domingo, outubro 07, 2007

Vidinha mais ou menos


Ah, bendita normalidade que nunca se apresenta à minha porta.
Fosse coisa morta
saberia o repouso da sua horta.
Pare de galhofa,
me dê a chance de conquistá-la,
me dê a poesia perfeita,
o minuto perfeito,
o espaço divino no tempo,
o sorriso sincero de um bom sujeito.
Tem jeito?

Senhora razão deixa de lado o sermão,
cuide do político ladrão
e me deixe resolver coisas do coração
com a menina emoção.
Deixe eu me apresentar como homem,
deixa eu tentar fazer o sentimento sobressair sobre o racional.
Me cobre, se lhe convir, futuros dividendos
que, eu, lá na frente, feliz,
terei riqueza suficiente
para pagar a tua vidinha mais ou menos.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Primeiro Encontro (Fim)

Morar sozinho é coisa pra poucos. Sem dúvida, poucos homens saberiam lidar com isso. A casa está terrível. Pior que ela apenas o meu humor. Sei como as mulheres se sentem quando tratadas como objeto. Ontem fui o uso, hoje caí em desuso. Decidi desistir. Não arrumei nada, deitei.
Beijo. Que beijo. Que beijo o quê? Nem foi tão bom assim. Só por ela ter uma boca com os limites bem definidos, fina, rígida onde deve ser, flácida onde deve ser, assim bem deliciosa? Só porque ela não é grande, não é nadinha feia e nem um pouquinho encantadora? Não é por nada mas porque ela fora embora? São quantas dela então? Seriam duas? Três? Seria casada? Insana? Gêmea? Era Sofie, um tipo de mulher que só se conhece uma vez na vida.
Cinzas eram o ar e aquele resto de bilhete ao chão da sala. Apenas uns pedaços do papel foram salvos. E diziam:

"...Ric...", "...igo. Não...", "...enc...", "...espere."

- Ric. Igo. Não. Enc. Espere. S.Igo. Ric.S. Não espere. Claro! Sofie foi uma dama ao me avisar para não esperá-la. Homens. Romantismo. Morre o meu poema, nasce a minha acidez. Ao menos fora digna. Quer saber? Vou varrer essa história.
Pontualmente seis e cinqüenta e nove minutos daquela manhã. O cheiro de sofie entranhado no seu corpo não saía com aquele banho. Sabonete. Shampoo. Creme. Condicionador. Loção. Sem noção. A água que deixara o corpo quente entrava em choque com o chão gelado. Nu, diante do mesmo espelho em que notara suas marcas do sexo divino, reparava no estado ridículo em que se encontrava. Uma gota caminhava desde a franja, miúda, passando pela testa, sombracelha esquerda, acima do nariz, canto direito do nariz, bochecha, boca, queixo, chão. Apareceu mais uma. E outra. Mais outra. Eram lágrimas. O choro acanhado de um homem.
O cheiro permanecia. Dindon. Quem seria? Cinco minutos para a campainha parar de tocar ou me permitir um tempo suficiente para desfarçar o estrago que Sofie fez ao meu rosto.
- Sim? Sofie?
- Demorei? Leu meu bilhete?
- Eu...
- Não leu? Dormiu demais, é? Não quis te acordar. Agora feche os olhos.
- Eu...
Caminhamos até o sofá ao fundo da sala, passamos pelo tapete branco e peludo. Eu, vendado pelas mãos dela e pela minha vergonha.
- Seu rosto está diferente. Mesmo assim continua como gosto.
- É o sono.
Foram mais cinco minutos. Ela desapareceu do meu lado. Não abri os olhos nem por curiosidade. Ela faria o que quisesse. Estava atordoado em ter queimado o papel e ter pensado tudo aquilo. Até chorei. Ela pediu para abrir os olhos. Estava surdo. Repetiu e eu abri.
- Gostou?
- Um sonho.
- Também tem. Além de sonhos tem suco, bolo de laranja com cobertura de chocolate, bombons, queijos, leite, biscoitos, morangos, maçãs, uvas e tudo mais. Vamos.
- Nossa. Mas é grandioso. Muito. Muito obrigado.
- Me agradeça com um beijo.
Mais um daqueles beijos. Ao separarmos as bocas Sofie reparou no resto do resto de cinzas no chão da sala.
- Andou fazendo fogueira?
- Não, eram uns papéis.
- E que papéis picotados são esses?
- São...
- "...Ric...", "...igo. Não...", "...enc...", "...espere.". Você queimou meu bilhete?
- Sofie...
- Não. Pensei que fosse diferente. Pensei ser homem. Pensei que fosse o homem.
- Fora uma série de enganos da minha cabeça. O que dizia o bilhete?
- E foi o maior engano da minha. Dizia "Ricardo, não se preocupe comigo. Não se preocupe conosco. O nosso encontro foi maravilhoso. Saí para resolver algo nosso. Me espere. Beijos". Pena você ter interpretado o que quis.
A vida me surpreende. Dindon. Atendi a porta reparando nas lágrimas recolhidas aos olhos absurdamente negros dela.
- Senhora Sofie? Violetas em nome do senhor Ricardo.
- Obrigado.
- Violetas?
- Violetas para encerrar todo mal entendido e, agora sim, começar a vida.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Primeiro Encontro (Continuação)

