sexta-feira, agosto 04, 2017

CADA VEZ MAIS ESCRAVOS DOS CELULARES

Ontem fui ao show do Mano Brown intitulado Boogie Naipes. Banda mandando muito bem um funk, com forte influência do Soul, do Jazz, do Funk e da MPB. O momento mais acalorado do show deu-se quando o ex-Racionais convidou casais para uma grande dança em cima do palco. Com voz grave indicou aos homens como deveriam agir com suas companheiras. Era uma dança, simples. Poucos dançaram. Motivo: estavam tirando fotos e fazendo vídeos em cima do palco só para dizer depois que estavam em cima do palco. Mano Brown foi até delicado:

"Vocês estão cada vez mais escravos dos celulares. Estão perdendo a noção. É pra dançar! Vai perder a dignidade. Vai perder a vida. Se liga, mano!"

Poucos se tocaram. Vos pergunto, sem demagogia alguma, se vale a pena passar a vida registrando no celular e esquecendo do coração. O celular - e essa necessidade de publicar para "amigos" o que estamos fazendo - está fazendo com que a gente não viva, fazendo com que a gente só pareça viver. Para ficar mais claro, estamos levando o hábito de inventar humores e personalidades virtuais para a vida. No dia a dia as pessoas estão - e já faz um tempo - desligadas do mundo real. Seja dirigindo, seja na mesa de bar, seja no trabalho, seja até na cama. Quantas vezes você se viu repetindo alguma coisa pelo fato de seu interlocutor estar repentinamente imerso na tela de um celular?
Não há nas regras de aceitação de uso de celular e de seus aplicativos que devemos oferecer atenção irrestrita, tampouco a obrigatoriedade de que tudo seja respondido e visualizado instantaneamente. Ao contrário de muita gente que critica o uso do celular não sou o defensor do fim do uso, nem demonizo a sua existência. Acredito que Machado de Assis teria, sim, um perfil no Twitter e que Shakespeare escreveria grandes textos no Facebook. E ambos usariam o celular. Sejamos anacrônicos e justos. A nossa era é essa. Devemos apenas equilibrar mais os movimentos das mãos e dos olhos. Talvez seja uma solução paliativa treinar o pensamento. Não precisamos primeiro pensar no que iremos postar. Pensemos primeiro no que vamos fazer, em como podemos sorrir, em como podemos nos satisfazer e só depois, se der e for necessário, publicamos.
Aposto que muita gente vai sequer lembrar das vozes das vocais de apoio (backing vocals) da banda, dos solos de trompetes, do baterista cheio de energia e do grave de Mano. Como virou moda por aí, em menos de 24 horas tudo vai caindo no esquecimento. Alguém quer apostar?

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