quarta-feira, maio 18, 2011

Menininha no banco de trás

O pai dirige pela Linha Vermelha quando o trânsito pára.
- Feliz são aqueles que não vivem nesse trânsito caótico, não pagam esse imposto caríssimo, não são obrigados a comprar uma cadeira pra criança tão cara, não pegam ônibus lotado, não precisam acordar de madrugada pra trabalhar, não precisa pagar muito na passagem de avião, não dependem de dinheiro pra serem felizes, não morrem de frio, nem de fome, nem de calor, nem gordos, nem sem amor...
Enquanto a menininha na sua cadeira no banco de trás diz:
- Papai, feliz é quem tá morto?

segunda-feira, maio 16, 2011

Vou jogar meu coração pela janela

É pra ver se ele quica e volta?
É pra ver se alguém corre pra pegá-lo no colo?
É pra ver se acerto a cabeça de um homem?
É pra ver se cai numa cesta da sonhos de padaria?
É pra ver se cai numa poça d'água e faz pedra virar borracha?
É pra ver se desmonta todo?
Vai que alguém monta e deixa pra tras uma peça ruim?
Dizem que dá multa jogar coisas pela janela.
Coração não é coisa.
Nem sujeira.
Nem nojeira.
Nem latinha de cerveja. Cabe nessa lei?

Vou jogar meu coração pela janela
É pra ver se assam no churrasco de domingo;
É pra ver se dará falta dele o meu amigo;
É pra ver se causa gargalhada no gringo;
É pra ver se alguém pinta de azul;
É pra ver se desliza no mapa até a região sul;
É pra ver se um músico de rua faz de inspiração;
É pra ver se uma menina cuida como bicho de estimação.

sexta-feira, maio 13, 2011

Tem um meridiano que passa lá em casa

Afinal de contas, foi de um perfume que gruda a culpa por isso tudo. Mania de delegado, afinal, de procurar culpado achando que tudo é crime. Ou mania de matemático prático de pôr lógica em todo drama. Nem todo dramaturgo mata alguém no fim de suas histórias. Nem todo ator está mentindo quando beija o sapo ou quando chora engraçado. Com licença mas pus a culpa no perfume.
Boca grande, lisa, macia, musse, rosada, vermelha, de revista, sem revista alguma, sem suspeito, com denúncia, com crime, com absurdos, com o absurdo de se gostar conhecendo tão pouco e tampouco importava ser longe, perto, de avião, de carroça. Começou teimoso e não ia mais terminar. Me cutucaram um mês depois. Eu aqui e ela lá. Seria mais fácil jogar uma âncora pra trazer o barco pra perto do litoral. Seria mais fácil amarrar litoral carioca com interior paranaense. Eu que sou viciado em mapas reparei que só que jogaram as linhas erradas e perdidas. É um tal de trópico pra lá, meridiano pra cá. Fui ver e o trópico pode ligar Santiago no Chile a São Paulo, na direção horizontal. Eu quero subir e descer. Que ela escale então um meridiano ou que eu faça rapel numa linha dessas. Uma linha que me dividiu bem ao meio entre o mar vivo e o mar Morto, entre nomes bíblicos e outros mundanos, entre Jude dos Beattles ou Lacraia do funk. Era uma linha fácil de achar e que me dividiu em duas partes: a que quer de novo esse beijo e a que quer o beijo, o abraço, as risadas... E, só pra avisar, menina, tem um meridiano que passa lá em casa, te deixa na porta. É só bater e ficar a vontade.

domingo, maio 08, 2011

Amaria, mas...

O futuro do pretérito é um tempo verbal enganador. Engana o português, o leigo e até o professor. É como se eu fosse mas tem sempre um porém. É mais ou menos dizer que eu ia mas não vou. Ele diria mas não diz. Ele olharia mas não vai olhar. Ele amaria mas não amará. É um tempo verbal carregado de condicionalidade que quase ninguém vê.
Se o gato escaldado em água de cheiro doce disser que te beijaria você, por conveniência, poderia entender que ele quer te beijar mas tem vergonha, por exemplo. Se ele for feio, você pode achar que ele quer te beijar se você quisesse. Se ele for amigo, ele poderia te beijar se não fosse amigo. Então não me venha querer dizer que me amaria mas não amará. Isso não se diz. Não quando você diz uma coisa mas seus olhos e pernas dizem outra. Sei que odeia reticências. Só queria te dizer eu te amaria, mas...
É o canalha do futuro do pretérito saindo da gramática pra se meter em coisas do coração.

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