A visão turva começa a clarear. Me sinto leve. A vida pudera assim ter sentido. Seria precipitado chamá-la de mulher de minha vida? O amor permite exageros. Seria amor? Mais um exagero então. São as nuvens de maio tocando o outono com frutas suaves. São dez horas matinais. É cedo. Podia dormir mais, esticar o sonho bom. Abro os braços espaçados no momento mais confortante da minha cama. Ela não está. Como surpreendera antes, devia preparar o café. Sinto até um aroma diferente. Fervente, indigente.
Nossa! Que bagunça belíssima. Olhe ali minha blusa branca toda amarrotada como a minha cara, coisa falha essa barba. São sapatos, chinelos, meias, lençóis, até um botão perdido da camisa ali notei. O bom desse momento é achar tudo belo. Dizem que o homem não telefona ao dia seguinte. Eu juro que telefonaria se não estivesse aqui tão perto dela. Ainda sinto o cheiro. Sabe a cor do metal quando em fogarél? Aquele avermelhado vivo. É assim. Sou um metal, perdoa ser leigo em química, absurdamente evaporando, liquefazendo, derretendo, amando.
Uma boa idéia. Uma surpresa. Mandarei entregar flores em minha casa o quanto antes. Violetas para ela. Morena meio branca esculpiu em mim os pecados mais virtuosos. Bombons, cravos, doces. Ventilador quebrou, o filme nem acabou e o beijo na boca fora apenas a primeira parte do corpo em que as bocas tocaram. Vou buscá-la.
Sorrateiramente. Assim mesmo. Planando a favor do silêncio. Banheiro, corredor, escadas, varanda, espelho. Estou demarcado. Um arranhão delineado sob o cóccix. A tundra de mim deve estar com o odor dela. Temos provas. Cozinha. Deverá estar lá.
- Sofie? Sofie? Não se esconda. Sofie?
Cozinha arrumada. Sala, só pode. Nada dela. Deserto.
- Sofie? Não se esconda.
Noto algo diferente. Um bilhete amarelado dependurado à porta. Peguei-o.
- Ah Sofie.
Dobrado na palma da mão, estudei seu cheiro ao longe, corri os dedos pelas esquinas da folha. Um papel como lembrança. Foi-se. Ao menos sem dar adeus.Queimei o papel. Me arrependerei, sei, melhor assim.
- Ah. Sofie.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Primeiro encontro

Dez horas matinais. É tarde. É tarde pra uma manhã calorosa. O dia. Ela vem. Lavar a louça de ontem, varrer a casa inteira, fazer brilhar o chão, arrumar a mesa, o toalha mais desenhada. Velas? Seria bom? Duas ali, duas aqui. Música. Roupa Nova é uma boa pedida? Desfaz a mesa. Refaz a mesa. Ela vai gostar. Ela vai gostar?
Macarrão. Molho vermelho. Queimei. Treze horas já. Talheres de prata, meia luz. Arruma daqui. Arruma de lá. Limpa o chão do molho caído. Perfuma o já perfumado. E eu?
Bermuda ou calça? Calça. Blusa. Azul ou laranja? Branca, pronto. Descalço. Estou em casa. Um filme. Ficção? Ação? Romance? Tem comédia ali na estante. Todos então. Sofá arrumado, estante e tudo no mais, correto. Uma lareira seria belo. O ar-condicionado pra refrescar o coração acelerado.
Din-don. Treze horas e vinte e cinco minutos. Nada feito. O olho mágico denuncia ela num vestido negro, matador como as sombras dos olhos, uma maquiagem que tirarei num banho. Atendi a porta.
- Mas eu não arrumei nada. O macarrão queimou. O molho sujou. Perdi a hora. Não me arrumei. O cd do Roupa Nova tá arranhado. Confesso, estabanei no nosso primeiro encontro.
- Nos conhemos a três semanas. Esse não é nosso primeiro encontro. E eu adorei não ter dado certo como planejou. Agora faremos o nosso encontro.
- Adorou? - semblante espantado e admirado.
- Sim. Um ventilador no lugar do ar-condicionado. Um filme qualquer, será coadjuvante. Uma comida pedida ao telefone para ganharmos tempo para olharmos estrelas, por exemplo. E sem mesa. Comemos estendidos ao chão, se permitir, claro.
Um beijo encerra a conversa e começa a vida. O primeiro encontro.

domingo, setembro 23, 2007

Pequena Nota Musical


Estou fazendo uma cara de sexta-feira treze.

