Morar sozinho é coisa pra poucos. Sem dúvida, poucos homens saberiam lidar com isso. A casa está terrível. Pior que ela apenas o meu humor. Sei como as mulheres se sentem quando tratadas como objeto. Ontem fui o uso, hoje caí em desuso. Decidi desistir. Não arrumei nada, deitei.
Beijo. Que beijo. Que beijo o quê? Nem foi tão bom assim. Só por ela ter uma boca com os limites bem definidos, fina, rígida onde deve ser, flácida onde deve ser, assim bem deliciosa? Só porque ela não é grande, não é nadinha feia e nem um pouquinho encantadora? Não é por nada mas porque ela fora embora? São quantas dela então? Seriam duas? Três? Seria casada? Insana? Gêmea? Era Sofie, um tipo de mulher que só se conhece uma vez na vida.
Cinzas eram o ar e aquele resto de bilhete ao chão da sala. Apenas uns pedaços do papel foram salvos. E diziam:
"...Ric...", "...igo. Não...", "...enc...", "...espere."
- Ric. Igo. Não. Enc. Espere. S.Igo. Ric.S. Não espere. Claro! Sofie foi uma dama ao me avisar para não esperá-la. Homens. Romantismo. Morre o meu poema, nasce a minha acidez. Ao menos fora digna. Quer saber? Vou varrer essa história.
Pontualmente seis e cinqüenta e nove minutos daquela manhã. O cheiro de sofie entranhado no seu corpo não saía com aquele banho. Sabonete. Shampoo. Creme. Condicionador. Loção. Sem noção. A água que deixara o corpo quente entrava em choque com o chão gelado. Nu, diante do mesmo espelho em que notara suas marcas do sexo divino, reparava no estado ridículo em que se encontrava. Uma gota caminhava desde a franja, miúda, passando pela testa, sombracelha esquerda, acima do nariz, canto direito do nariz, bochecha, boca, queixo, chão. Apareceu mais uma. E outra. Mais outra. Eram lágrimas. O choro acanhado de um homem.
O cheiro permanecia. Dindon. Quem seria? Cinco minutos para a campainha parar de tocar ou me permitir um tempo suficiente para desfarçar o estrago que Sofie fez ao meu rosto.
- Sim? Sofie?
- Demorei? Leu meu bilhete?
- Eu...
- Não leu? Dormiu demais, é? Não quis te acordar. Agora feche os olhos.
- Eu...
Caminhamos até o sofá ao fundo da sala, passamos pelo tapete branco e peludo. Eu, vendado pelas mãos dela e pela minha vergonha.
- Seu rosto está diferente. Mesmo assim continua como gosto.
- É o sono.
Foram mais cinco minutos. Ela desapareceu do meu lado. Não abri os olhos nem por curiosidade. Ela faria o que quisesse. Estava atordoado em ter queimado o papel e ter pensado tudo aquilo. Até chorei. Ela pediu para abrir os olhos. Estava surdo. Repetiu e eu abri.
- Gostou?
- Um sonho.
- Também tem. Além de sonhos tem suco, bolo de laranja com cobertura de chocolate, bombons, queijos, leite, biscoitos, morangos, maçãs, uvas e tudo mais. Vamos.
- Nossa. Mas é grandioso. Muito. Muito obrigado.
- Me agradeça com um beijo.
Mais um daqueles beijos. Ao separarmos as bocas Sofie reparou no resto do resto de cinzas no chão da sala.
- Andou fazendo fogueira?
- Não, eram uns papéis.
- E que papéis picotados são esses?
- São...
- "...Ric...", "...igo. Não...", "...enc...", "...espere.". Você queimou meu bilhete?
- Sofie...
- Não. Pensei que fosse diferente. Pensei ser homem. Pensei que fosse o homem.
- Fora uma série de enganos da minha cabeça. O que dizia o bilhete?
- E foi o maior engano da minha. Dizia "Ricardo, não se preocupe comigo. Não se preocupe conosco. O nosso encontro foi maravilhoso. Saí para resolver algo nosso. Me espere. Beijos". Pena você ter interpretado o que quis.
A vida me surpreende. Dindon. Atendi a porta reparando nas lágrimas recolhidas aos olhos absurdamente negros dela.
- Senhora Sofie? Violetas em nome do senhor Ricardo.
- Obrigado.
- Violetas?
- Violetas para encerrar todo mal entendido e, agora sim, começar a vida.