostosa pra ser capa de revista maculina; é muito linda pra ser jornalista; é muito forte pro halterofilismo; é muito sedutor pra um vampiro; é muito ficcionista para ser um escritor; é bem escrito demais pra ser bom; é bastante viajado pra um turismólogo; é demais do contra pra ser mulher; é muito teimoso e nem parece um homem; é independência demais para um sete de setembro; rebola demais pro axé; xinga demais pra ser funk; corre demais pra ser tempo; é velho demais para saber tanto; é saudade demais pra ser amor. É verdade demais para ser ficção; é rápido demais para ser nunca mais; é longe demais para ser impossível; não é tarde demais para ler um livro. Talvez eu seja apenas o solteiro mais bem acompanhado do mundo. É amor demais pra amar sozinho.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Como músculos

O amanhã começou hoje. E muito me perdoem os literários catedráticos da língua. Eu normalmente tenho prazer em respeitá-la. Mas, verbalmente o amanhã começou hoje. Diferente do que pensei o descanso tem que ser adiado. Nada de feriados prolongados, folgas agrupadas, ócio mal administrado. Os dias são como músculos que se extendem de uma ponta a outra. Precisam de exercícios. São como nervos nos quais uma ponta afeta a outra. Precisam de treino, testes, movimentação, ritmo. São como dentes em nosso corpo. Aparentemente bem. Dente mal cuidado derruba o mais forte dos homens. Derruba o mais bem preparado dos atletas. O músculo do amanhã começa hoje. O hoje começou ontem. Não são fatias que separam o bolo. O bolo é o todo. É o conjunto e não as partes. É o prato inteiro e não os cacos. É como chutar a bola para o alto sem que ela possa tocar ao chão. É o equilibrio. É a política de não-agressão. É Veríssimo. É a ironia. É o auto-conhecimento esfrentando chuva e vento. É o auto-convencimento. É o amanhã começando hoje, agora.

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