Morro de rir comigo mesmo

Ao notar que ultimamente sou alguém

Cheio de referências

Referentes a porra nenhuma.

É apenas um salto no assalto,

Uma espécie de suspiro antes de um pulo.

Um pulo parado no mesmo ponto.

Ah, eu fico tonto.


quinta-feira, setembro 20, 2007

Conversando com Pessoa


Estou passando por uma fase que, como bem disse Fernando Pessoa, chamo de crise. Fosse na agricultura, disse Pessoa, estaria passando por uma "crise de abundância". Aquela mulher faz assim comigo. Faz até pôr seu nome em meio às palavras que escrevo, coisa que raramente fiz. Ainda mais um nome proibido. Faz abundar a inspiração. Faz usar palavras nos locais certos, faz escrever em poesias até o mais banal dos fatos. Vai ver é por isso que estou mais perto do meu sonho. Pessoa iria adorar conhecê-la. E eu adoro esse meu privilégio.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Guerra de brinquedo

Corna cronologia. Nascer, crescer,guerrear e morrer. E a guerra é feroz.
É apenas o início onde os combatentes dispões suas armas. A grande guerra está apenas começando e eu já me sinto com uma bruta vantagem. A vantagem maior é minha. Me acham fraco.
E tenho comigo que no fim direi que entre mortos e feridos salvaram-se todos.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Sou sua banda


Quero ser seu artista
Cantar para você
Ser sua banda
Seu guitarrista
Seu todo
E olha que até me esforço pra ser bom
E olha que até me esforço pra ditar o tom
Do quanto te amo.


(Poema espontâneo de uma época da minha vida)

quinta-feira, setembro 06, 2007

O bom estúpido

Preciso cometer uma boa estupidez. Cometer comedido, claro. Mas que estupidez é comedida? Eu sei das cometidas, e só. O controlável desejo de ser o mocinho do meu filme às vezes se descontrola, perde o rumo e sai correndo sem direção até eu perceber que o derradeiro eu é descontrolado, absurdo e estúpido. Um adorável estúpido só pra sair desse marasmo.

domingo, setembro 02, 2007

Poemas e promessas

Poemas e promessas

Os poemas e promessas
Ó, as suas palavras meça.
Aos rabiscos da tinta invisível
Ó céus, cai chuva demais.
Aos outros poemas que escrevi
La no aconchego
Chega de entendimento
Onde estão as ausências?
Pretenção sua, meu amigo
Volte
Vote nisso
Que o ideal da poesia do Leoni
É o mais viável roliço
Ente invariável
Volte
Habitat de águia
Nao é o ninho
E sim
O céu.

sábado, agosto 25, 2007

Boa morte dela

Reparo as coisas erradas quando sinto que a morte sente pena de mim. A morte, certa vez li, ouvi e vi é piedosa, meiga e tem pena de mim. A fuga daquele clichê que a traduz "cruel, sádica e fria" fez surgir holograficamente uma morte en persona, morena e faminta, honesta e bela.
Penso, nada mais justo. A vida torna-se valiosa sobretudo pela existência da morte. Os contrapontos, como a teoria econômica da livre concorrência, é que valida um e outro. A morte valida a vida, o Faustão valida qualquer filme, o avião recentemente validou o ônibus, este valida os trêns. que por sua vez validam qualquer caminhada.
A morte é bem boita e dizem que não é. Ou não é aceitável que a morte seja uma mulher linda, ética e bem-sucedida?

segunda-feira, agosto 06, 2007

Livreiro


Inspira o leitor a arte de não saber, ou saber cegamente. O sim por si só, dizia que não o tempo todo. Ele induzia. E trazia de volta. Traiu ou não traiu? O meu professor de "teoria da conspiração" foi ele. E como uma arma da Idade Média ele machucou, ou adentrou no meu castelo de repugnância e tolice. Um Machado. Um Machado de Assis.Devo ler pela trigésima quinta vez Dom Casmurro e chegar à óbvia sensação de que mais que traições, a dedução da mente humana é o que reina.